Paquistão: Caçador e presa na guerra antiterror

Karachi, 03/01/2006 – Depois que paquistaneses islâmicos desafiaram uma ordem do presidente, Pervez Musharraf, de expulsar os estrangeiros matriculados em escolas religiosas muçulmanas, aumentam as dúvidas sobre o futuro papel deste país na "guerra contra o terrorismo". Musharraf adotou a medida após a divulgação de que as chamadas "madrasas" paquistanesas estiveram vinculadas com os atentados à bomba do dia 7 de julho em Londres. Três dos quatro acusados diretos pelos ataques são cidadãos britânicos de origem paquistanesa. A rejeição à decisão presidencial partiu da província da Fronteira Nordeste, limítrofe com o Afeganistão e governada pelo partido fundamentalista Muttahida Majils-e-Amal (MMA), sócio do governo provincial da vizinha Balochistão.

O MMA chegou ao poder com promessas de aplicar a "sharia" (lei islâmica) e obrigar uma retirada norte-americana da região. O partido se opõe à participação do Paquistão nas operações lideradas por Washington contra o remanescente do movimento islâmico Talibã no território afegão. Para os Estados Unidos e seus aliados, é de vital importância que Musharraf saiba manejar a situação nessas duas províncias, onde se suspeita que terroristas estejam escondidos, incluindo o líder da rede Al Qaeda, o saudita Osama bin Laden, considerado o autor intelectual dos atentados de 11 de setembro de 2001 em território norte-americano.

Como país receptor de armas na primeira linha da guerra contra o terrorismo iniciada pelos Estados Unidos, bem como de milhares de milhões de dólares em ajuda financeira entregue por Washington, e após ser considerado seu mais próximo aliado fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), as opções do Paquistão são limitadas e o país se vê na difícil posição de equilibrar interesses contrários. As mãos de Musharraf estão atadas pela duvidosa legitimidade de seu governo, já que é um militar que está no poder há seis anos, afirmou o analista político Rahat Saeed, editor da revista de língua urdu Irtaqa.

O presidente paquistanês "adotou o humor eleitoral. Seu período termina em 2007. Cavalga um tigre e tem de ficar no poder para, assim, garantir que ninguém lhe faça o que fez aos seus antecessores", disse o analista à IPS. Musharraf chegou ao poder depois de derrubar o primeiro-ministro Nawaz Sharif, em 1999. Seu governo militar acusou Sharif de corrupção e a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto (1988-1990 e 1993-1996) e proibiu ambos de participarem das eleições que organizou em outubro de 2002, das quais saiu vencedor.

"O artigo 6 da Constituição paquistanesa paira sobre a cabeça de Musharraf, já que prevê a pena de morte para quem derruba um governo eleito, crime do qual é acusado. Ele não pode correr o risco de responder por suas ações perante seus sucessores. Precisa permanecer no poder e ser reeleito em 2007, seja como for", acrescentou Saeed. Por isto, Musharraf não parece disposto a entrar em rota de colisão com os partidos integristas islâmicos como o MMA, cada vez mais populares no Paquistão. Na semana passada, o ministro do Interior, Aftab Ahmed Khan Sherpao, anunciou que pelo menos 60% dos aproximadamente 1.500 estudantes estrangeiros nas madrasas do país já haviam sido deportados. Acredita-se que o restante permaneça na Fronteira Nordeste.

A ordem de expulsão deveria ser cumprida antes do dia 31 de dezembro, e parece pouco provável que o governo adote medidas severas contra o MMA. O ministro de Assuntos Religiosos da Fronteira Nordeste, Amanullah Haqqani, havia pedido ao presidente para rever sua decisão, argumentando que o Paquistão é um país de prestígio no mundo islâmico por receber um grande número de estudantes estrangeiros. Estima-se que no Paquistão existam cerca de 12 mil madrasas que ensinam religião a meninos e jovens islâmicos ortodoxos e de classes sociais baixas. Washington as considera celeiro de terroristas.

Analistas atribuem o espetacular aumento das madrasas ao antigo apoio que receberam de vários governos muçulmanos, e inclusive dos Estados Unidos, para que preparassem "mujaidines" (guerreiros islâmicos) dispostos a lutar contra as tropas da União Soviética que ocupavam o Afeganistão na década de 80. "Enquanto servia aos interesses ocidentais, derrotando os soviéticos, os paquistaneses herdavam enormes quantidades de armas e dinheiro, impulsionando a cultura da heroína e dos fuzis Kalashnikov, que ainda continua distorcendo a política e a administração nessa região", disse Saeed. "Esse legado da Jihad (guerra santa) islâmica dos anos 80 no Afeganistão não ajudou o Paquistão", acrescentou.

Esta política norte-americana em relação a grupos islâmicos armados no Afeganistão mudou depois dos ataques terroristas nos Estados Unidos em setembro de 2001. Washington reclamou do Afeganistão, então dominado pelo regime Talibã, a entrega de Bin Laden e outros líderes da Al Qaeda. A resposta negativa deu lugar a uma invasão e uma ocupação militar que prossegue hoje em dia. O Talibã foi rapidamente expulso do poder, mas o movimento continua ativo em partes do território afegão e também no vizinho Paquistão. "O Paquistão continua sendo cenário de guerra. Prova é o simples fato de que o Talibã é uma criação das madrasas paquistanesas", disse o analista Syed Jafar Ahmed, da Universidade de Carachi, sul do país.

"O fato de o Paquistão continuar sendo governado por um general de uniforme prova por si só que não existe um sistema político estável nesse país, apesar de o regime de Musharraf ser estranhamente forte e não enfrentar nenhuma ameaça séria à sua sobrevivência", acrescentou. Ahmed lembrou que o presidente goza do pleno apoio da coalizão internacional liderada por Washington contra o terrorismo, já que sua cooperação é vital para as operações no Afeganistão, mas acrescentou que essa atitude de Islamabad contrasta com a "propaganda política terrorista aplicada dentro do país".

O analista citou como exemplo a repressão contra rivais políticos como os ex-primeiros-ministros Bhutto e Sharif, proibidos por Musharraf de retornarem do exílio. "A coalizão liderada por Washington aceitou o Paquistão como uma democracia adequada, pois considera que possui todas as instituições de uma democracia e uma razoável liberdade de imprensa, apesar de esta aplicar uma autocensura por mede de uma inexplicável violência contra os jornalistas", ressaltou. "O atual sistema de governo garante a sobrevivência de Musharraf como presidente, enquanto continua sendo chefe do Exército. Eleições são realizadas, apesar dos poucos paquistaneses fora dos círculos de poder as considerarem livres, por causa da interferência da inteligência militar", acrescentou.

Para o Ocidente, o Paquistão é de vital importância devido a uma combinação de fatores, como sua localização estratégica no cruzamento de três regiões: próximo ao Golfo, Ásia meridional e central e seu importante arsenal nucelar. Por isso Musharraf conta com suficiente apoio internacional. Mas a negativa em aplicar sua ordem em relação às madrasas, bem como uma crescente insurgência islâmica no Balochistão, são sinais de que a situação nessa parte do território está fugindo do controle do presidente militar.

"As províncias ocidentais do Paquistão, Balochistão e Fronteira Nordeste constituem um importante cenário na guerra contra o terrorismo, não apenas por sua proximidade com o Afeganistão, mas também pela presença nelas de militantes do Talibã e da Al Qaeda", disse Saeed. "Se a insurgência nessas duas províncias se intensificar, poderá ser necessário apelar para forças estrangeiras, o que introduziria novos fatores com conseqüências imprevisíveis", alertou. (IPS/Envolverde)

Naqvi

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *