Nova Délhi, 02/01/2006 – A Ásia, que se converteu em um dos grandes motores da economia mundial, atualmente também é um centro mundial de desenvolvimento de armas nucleares. Desde o Irã até Israel, no Oriente Médio, passando por Índia e Paquistão, na Ásia meridional, até Coréia do Norte e Japão, na Ásia oriental, o continente exibiu em 2005 uma atividade sem precedentes no campo nuclear, e só nos resta esperar uma intensificação nos próximos anos. Os Estados Unidos têm uma grande influência em todos esses países, como aliado ou adversário de seus governos. Sua política de favorecer ou opor-se seletivamente às suas atividades nucleares irá alterar o equilíbrio estratégico em algumas das regiões mais voláteis do mundo.
"O mercado mudou desde a Guerra Fria. O centro de gravidade do armamentismo nuclear era então o enfrentamento entre os blocos oriental e ocidental, mais intenso na Europa", disse Achin Vanaik, professor de relações internacionais da Universidade de Délhi. "Infelizmente, o desenvolvimento nuclear asiático está dominado por uma superpotência que se manifesta firmemente contra o desarmamento", acrescentou Vanaik, integrante da Coalizão para o Desarmamento Nuclear e a Paz. Em 2005, foram registrados dois acontecimentos-chave: a tentativa dos Estados Unidos e seus aliados de censurar o Irã para impedir esse país de enriquecer urânio, tanto com fins civis quanto militares, e a "normalização" do status de potência nuclear da Índia, através de um acordo pelo qual Washington permitirá a Nova Délhi a compra de tecnologia nuclear.
Também prosseguiram as negociações entre a Coréia e outras nações encabeçadas pelos Estados Unidos (China, Coréia do Sul, Japão, Rússia e União Européia) para dissuadir Pyongyang de manter seu programa de armas nucleares. Mas não houve um acordo definitivo. Enquanto isso, o Japão avançou na revisão de seus compromissos assumidos com o fim da Segunda Guerra Mundial de não fabricar nem adquirir armas nucleares e de não consolidar um exército de grande escala. O crescimento de seu arsenal foi qualificado de "nova guerra fria" entre Japão e China. Em setembro, Washington propôs à junta de governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que declarasse o Irã "descumpridor" das obrigações constantes do Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP).
A resolução foi aprovada, dando lugar à possibilidade de sanções por parte do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, porque a Índia rompeu fileiras com o Movimento de Países Não-alinhados (Noal) e aceitou votá-la. Teerã rechaçou a resolução e voltou a reivindicar seu direito, no próprio contexto do TNP, de enriquecer urânio com fins pacíficos. Em seguida, Moscou propôs um acordo de concessões recíprocas, pelo qual o Irã poderia transformar óxido de urânio concentrado (Yellow cake) em gás hexafluorido com vistas ao seu enriquecimento na Rússia. De acordo com a iniciativa, o Irã poderia queimar urânio enriquecido em um reator nuclear, a ser construído com ajuda russa, mas deveria enviar o combustível usado de volta à Rússia. Desse modo, se evitaria que Teerã fizesse o reprocessamento para a extração de plutônio, que, como o urânio enriquecido, pode ser usado para fabricar bombas.
O Irã não rejeitou a proposta formalmente, mas suas conversações nesse mesmo sentido com o grupo dos três países mais poderosos da União Européia (Alemanha, França e Grã-Bretanha) não deram resultado. A postura do regime islâmico iraniano provocou a resposta hostil de Israel, ao mesmo tempo em que o presidente norte-americano, George W. Bush, voltou a usar em seus discursos a figura do "eixo do mal". Segundo diversos informes, Washington já preparou planos de ataque contra o Irã. A guerra de palavras já começou entre iranianos e israelenses. Em outubro, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad falou em "apagar do mapa" o Estado judeu.
Por sua vez, o governo israelense se comprometeu a impedir que o Irã adquira armas nucleares. Já em 1981, aviões de Israel bombardearam o reator nuclear iraquiano Osirak, então em construção. O primeiro-ministro Ariel Sharon disse no último dia 1º que "Israel, e não só Israel, não pode aceitar" que o regime islâmico consolide seu arsenal. Porém, o governo do Irã advertiu que sua resposta a um ataque israelense seria "firme, rápido e destrutivo". Segundo Vanaik, "tudo isto reflete o potencial para um perigoso conflito no Oriente Médio. A região já é sensível por causa da ocupação do Iraque e da crise palestina. Se os Estados Unidos e Israel persistirem em seu enfoque de mão dura em relação ao Iraque, desatarão o caos", acrescentou.
Para o especialista indiano, "o duplo discurso dos Estados Unidos (hostilidade em relação ao Irã e apoio ao programa nuclear israelense) é uma fonte de fonte de grande descontentamento popular no Oriente Médio". Este duplo discurso também é evidente na Ásia meridional. Washington acordou uma exceção no regime internacional de não- proliferação para a Índia – país que durante meio século se posicionou pelo desarmamento nuclear – ao declará-la "Estado responsável" possuidor de armas atômicas. A Casa Branca se comprometeu a persuadir o Congresso a emendar leis de não-proliferação e a estabelecer junto ao Grupo de Provedores Nucleares, que reúne os 44 países provedores dessa tecnologia o caráter excepcional da Índia.
Índia e Estados Unidos desenvolvem uma "aliança estratégica" que inclui ampla cooperação militar. O Paquistão, rival e vizinho dos indianos desde a independência dos dois países em 1947, com o fim do império britânico, vê na nova aliança um contrapeso que desequilibra a Ásia meridional. Ao que parece, Islamabad se dispõe a exigir igual tratamento em matéria de tecnologia nuclear, e já projeta novas centrais nucleares. Índia e Paquistão detonaram suas primeiras bombas atômicas em 1998, com isso se convertendo nos primeiros países a reconhecer que as possuem, sem contar os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (Estados Unidos, China, França, Grã-Bretanha e Rússia).
Washington pouco faz para diluir a rivalidade entre essas duas nações. Ao mesmo tempo, o Paquistão é um sócio-chave em sua guerra contra o terrorismo. A linha dura do governo norte-americano em relação a Teerã contrasta com seu enfoque referente à Coréia do Norte, outro integrante do "eixo do mal", que já garantiu possuir uma bomba atômica. Os Estados Unidos ofereceram assistência econômica e aval para o funcionamento de um reator nuclear civil, desde que os norte-coreanos antes desmantelem seu programa armamentista. "Os critérios de não-proliferação de Washington são seletivos, discriminatórios e inconsistentes", afirmou Vanaik. "Utiliza a não-proliferação como arma quando serve aos seus interesses de curto prazo. Quando não é assim, permite proliferar as tecnologias armamentistas". O próximo exemplo de duplo discurso pode ser o Japão.
A Constituição japonesa, ditada pelos Estados Unidos após derrotarem o país asiático na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), proíbe a aquisição ou fabricação de armas nucleares. Porém, enquanto Tóquio continua armazenando enormes quantidades de plutônio reprocessado na Europa oriental, políticos conservadores favoráveis ao governo de Junichiro Koizumi, defendem a emenda da Constituição. Se o Japão continuar consolidando seu poderio militar e adquirir armas nucleares, a China reagirá. Pequim já se sente ameaçada pelo programa de defesa com mísseis de Washington e pela crescente colaboração entre norte-americanos e indianos. Se a tendência persistir, a China se verá imersa em duas novas corridas armamentistas: uma com o Japão e outra com a Índia. Estas rivalidades não estarão alimentadas apenas por fatores regionais, mas serão influenciadas pelos Estados Unidos. (IPS/Envolverde)

