Rio de Janeiro, 20/02/2006 – A Corporação Andina de Fomento (CAF), fortalecida e ampliada com capitais adicionais, tende a ser a agência de desenvolvimento da Comunidade Sul-Americana de Nações, segundo o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Guido Mantega. A proposta do presidente venezuelano, Hugo Chávez é "mais ambiciosa e mais difícil de ser concretizada", afirmou Mantega na quinta-feira à imprensa estrangeira. Mantega, que foi ministro do Planejamento antes de assumir a presidência do BNDES em novembro de 2004, não descartou essa idéia que está sendo analisada por uma comissão, mas ela "pode demorar anos, e a América do Sul não pode esperar", afirmou.
Por outro lado, é uma realidade a ampliação da CAF, braço financeiro da Comunidade Andina de Nações (CAN, com Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela). O Brasil decidiu colocar US$ 200 milhões adicionais, além dos US$ 115 milhões que já possui em seu capital. Assim, se converte em sócio pleno da instituição, categoria A, com os países andinos, embora esteja longe da participação de países como Peru e Venezuela, cada um com cerca de US$ 1 bilhão, segundo Mantega. A direção da CAF já aprovou a elevação da categoria brasileira, mas isso ainda depende da ratificação dos parlamentos dos países da CAN, ressaltou.
A Argentina deve seguir os passos do Brasil e há interesse também de outros vizinhos. Existem vantagens. Atualmente, estas nações não andinas podem obter empréstimos até um total quatro vezes superior à sua participação no capital da CAF. Como sócios de categoria A, terão direito a uma quantia oito vezes maior. A projeção subcontinental da Corporação é obtida através do acordo de cooperação com o BNDES, outro gigante do financiamento do desenvolvimento na região, mas de atuação limitada no Brasil. Nos últimos anos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu a quase todos seus colegas sul-americanos que o BNDES financiaria projetos importantes nos países vizinhos. Em alguns casos falou-se de até US$ 1 bilhão, por exemplo.
Mas o que o BNDES faz é financiar a exportação de produtos e serviços brasileiros para impulsionar projetos nos demais países, como tubulações de gasodutos, trens e equipamentos para metrô e ferrovias, turbinas e outros equipamentos para centrais elétricas, explicou Mantega. Isto é, o banco oferece créditos para empresas instaladas no Brasil que atuam no exterior, e não financia diretamente a execução do projeto externo. No caso da Venezuela, a abundância de divisas que o país tem favorecido pela alta do petróleo provavelmente torna dispensável o financiamento brasileiro.
A cooperação entre o BNDES e a CAF cria "sinergias". Na produção de etanol, que o Brasil pretende estimular nos países sul-americanos, o banco poderá financiar os equipamentos e a transferência de tecnologia a cargo de empresas brasileiras, enquanto a CAF entraria com recursos para tornar factíveis os investimentos locais, exemplificou Mantega. A favor da afirmação da CAF como a instituição de fomento do desenvolvimento e da integração sul-americana, conta-se também a debilidade do Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata), cujos membros são os sócios plenos do mercosul, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, mais a Bolívia.
A CAF desfruta de uma confiança muito superior na comunidade financeira internacional e possui muitos mais recursos. Os empréstimos do Fonplata somam US$ 250 milhões, enquanto a CAF chega entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões, afirmou Mantega. O BNDES é uma potência comparada com qualquer banco internacional de desenvolvimento. Este ano contará com R$ 60 bilhões (US$ 28 bilhões) para financiamentos, 27% a mais do que em 2005. Seu grande cliente é o setor industrial, que no ano passado recebeu quase a metade do crédito oferecido pelo banco, que destinou cerca de 10% às empresas de energia elétrica.
A presença do BNDES na economia brasileira é tão forte que é apontada como um dos fatores dos desequilíbrios do Mercosul que mais desgostam os argentinos. Como banco de fomento cobra juros de longo prazo, hoje em 9% ao ano, muito abaixo dos 17,25% da taxa básica do Banco Central. As altas taxas do mercado financeiro afetam menos a produção do que o consumo, destacou Mantega. O papel do BNDES é tornar factíveis os grandes projetos e estimular o crescimento produtivo, especialmente da indústria. Seus recursos são chave, por exemplo, para impulsionar as grandes centrais hidrelétricas que o Brasil deve construir nos próximos anos para tornar "impossível" a repetição da crise energética que o País viveu em 2001, afirmou o presidente da instituição.
Mas para avançar e consolidar uma infra-estrutura de integração, e, por fim, da Comunidade Sul-Americana de Nações, é necessário um banco de desenvolvimento "mais amplo, que possa investir no exterior", e a CAF ampliada é o "primeiro passo" para alcançar esse objetivo, concluiu. A Comunidade foi constituída em dezembro de 2004 a partir da convergência dos dois grandes blocos sul-americanos, o Mercosul e a CAN, além do Chile. Mas até agora não obteve êxitos. Tem como objetivos a integração comercial e energética e a coordenação e concertação política e diplomática dos 12 países sul-americanos que a integram. (IPS/Envolverde)

