Aids-África: Pagar o funeral é morrer mais um pouco

Durban, África do Sul, 22/02/2006 – Os funerais tradicionais das vítimas da aids, na África austral, estão causando graves problemas financeiros às famílias da região, especialmente nas áreas rurais. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida), um em cada cinco adultos na África austral contraíram o vírus de deficiência imunológica humana (causador da aids). Um estudo, feito em 2004, pelo Programa Conjunto de Economia, Aids e Pobreza (Jeapp, sigla em inglês), da Universidade de KwaZulu-Natal (UKZN), na cidade de portuária de Durban, na África do Sul, descobriu que para os cidadãos sul-africanos custava quase sete vezes mais para enterrar uma pessoa do que para cuidar de um parente enfermo.

Algumas famílias afetadas pela aids gastam até 30 vezes mais em funerais do que em cuidados com a saúde. O custo médio de uma cerimônia fúnebre tradicional gira em torno dos US$ 4,9 mil na África do Sul, segundo o Jeapp. A renda média anual das famílias é estimada em US$ 3,63 mil, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os custos do funeral incluem o pagamento à empresa funerária, de aproximadamente US$ 325, além de gastos adicionais que vão desde a limpeza do corpo e outros rituais, até vestimenta, anúncios do enterro em rádios e jornais, animais para sacrifícios e alimentos e transporte para os parentes.

Na Suazilândia, a situação é semelhante. Segundo a Divisão de Pesquisa em Saúde, Economia e Aids (Heard), da UKZN, os suazis gastam até US$ 980 em cerimônias fúnebres, embora estime-se que dois terços da população viva abaixo da linha de pobreza, com menos de um dólar por dia (segundo o Fundo Monetário Internacional). Na Tanzânia, as famílias afetadas pelo HIV/aids podem gastar a renda de um ano em cuidados com a saúde e custos de funeral, afirma o Instituto para os Recursos Mundiais, uma organização de especialistas com sede em Washington. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), os gastos com funerais representam 60% dos custos diretos com uma pessoa doente de aids que logo morre.

Os custos diretos compreendem gastos com materiais de cuidados médicos, alimentação, transporte, enterros e afins. Os custos indiretos se relacionam com a perda de renda dos membros da família que cuidam dos parentes enfermos. Tendências comparáveis são evidentes em Moçambique. Os pesquisadores do Departamento de Sociologia da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, capital do país, demonstraram que um funeral custa, no mínimo, US$ 300, enquanto mais da metade da população vive abaixo da linha de pobreza. Centenas de dólares mais podem ser gastos em alimentos e flores para as visitas ao cemitério.

Mais para o ocidente, em Botsuana, não é raro uma família gastar entre US$ 740 e US$ 920 em um serviço fúnebre, enquanto o salário mensal médio de um trabalhador equivale a US$ 55, disse Fred Klaits, professor-assistente de Antropologia da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, que fez amplas pesquisas nesse país africano. Certas famílias enfrentam os gastos fúnebres fazendo dívidas com parentes e amigos. Também podem esgotar sua poupança ou vender bens, como animais. Outros pegam empréstimos que não podem pagar, se afundando em dívidas que passam de geração para geração. Outra forma de assistência são as sociedades de enterros, clubes que arrecadam dinheiro de seus membros. Porém, o constante esvaziamento das comunidades ameaça quebrar completamente este sistema de seguro funerário tradicional.

Na Tanzânia rural, muitas comunidades ficaram na bancarrota, enquanto outras começaram a cobrir somente a metade dos benefícios habituais, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), instituição multilateral de países industrializados, com sede em Paris. A alternativa para as sociedades de funerais é aumentar suas tarifas, com fizeram em Botsuana, observou Kalits. Contudo, isto pode deixar de fora as famílias pobres. Apesar de tudo, as famílias onde há mortes por aids continuam pagando os funerais, cujo custo freqüentemente representa menores gastos em educação, bens para a casa e outras necessidades. Isto pode piorar uma situação financeira que já é precária.

Segundo o Conselho de Pesquisa em Ciências da Saúde da África do Sul, com sede na Cidade do Cabo, sem fins lucrativos e parcialmente financiado pelo governo, as famílias desse país experimentam uma queda na renda, entre 48% e 78%, quando um de seus membros morre vítima de aids, excluindo os custos do funeral. Apesar destas dificuldades, as práticas fúnebres continuam sendo seguidas pela maior parte da população. Segundo a pesquisadora do Heard, Nina Veenstra, esta conduta pode estar associada a uma negativa em enfrentar o HIV/aids. "Seria mais importante reduzir o estigma e a negação, para que as pessoas possam reconhecer publicamente a pandemia e os custos financeiros que são obrigadas a assumir", afirmou.

As famílias que só conseguem um caixão básico e um local para enterrar o parente sofrem uma traumática quebra da tradição, disse Patience Mavata, uma enfermeira que dirige um centro para pessoas com aids na província de KwaZulu-Natal. "Sentem que sem um funeral decente falharam com a pessoa morta", explicou. "O trauma psicológico de não ser capaz de dar um enterro digno leva as pessoas a se sentirem culpadas e, inclusive, entrar em depressão". Aparentemente, há poucas organizações que proporcionam apoio fúnebre. Uma delas é o Centro Hillcrest para a Aids, em Kwazulu-Natal, cujo pessoal negociou um preço especial com vários velórios.

Pelo preço relativamente baixo de US$ 120, de segunda a quinta-feira, estas empresas vão buscar o corpo e o preparam, emitem o atestado de óbito, fornecem um caixão simples e levam o falecido para a propriedade familiar ou para o cemitério onde será enterrado. O custo é menor porque os enterros feitos durante a semana não contam com grande quantidade de parentes, porque a maioria está trabalhando, disse a diretora do Centro Hillcrest, Juli Hornby. O centro paga um terço do preço reduzido, enquanto espera-se que as famílias contribuam com cerca de US$ 80 pela cerimônia. Algumas têm grandes dificuldades para conseguir essa quantia, e, nesse caso, o centro procura acrescentar fundos adicionais. (IPS/Envolverde)

Kristin Palitza

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