Istambul, 11/01/2006 – As mortes humanas em razão da gripe aviária deram um salto gigante desde a Ásia oriental até a Turquia. Os especialistas acreditam que o medo se justifica, embora tentem não incorrer em alarmes desnecessários. Enquanto as anteriores vítimas humanas da gripe do frango estiveram confinadas ao "epicentro" desta epidemia animal, no sudeste da Ásia, funcionários turcos da área da saúde admitiram tardiamente que três crianças morreram pelos efeitos da doença na região oriental do país, após atribuírem inicialmente as mortes à pneumonia. Acredita-se que as vítimas contraíram a enfermidade por contato com frangos infectados com o mortal vírus H5N1 transportados por aves migratórias.
O H5N1 é um vírus das aves, mas os especialistas afirmam que poderia mudar em uma forma transmissível entre humanos, desatando uma pandemia semelhante à da gripe espanhola que entre 1918 e 1919 matou 50 milhões de pessoas no mundo, 500 mil delas nos Estados Unidos. Se isso acontecer, o vírus poderá matar milhões de pessoas em questão de meses. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou 76 mortes em razão desta cepa da gripe aviária desde o final de 2003. Até agora não houve contágio entre humanos que pudesse levar à temida pandemia, mas o risco é levado a sério pelos especialistas em saúde do mundo.
Os casos de animais e pessoas afetados pela gripe aviária se espalharam rapidamente desde a empobrecida zona oriental da Turquia, e agora suspeita-se que chegou a 17 aldeias e cidades, incluindo Istambul, uma florescente metrópole de 13 milhões de habitantes. Mais de cem mil aves foram sacrificadas no país. As autoridades pedem aos cidadãos que evitem todo contato com aves, em um país onde muitos criam galinhas no quintal dos fundos de suas casas. A caça está proibida. "A Turquia e o mundo enfrentam a ameaça de uma séria infecção", disse à televisão turca Gencay Gursoy, diretor da Câmara de Médicos.
O repentino foco da doença na Turquia é ainda mais complicado pelo perigo – descartado pelas autoridades, mas não pelos cientistas – de que o vírus pode ter afetado ovelhas no começo do festival de Eid el-Adha (na qual os muçulmanos sacrificam cordeiros) neste país predominantemente islâmico. Mais de dois milhões de animais são preparados para este feriado. Por causa da gripe aviária, a grande indústria do "tavuk" (frango) na Turquia, que oferece espetinhos e "doners" (frango assado em uma espécie de espeto, muito popular neste país), está aterrissando depois de ter voado alto como alternativa à carne vermelha.
O objetivo é conter e erradicar o vírus dentro do país antes que se espalhe mais além de suas fronteiras, disse Juan Lubroth, oficial superior para doenças infecciosas da Direção de Produção e Saúde Animal da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Mas a ameaça é real nos "pontos quentes" da região, que incluem Síria, Irã, Iraque, Azerbaijão, Armênia e Ucrânia meridional, no mar Negro, disse Lubroth à IPS. O especialista disse que a conscientização crescente na Europa sobre a necessidade de criar aves domésticas e manter em dia os serviços veterinários estatais indica que este continente poderia fazer frente a uma expansão da enfermidade.
Mas alguns europeus já estão alarmados. Na Itália, onde foi identificada a primeira gripe do frango há um século, o ex-ministro da Saúde, Girolamo Sirchia, disse que o país estava mal preparado para enfrentar qualquer foco. O atual ministro da Saúde, Francesco Storace, pediu uma rápida coordenação de toda a União Européia, e acrescentou que a Itália adotaria medidas por conta própria, se fosse necessário, para proteger seu setor avícola, que produz 4 bilhões de euros (US$ 4,8 bilhões) por ano. As perdas derivadas da queda do consumo de aves já são calculadas pelas associações de produtores italianos em 500 milhões de euros (US$ 600 milhões).
O ministro reviveu o fantasma de uma proibição de viajar para as áreas afetadas do Oriente Médio. Não se permite a entrada de aves domésticas na UE procedentes do Oriente Médio. A Romênia e a Croácia haviam informado sobre casos de contágios em animais. Acredita-se que todos esses focos estão sob controle sem nenhuma conseqüência para a saúde humana. "A Europa permanece em alerta máximo", disse Christine McNab, coordenadora de informação da OMS. Não se sabe o que levarão para esse continente as aves que migrarem este ano do sul para o norte. A África é a maior incógnita e o maior temor, segundo os especialistas em saúde animal.
Enquanto a temporada migratória para a África terminou sem registro de focos importantes, as conseqüências do contato entre as aves migratórias e as espécies locais são incertas. A maioria dos serviços de saúde humanos e veterinários da África estão mal equipados para enfrentar uma epidemia considerável, com algumas exceções com Egito, África do Sul, Namíbia e Botswana, disse Lubroth. "A potencial propagação do vírus em países africanos poderia ser um desastre", escreveu em outubro, em um artigo, o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf. A gripe aviária surgiu com intervalos regulares em todas as regiões do mundo. Fora o foco atual da Ásia, epidemias recentes tiveram lugar em Hong Kong em 1997-98 e em 2003, ano em que também foram registrados na Holanda e Coréia do Norte.
Desde 1996, esta enfermidade vem tendo um efeito devastador em algumas regiões da Ásia, onde mais de 150 milhões de frangos e patos morreram ou foram sacrificados. O impacto econômico nos países afetados foi estimado pela FAO em mais de US$ 10 milhões. Essa agência da Organização das Nações Unidas disse que em 2005 o vírus se espalhou para o Ocidente, seguindo as rotas das aves migratórias que voavam desde o sudeste da Ásia. Em julho e agosto, os focos se estenderam progressivamente para a Rússia, Mongólia e Kazaquistão, alcançando a Turquia, Romênia e Croácia em outubro. A FAO propõe um plano de ação global de US$ 175 milhões contra a gripe do frango.
Os meios para combatê-la incluem reforçar os serviços veterinários, isolar as aves, implementar uma vacina efetiva, um controle rígido e sacrificar rapidamente os animais possivelmente infectados, afirma a FAO. Também se deve limitar o contato entre humanos e aves de granja e silvestres, frangos, patos e outras espécies domésticas devem ser criados à parte, e a produção avícola deve permanecer isolada de exemplares selvagens, afirma a agência da ONU. Porém, também advertiu sobre a necessidade de não causar um alarme indevido que restrinja o comércio de animais sãos e sobre cozinhar a carne da ave a temperaturas superiores a 70 graus. Somente as exportações da UE equivalem a US$ 1 bilhão ao ano. (IPS/Envolverde)

