Iraque: Povo em uma prisão de areia

Siniyah, Iraque, 27/01/2006 – Os mais de três mil moradores do povoado iraquiano de Siniyah, 200 quilômetros ao norte de Bagdá, estão furiosos pelo muro de areia de aproximadamente 10 quilômetros construído pelas forças norte-americanas para conter os ataques rebeldes. "Nossa cidade se transformou em um campo de batalha", disse à IPS o engenheiro Fuad Al-Mohandis, de 35 anos, enquanto aguarda em um posto de controle nos arredores da cidade. "Destruíram muitas casas. Os norte-americanos também instalam minas terrestres em áreas que consideram habitadas por combatentes. A maioria desses artefatos está perto das casas de civis inocentes", afirmou Al-Mohandis.

Soldados da 101ª Divisão Aerotransportada dos Estados Unidos são submetidos diariamente a ataques com bombas nas estradas. Fuad, disse que as forças norte-americanas decretaram o toque de recolher a partir das 17 horas. "Há tantas explosões que nossos filhos estão aterrorizados", contou. Os soldados do contingente ocupante começaram a construir com tratores, no começo do mês, uma grande barreira de areia para isolar os combatentes que os atacavam. Um objetivo habitual de sabotagem são os oleodutos que se dirigem á Turquia.

A drástica medida enfureceu os mais de três mil moradores de Siniyah. "Pensam que assim conseguirão deter a resistência", disse Amer, de 43 anos, operário da refinaria de petróleo de Beji. "No entanto, pioraram a situação ao fazer essas coisas. A resistência deixará de atacá-los somente quando deixarem o país", acrescentou. Por vários dias, Amer não pôde sair de sua casa para trabalhar ou visitar familiares fora do povoado. Os soldados dos Estados Unidos deram ao projeto o nome de uma batalha de Primeira Guerra Mundial, Operação Verdun.

Os militares acreditam que este povoado se converteu na principal plataforma de lançamento de ataques contra suas tropas, especialmente de disparo de morteiros contra a Base Summerall, que fica próxima. Foram instalados postos de controle perto do povoado, a cargo de militares norte-americanos e iraquianos, que revistam cada veículo em busca de armas e explosivos. "Não podemos mais trabalhar. Nossa renda depende da distribuição de combustível", disse à IPS o caminhoneiro Abdul Qadr em um dos postos de controle. "A situação é muito ruim. A cidade está isolada e enchem tudo de barricadas para deter a resistência. Nossas casas são vistoriadas diariamente, e nunca encontram alguém", acrescentou.

Qadr, que cresceu em Siniyah, disse à IPS que ele e seus vizinhos se sentem em um "campo de concentração". O mesmo é dito pelos moradores de Faluja e Samarra, onde forças norte-americanas construíram muros semelhantes. O de Samarra mede 18 quilômetros. Os postos de controle ao estilo israelense continuam em Faluja. Medidas do mesmo tipo foram tomadas em povoados como Al-Qa`im, Haditha, Ramadi, Balad e Abu Hishma. Tais medidas de segurança levam algum tempo, mas os ataques contra as forças de segurança só fizeram aumentar a uma média acima de cem por dia. "Os norte-americanos pensam que os combatentes vêem de fora do Iraque. Mas não é assim. Por que não vêem que a única solução real é deixar o povo de um país governar a si mesmo?", perguntou. (IPS/Envolverde)

Credito: Ryan Lenz/AP

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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