Colômbia: O sinuoso caminho em busca da paz

Havana, 17/02/2006 – O complexo processo de diálogo entre o governo da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional desse país, agora marcado pela campanha eleitoral, entra nesta sexta-feira em um novo capítulo que também terá como cenário a capital cubana. Esta instância de diálogo é a continuação do encontro realizado em Havana em dezembro com os mesmos protagonistas, que são Luis Carlos Restrepo, comissário para a paz do governo colombiano, e Antonio García, número dois no comando central do esquerdista ELN.

Previamente, García e o porta-voz do grupo guerrilheiro, Francisco Galán, realizaram a partir do último dia 11 uma série de encontros com personalidades intelectuais, religiosas e políticas, de diferentes comissões colombianas ligadas ao processo, e delegados de organizações sindicais, camponesas e indígenas, entre outras. Para o catedrático colombiano Alejo Vargas, este protagonismo da sociedade civil não é algo novo. "O ELN sempre defendeu um esquema de negociação que sai do contexto convencional. É que não é o ELN, mas a sociedade, que gera o cenário das negociações com o governo", disse em entrevista à IPS.

Vargas, da comissão de garantidores da Casa da Paz (iniciativa de diálogo entre a guerrilha e a sociedade civil), disse que um primeiro resultado esperado do novo encontro entre Restrepo e García é que se conclua a fase exploratória e se passe à formação de uma agenda, porque esta não é apenas uma lista de assuntos, mas é preciso definir a que e aonde se quer chegar, os cenários e as formas de participação da sociedade, entre outros detalhes. "Uma agenda fria não diz nada. Deve estar acompanhada dos procedimentos", ressaltou o intelectual colombiano, admitindo ter suas dúvidas de que se possa atingir esse objetivo que, embora "soe simples", é um assunto complexo.

"Talvez deixem iniciado o tema, suspendam e voltem a outra rodada para terminar. Porque, entre outras coisas, o clima eleitoral afeta isto e nem o governo nem o ELN estão muito interessados em correr. Não creio que se avance muito antes de se definir a questão eleitoral. As coisas seguirão lentas", afirmou. O cronograma eleitoral na Colômbia prevê renovar o parlamento no dia 12 de março; o primeiro turno presidencial dia 28 de maio e, se necessário, segundo turno no dia 28 de junho. O direitista presidente Álvaro Uribe pretende um segundo mandato.

O empresário Moritz Akerman, outro garantidor do diálogo entre guerrilha e governo, disse que a campanha eleitoral faz com que as pessoas se preocupem em dar passos que possam repercutir em um ou outro sentido na intenção de votos dos cidadãos. "De tal maneira que todas as partes estão avançando agora com grande precaução, o que não quer dizer que o processo esteja mais lento", mas sim que existe maior cuidado nas decisões a tomar, acrescentou Akerman em declarações à IPS. "Por isso, estabelecer uma agenda seria um grande resultado. Se apenas se chegar a acordos parciais para manter o processo e levar distensão ao ambiente hostil que existe na Colômbia, também será um passo que não deve ser menosprezado", acrescentou.

Para Gustavo Ruiz, também membro da comissão de garantidores, as eleições são vitais para o governo neste momento e impõem seu ritmo. "Tem de mostrar uma face de pluralidade que até agora não mostrou", afirmou. No entanto, García se mostrou cauteloso quanto aos resultados possíveis de suas práticas com Restrepo. "Vamos começar a trabalhar na construção da agenda. Isso é tema das conversações que tivermos entre o governo e o ELN", disse a jornalistas o representante dessa guerrilha, a segunda em importância na Colômbia.

A maior força rebelde do país são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), também criada em 1964, de orientação comunista e fortes raízes camponesas, que não participa deste processo de diálogo em Havana, embora, segundo García, se mantenha informada sobre seu desenvolvimento. "Os informamos sobre como estamos trabalhando", disse García, acrescentando que as duas organizações guerrilheiras trocam informação e compartilham reflexões sobre temas diversos "em uma dinâmica de muita comunicação".

Na segunda-feira, o chefe guerrilheiro se reuniu com representantes da Igreja Católica colombiana, em um hotel de Havana, mas no encontro não figurou o tema do cessar-fogo, que teria sido solicitado pela Conferência Episcopal. "Esse tema não estará nesta nem aqui nem em nenhuma reunião. Estamos em outra lógica. O processo de paz, quando andar, irá produzindo resultados, como produto do amadurecimento do próprio processo. Chegará o momento em que será preciso tocar nesses acordos", afirmou. García defendeu sua organização como "um instrumento" para a construção da paz e da democracia na Colômbia e isto pode ser "de outra maneira, com uma sociedade mais eqüitativa, mais igualitária, mais democrática, onde a pobreza possa ser superada".

O ELN considera que as causas do conflito na Colômbia devem ser buscados na injustiça social e na pobreza, no terrorismo de Estado, na falta de democratização e na perda da soberania nacional, entre outros problemas. Em suas origens, o ELN se inspirou na Revolução Cubana e na Teologia da Libertação, corrente crítica de pensamento dentro da Igreja Católica da América Latina e que levou às suas fileiras sacerdotes como o espanhol Manuel Pérez e Camilo Torres. Muitos de seus membros foram, e são, intelectuais.

No conflito colombiano também atuam esquadrões da morte estreitamente ligados ao narcotráfico, que desde o final dos anos 90 se apresentam como exércitos locais agrupados como Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), agora em processo de desmobilização de boa parte de seus efetivos. Segundo a Organização das Nações Unidas, as AUC são responsáveis por 80% dos crimes e massacres ocorridos na guerra colombiana. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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