Iraque: O novo e particular multilateralismo de Bush

Nova York, 17/01/2006 – Com os milhares de milhões de dólares destinados à reconstrução do Iraque quase esgotados, os Estados Unidos estudam pedir ajuda ao Japão, à Austrália e a outros aliados que arquem com o financiamento dos muitos projetos ainda não concluídos. Conseguir que os aliados assumam a tarefa de ajudar o Iraque será uma prioridade na agenda da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, quando visitar a Ásia, em março. Sua viagem, originalmente prevista para esta semana, foi adiada devido à tensão no Oriente Médio a partir do derrame do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon.

A nova iniciativa acontece apenas um mês depois de o presidente George W. Bush designar Rice para assumir o papel principal na supervisão e coordenação do programa de reconstrução do Iraque. "Os Estados Unidos nunca tentaram reconstruir o Iraque completamente", disse a jornalistas o brigadeiro-general William McCoy. Em uma entrevista publicada semanas atrás pelo jornal The Washington Post, McCoy disse que "supõe-se que isto seja apenas o começo". Entretanto, essa afirmação parece estar em desacordo com declarações anteriores de Washington.

Em discurso feito no dia 8 de agosto de 2003, Bush disse que "em uma quantidade de lugares a infra-estrutura é tão boa quanto era antes da guerra, o que é satisfatório, mas a aspiração última não é essa, mas sim que a infra-estrutura seja a melhor da região". Só falta utilizar uma parte pequena dos US$ 300 bilhões destinados à reconstrução desde a invasão, e as autoridades prevêem que ficarão sem fundos em junho próximo. A decisão de não renovar o programa de reconstrução deixa o Iraque com dezenas de milhares de milhões de dólares em projetos inconclusos, além de uma indústria petrolífera e rede de fornecimento elétrico que ainda têm de regressar aos níveis de produção anteriores à invasão de março de 2003.

Também deixa o Departamento de Estado norte-americano com um mandato de proporcionar um "ponto focal" para supervisionar e coordenar os programas de reconstrução não só no Iraque, mas também em outros países que emergem de uma guerra civil. Isto inclui o Afeganistão, porém, funcionários da Casa Branca anunciaram que daqui em diante confiarão mais no governo desse país, na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e nos contratados de outras nações. Steven Aftergood, diretor do programa de segredo governamental da Federação de Cientistas Norte-americanos, disse à IPS que a troca do Pentágono pelo Departamento de Estado foi "um reconhecimento tardio de que a política existente sobre reconstrução e estabilização foi, deploravelmente, inadequada".

Esta mudança apareceu em uma pouca percebida diretriz presidencial de segurança nacional, na qual se assinala que a "secretaria de Estado coordenará e liderará os esforços do governo, coordenando-os com o secretário da Defesa para garantir a harmonização com qualquer operação militar planejada em curso dos Estados Unidos através do espectro do conflito". O Departamento de Estado orientará os esforços do governo para impedir que países em risco "sejam usados como base de operações ou refúgio seguro para extremistas, terroristas, organizações criminosas organizadas ou outras que representem uma ameaça à política externa, à segurança ou aos interesses econômicos dos Estados Unidos", afirma o documento de Bush.

Para alguns analistas, a troca do Pentágono pelo Departamento de Estado foi produto da maior frustração com o ritmo do trabalho de reconstrução no Iraque. Também consideram que a limitação dos fundos para a reconstrução é parte de uma nova política de Washington que inclui a redução no número de militares no Iraque antes das eleições de metade de mandato que acontecerão nos Estados Unidos em novembro deste ano, quando toda a Câmara de Representantes e um terço dos senadores disputarão a reeleição. Segundo um relatório do inspetor-geral especial para o Iraque, os funcionários da reconstrução não podem dizer quantos projetos planejados completarão, e não há uma fonte clara para centenas de milhões de dólares anuais necessários para operar os projetos que foram terminados.

O relatório do inspetor-geral menciona algum progresso, mas também vários projetos que fracassaram. Por exemplo, foram construídas caras subestações elétricas, mas não ligadas à rede de fornecimento do país. Boa parte dos fundos para a reconstrução foi desviada para outros projetos. Pelo menos US$ 2,5 bilhões destinados à infra-estrutura e escolas foram usados para montar uma força de segurança. O dinheiro originalmente previsto para reparar a rede elétrica e o sistema de saneamento e saúde foi usado para treinar esquadrões especiais de bombardeio e uma força de resgate de reféns.

Os Estados Unidos também realocaram fundos, que em princípio tinham outros fins, para construir 10 novas prisões para prisioneiros da luta contra a insurgência, e casas seguras e veículos blindados para os juízes iraquianos. Centenas de milhões de dólares também foram destinados para a realização de eleições e para quatro mudanças de governo, bem como para estabelecer um sistema de justiça, incluindo US$ 128 milhões para financiar os estudos de valas comuns de supostas vítimas do governo de Saddam Hussein. Além do desvio de recursos para outros tipos de projetos, os esforços de reconstrução estiveram marcados por uma corrupção substancial e pelos preços excessivos cobrados pelos contratistas.

Enquanto estima-se que os 3.600 projetos sejam completados até o final deste ano, o custo da segurança consumirá 25% de cada plano, segundo o inspetor-geral. Um informe do Congresso norte-americano de outubro passado diz ser improvável que muitos projetos de reconstrução sigam em frente por causa dos custos de segurança. As autoridades iraquianas calculam que são necessários US$ 10 bilhões somente para o setor da saúde, para construir ou reconstruir e comprar equipamentos para hospitais e clínicas. A produção por parte da rede nacional de fornecimento elétrico é de quatro mil megawatts, 400 a menos do que os níveis anteriores à guerra, com o iraquiano médio recebendo menos de 12 horas de energia elétrica por dia.

A produção de petróleo, que segundo o planejamento anterior à guerra feito pelo Pentágono deveria fornecer os fundos para a reconstrução iraquiana, também está muito abaixo dos valores anteriores à invasão. A escassez foi atribuída, principalmente, à sabotagem cometida pelos rebeldes. As refinarias do Iraque estão produzindo cerca de dois milhões de barris por dia, contra 2,6 milhões de barris antes de março de 2003. O fim dos fundos para a reconstrução parece indicar uma mudança na promessa do presidente Bush feita em 2003, de dar ao Iraque a melhor infra-estrutura da região. Mas nunca ficou claro quão longe os Estados Unidos pretendiam ir nesse processo.

Enquanto Bush deu a impressão de que o Iraque necessitava se refazer completamente a partir do zero, seu secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, parecia menos seguro. "Não creio que os Estados Unidos tenham a responsabilidade da reconstrução, no sentido de que os fundos para isso podem proceder de várias fontes", disse. Entre elas, do dinheiro do petróleo e do Programa Petróleo por Alimentos, que "tem uma quantidade substancial de milhares de milhões de dólares", disse Rumsfeld ao Comitê de Verbas do Senado, em 2003. Por outro lado, esse ponto de vista parece contradizer um relatório apresentado nesse mesmo ano pelo principal contratista consultor, encarregado pelo Pentágono de projetar o futuro da economia do Iraque.

A empresa Bearing Point Ic., de McLean, no Estado da Virgínia, disse que "a reconstrução do Iraque começou. Não a reconstrução dos serviços públicos vitais, como água, eletricidade e segurança, mas a reconstrução radical de toda sua economia", afirmou. Claramente, isto não está ocorrendo. E a recente decisão do governo em matéria de financiamento sugere não ser provável que ocorra logo. Com muitos dos ministros-chave do Iraque em situação confusa e alguns perseguidos por corrupção, os observadores dizem que é duvidoso que o governo desse país tenha os recursos e a habilidade para administrar os muitos projetos de reconstrução em grande escala que restam. (IPS/Envolverde)

William Fisher

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