Colombo, 10/01/2006 – Quando os caixões de cinco estudantes tamis, ao que parece assassinados por forças do governo do Sri Lanka, foram levados em cortejo pelas ruas da cidade portuária de Trincomalee, dentre a multidão surgiram várias promessas de vingança. Alguns, inclusive, incendiaram os postos de vigilância militares, que haviam sido abandonados pelos soldados antes do cortejo, e advertiram os visitantes e jornalistas para que se afastassem da cidade o quanto antes: a violência estava prestes a estourar. E não demorou muito.
Na manhã de sábado, três dias depois da morte dos jovens, um pequeno barco de pesca carregado de explosivos chocou-se contra uma embarcação da marinha nacional ancorada na baía de Trincomalee. O atentado matou 13 dos 15 marinheiros que estavam a bordo. O Ministério da Defesa responsabilizou por esse ato atacantes suicidas dos rebeldes Tigres para a Libertação da Pátria Tamil (LTTE). O atentado, o mais importante desde o cessar-fogo estabelecido entre Colombo e o LTTE graças à mediação da Noruega, foi um novo sinal de que a guerra civil neste pequeno país insular da Ásia meridional está a ponto de recomeçar.
Mais de 65 mil pessoas morreram e cerca de 800 mil fugiram de suas casas por causa da guerra civil que os Tigres travam desde 1983 para conseguir a autonomia do norte e do leste do país, onde predomina a etnia tamil. Mais de 70% dos 18 milhões de habitantes do Sri Lanka são de etnia cingalesa – a maioria budista – e 18% são tamis, cujos ancestrais procedem do sul da Índia e praticam o hinduísmo. Em 2002, os rebeldes e o governo acertaram um cessar-fogo. Mesmo assim, desde então, mais de 200 pessoas foram assassinadas, na maioria tamis, e, aparentemente, por motivos políticos. Inicialmente, os militares haviam informado que os cinco jovens tamis mortos na quinta-feira haviam sofrido um acidente quando manipulavam uma granada. Porém, os exames forenses determinaram que todos receberam tiros na cabeça.
Os Tigres acusaram a Força Operacional Especial (FOE), uma unidade de comando da polícia, de ter seqüestrado e assassinado os estudantes, disparando contra suas orelhas. "Este é um ataque planejado contra o povo tamil", disse à IPS o chefe político do LTTE em Trincomalee, S. Ellilan. Alguns jornais, especialmente o The Sunday Times, publicaram uma série de notícias apontando um oficial aposentado da polícia, agora integrante do governo, como a pessoa que ordenou os assassinatos. Por sua vez, o inspetor-geral da FOE, Nimal Leike, negou que seus soldados estejam envolvidos no caso.
Rohan Gunaratna, especialista cingapurense em assuntos de segurança, disse à IPS que, diante do último ciclo de violência, é de se esperar a volta dos Tigres ao combate, e alertou que, a menos que o governo do Sri Lanka "monte um sistema de inteligência profissional e uma efetiva força de combate, se verá muito afetado". Segundo Haugrup Hakland, chefe da Missão de Supervisão do Cessar-Fogo no Sri Lanka, "esta é uma grande preocupação que temos". Esta força, integrada na maior parte por efetivos noruegueses, tem um papel de supervisão e não inclui tarefas de manutenção da paz. O enviado especial norueguês ao Sri Lanka, Erik Solheim, deve chegar à ilha no dia 23. Sua visita é considerada vital para superar a atual crise. Enquanto isso, civis da conflitiva localidade setentrional de Jaffna fogem em massa para lugares mais seguros.
Em razão dos últimos ataques, o presidente Mahinda Rajapakse, que assumiu o cargo em novembro de 2005, sofre uma crescente pressão de seus aliados eleitorais pró-cingaleses de linha dura para que adote uma postura firme contra os Tigres. O atentado em Trincomalee "não deve ser considerado simplesmente outra violação do acordo de cessar-fogo. Com este ataque, os Tigres deixaram claro que estão prontos para uma guerra terrorista", disse em um comunicado a Frente Popular de Libertação, aliado de Rajapkse. "O governo deve informar aos países envolvidos no processo de paz no Sri Lanka e adotar medidas definitivas para derrotar o terrorismo dos Tigres", acrescentou. Apesar disso, até agora o mandatário não mudou sua disposição de reiniciar as negociações. Os Tigres e Colombo devem acertar um lugar para negociar. Raapakse prefere um país asiático, o LTTE se inclina por Oslo.
Nem mesmo os países doadores para a reconstrução do Sri Lanka e patrocinadores do processo de paz tiveram êxito em deter a violência dos últimos dias. Representantes dos Estados Unidos, da União Européia, da Noruega e do Japão se reuniram, em dezembro, com líderes políticos do LTTE, mas saíram de mãos vazias. Depois do atentado de sábado, o Departamento de Estado norte-americano expressou preocupação pela deterioração da situação nesse país asiático. Na realidade, a violência começou a se agravar no dia 4 de dezembro, quando uma patrulha do exército foi seqüestrada na setentrional localidade de Kondavil e sete soldados que a integravam foram assassinados.
Uma semana antes, o líder do LTTE, Velupillai Prabhakaran, advertira que se o governo não apresentasse respostas viáveis às suas demandas, os Tigres retomariam a luta armada. Desde 4 de dezembro as forças de segurança são alvo de ataques em mar e terra. O porta-voz do Ministério da Defesa, Prasad Samarasingha, disse que o atentado de sábado aumentou para 65 o número de soldados assassinados em dezembro, e ressaltou que os atentados foram bem planejados e coordenados. "Os Tigres sempre tentaram atacar as forças do governo, e agora usam os civis como proteção", afirmou. Por sua vez, o LTTE negou qualquer ligação com os ataques. "Estamos investigando o que aconteceu, mas não somos responsáveis", assegurou Ellilan. (IPS/Envolverde)

