Nepal: Os combates recrudescem antes das eleições

Katmandu, 19/01/2006 – Os combates entre rebeldes maoístas e forças governamentais do Nepal recrudesceram depois que as autoridades estabeleceram o estado de alerta armado até as eleições municipais marcadas para 8 de fevereiro. Um jovem policial uniformizado se assustou dentro do abrigo de três andares na rua principal do bairro de Charkhal, na capital nepalesa, quando a detonação de uma bomba ecoou pelas estreitas ruas da área. Outro policial riu do susto de seu colega. Mas nenhum deles se afastou do abrigo.

"Era meio da tarde. A essa hora, a via em frente ao local deveria estar cheia de motocicletas, buzinas tocando, táxis e pedestres, muitos se apressando para chegar nas proximidades do escritório de registro de terras. Mas a rua estava em silêncio, a não ser pelo zumbido do veículo militar de um metro de altura, cor cáqui, com um dispositivo para detonar bombas, que se deslocava lentamente após outra missão de sucesso". "Recebemos um telefonema informando que ali havia uma bomba", contou outro policial munido de um walkie-talkie esperando o sinal de "tudo limpo".

"Minha casa fica bem ali. Posso passar?", perguntou um jornalista estrangeiro, apontando para o lugar. "Não podemos deixar passar um estrangeiro", respondeu o policial. "Se fosse um Nepalês deixaria, porque as vidas nepalesas não valem muito. A cada dia, 20 ou 25 dos nossos morrem nas colinas", acrescentou. Essas colinas pareciam muito mais próximas no domingo, depois dos ataques lançados no dia anterior por rebeldes maoístas contra postos policiais no fortemente guardado vale de Katmandu e arredores. O levante iniciado há uma década pelos maoístas com a intenção de instaurar uma república no Nepal já custou 12 mil vidas.

O ataque mais forte dos registrados no sábado foi cometido por dezenas de rebeldes contra o posto policial de Thankot, a maior via de acesso ao vale de Katmandu. Na zona, onde fica o centro do governo e os negócios do Nepal, vivem mais de dois milhões de pessoas. Os rebeldes, muitos dos quais chegaram em um ônibus do serviço público, invadiram o posto na hora de mudança de guarda e alguns minutos depois de um corte no fornecimento de energia elétrica. Pelos menos 10 policiais foram massacrados. Os rebeldes pegaram armas e munições e saquearam um escritório governamental próximo, antes de fugirem para as colinas gritando palavras revolucionárias, informou o jornal Kathmandu Post.

Outros 20 maoístas mataram, pelo menos, um policial do outro lado do vale, em Bhaktapur, perto de Katmandu, em outro ataque noturno. Seis oficiais e um civil ficaram feridos. Outras bombas explodiram em várias repartições municipais nos arredores da capital e na casa do chefe do Estado Maior do Exército, Pyar Jung Thapa. Os atacantes agiram poucos dias depois que as autoridades anunciaram que o exército e a polícia da capital estariam em estado de alerta 24 horas por dia até as eleições de fevereiro. Os maoístas haviam reiniciado as matanças e os saques em seus bastiões do leste do Nepal imediatamente finalizado o cessar-fogo unilateral no dia 3 deste mês. Mas a capital fora mantida em paz.

Os acontecimentos de sábado deixaram claro a capacidade operacional dos rebeldes em Katmandu e seus arredores. Os soldados responderam desativando a bomba na tarde de sexta-feira, mas os ataques do sábado foram os piores na capital desde que o rei Gyanendra assumiu todo o poder ao encabeçar um golpe de Estado no dia 1º de fevereiro do ano passado. O monarca se negou a adiar as eleições, anunciadas no ano passado aparentemente para tranqüilizar a comunidade internacional, que pedem urgência na restauração do regime democrático. Porém, a votação se converteu no ponto central de uma luta de poder entre o rei e uma oposição unida por alianças muito fracas.

Uma aliança de sete partidos políticos que conseguiu 90% dos votos nas eleições parlamentares boicota ativamente o processo eleitoral. Enquanto isso, os maoístas, que pegaram em armas em fevereiro de 1996 para acabar com a monarquia e a injustiça contra grupos em desvantagem, como as mulheres e os dalits (os "intocáveis" do sistema de castas hindu no único do mundo que professa essa religião), se comprometeram a desbaratá-las. Em 2005, o exército estimou que os rebeldes tinham um núcleo de seis mil a sete mil combatentes, entre 20 mil e 25 mil membros em suas milícias e aproximadamente 100 mil simpatizantes. Especialistas calculam que eles controlam até 80% das áreas rurais do país, onde vive a maioria dos nepaleses.

Antes dos ataques de sábado, o ministro do governo local, Tanka Dhakal, havia reiterado que, em sua opinião, as eleições devem acontecer de qualquer maneira. Horas antes, os rebeldes haviam bombardeado escritórios governamentais em Nepalgunj, capital da região meio leste, e um povoado próximo. Na sexta-feira à noite, forças de segurança mataram 16 rebeldes no distrito de Syangja, entre Nepalgunj e Katmandu. Já no domingo, 15 oficiais de polícia que haviam desaparecido durante os ataques maoístas foram encontrados sãos e salvos. Um dirigente rebelde disse que haviam sido capturados no sábado e depois libertados. O dirigente qualificou os ataques do dia anterior como "o primeiro ensaio bem sucedido", acrescentando que "haverá mais tormentas nos próximos dias". O medo dos maoístas é tão forte que quatros funcionários do distrito de Palpa, limítrofe com Syangja, renunciaram.

Cruzando o país, no Ilam oriental, ninguém se candidatou para as eleições, disse à IPS um especialista em governo local. Em Biratnagar, sul do Ilam, os candidatos pediram ao governo no sábado que lhes dê seguro de vida como condição de continuarem na disputa. "O governo dará muito mais segurança do que a reclamada pelos candidatos", afirmou o ministro de População e Meio Ambiente, Mani Lama, segundo o jornal The Himalayan Times. Apesar dessa preocupação, as pessoas comuns irão votar, porque são tão pobres que podem ser facilmente compradas, previu Yadab Kant Silwal, ex-diplomata e secretário-geral da Associação de Cooperação do Sul da Ásia. A metade dos 25 milhões de habitantes do Nepal, 80% dos quais moram em aldeias, sobrevive com menos de um dólar por dia, "e se lhes derem 10 rúpias (entre US$ 0,07 e US$ 0,14) irão votar", garantiu Silwal.

A quantidade de rebeldes é muito pequena para provocar um grande impacto sobre as eleições, acrescentou o especialista. "Quantas áreas os maoístas podem cobrir? Eles poderiam agir contra uma ou duas pessoas, mas não podem impedir que muitas votem", afirmou. O rei Gyanendra estava longe das explosões do sábado. Em visita ao leste do país, surpreendeu os aldeões passeando entre eles por 90 minutos. "As eleições municipais estão muito perto", disse aos moradores locais, segundo a imprensa do lugar. "Se escolherem os candidatos corretos, todos os problemas que afetam as áreas rurais e urbanas poderão ser solucionados", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Marty Logan

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