Jacarta, 04/01/2006 – A morte na Indonésia de outro paciente com sintomas da gripe aviária colocou em alerta máxima as autoridades sanitárias, que se preparam para uma epidemia. O homem, que morreu segunda-feira pouco depois de ser levado a um hospital de Jacarta, seria a vítima fatal número 12 neste país da também chamada gripe do frango. As suspeitas de que teria sido infectado pelo vírus se baseiam, sobretudo, no fato de que procedia da localidade de Tangerang, sudeste do país, onde já foram registrados vários casos de contágios. "O governo indonésio está a par das ameaças da cepa mortal da gripe aviária e começou a colocar em prática um plano estratégico nacional para impedir uma pandemia", disse à IPS Steven Bjorge, da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Esta doença afeta todo tipo de ave, que sofrem enrijecimento dos olhos e problemas no fígado. Conhecida há cerca de cem anos, em 1997 a gripe do frango ultrapassou a fronteira das espécies ao contagiar a humana. Nos seres humanos infectados, os primeiros sintomas são febre e tosse, bem como queda da pressão arterial e do nível de glóbulos vermelhos. Em última instância, o paciente pode desenvolver pneumonia. Algumas cepas são de elevadíssima mortalidade, mas a H5N1 é a pior de todas, devido à sua gravidade e capacidade de adaptação genética. Esta cepa matou mais de 70 pessoas na Ásia desde 2003 e obrigou que fossem sacrificados milhões de aves.
No dia 19 de dezembro, o governo indonésio anunciou um plano nacional de três anos para conter a propagação da cepa H5N1, incluindo vacinação, estratégias de biossegurança, sacrifício de animais e programas de vigilância de aves mortas ou moribundas por parte das próprias comunidades locais. "Esperamos ver uma redução dos casos de gripe aviária no país com a implementação deste plano", disse o vice-ministro do Planejamento para o Desenvolvimento Nacional, Masykur Riyadi, criador do programa. Entretanto, o plano pode não ser suficientemente completo, já que não inclui medidas para controlar a propagação do vírus em segmentos pobres da produção avícola.
"O plano estratégico se concentra apenas nos grandes donos do setor, que já estão bem controlados", afirmou Bjorge, para quem a Indonésia deveria imitar a resposta dada à essa enfermidade pela Tailândia, particularmente sua política de sacrificar animais. Segundo a OMS e outras agências, a gripe do frango predomina nas aves criadas em pequenas propriedades. "Deve-se atuar como se uma epidemia da gripe aviária fosse eclodir amanhã. Não podemos esperar e pensar isso não acontecerá a não ser dentro de seis meses ou um ano. Uma vez que começa, é muito tarde para se preparar", afirmou o coordenador internacional da OMS contra a gripe aviária, David Nabarro, perante autoridades sanitárias e agrícolas durante sua última visita a Jacarta, dia 19 de dezembro.
Nabarro alertou que as crianças são muito vulneráveis à doença, e exortou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) a tomar medidas para protegê-los. O assessor regional do Unicef, Stephen Atwood, respondeu que a agência estava trabalhando em uma ampla estratégia de informação para assegurar que as famílias estejam bem preparadas para conter a doença. "Estamos educando as famílias não somente sobre as medidas contra uma epidemia, mas também sobre precauções básicas de higiene, como lavar as mãos e evitar contato com pessoas infectadas", disse Atwood. A maioria dos que morreram na Indonésia vivia em Jacarta, onde muitas pessoas ainda têm o costume de ter aves em casa, condição ideal para que o vírus H5N1 passe para os humanos.
"Enquanto não eliminarmos o vírus dos frangos em criação doméstica, devemos esperar mais casos de contágios humanos", alertou Bjorge. O ministro de Coordenação para o Bem-Estar da População, Aburizal Bakrie, encarregado de combinar os esforços nacionais contra a doença, disse que ainda é muito pouca a informação sobre a gripe do frango entre os habitantes, e inclusive entre os próprios trabalhadores da área da saúde. "A Indonésia, a primeira linha na luta contra a doença, sofre grandes carências. Comparada com outros países, enfrenta maiores desafios, pois é um país grande e os sistemas estatais estão descentralizados", admitiu.
Jacarta também passa por dificuldades financeiras, por isso será difícil conseguir os US$ 1,5 bilhão necessários para conter a doença no período 2006-2008, de acordo com o Ministério do Planejamento para o Desenvolvimento Nacional. "Só o que temos no momento são os US$ 150 milhões acertados na última reunião da OMS, em Genebra, e o governo acrescentar mais US$ 10 milhões ou US$ 20 milhões", disse Bakrie. O ministro, também um destacado empresário, exortou a população a participar em massa do programa para deter a propagação da gripe do frango, e pediu ao setor privado que assuma o papel de protagonista nessa luta.
Por sua vez, a ministra da saúde, Siti Fadilah Supari, pediu aos trabalhadores sanitários de todo o país a estarem em alerta máximo. "Por favor, prestem atenção aos pacientes que sofrem de pneumonia severa. Confirmem se houve mortes de aves perto deles", disse Supari em um discurso. Em caso de uma pandemia, o governo indonésio prevê isolar as áreas onde ocorrerem 80% das infecções, mobilizando tanto policiais quanto soldados. O governo também espera aumentar as reservas de Tamiflu, único remédio capaz de frear a propagação da enfermidade, e apoiar pesquisas científicas para o desenvolvimento de vacinas. No momento, a Indonésia tem 800 mil cartelas de Tamiflu e prevê adquirir mais dois milhões do laboratório suíço Roche, além de produzir seu genérico com licença da companhia. (IPS/Envolverde)

