Washington, 08/02/2006 – Apesar de seu interesse em impedir o colapso de países aliados em zonas estratégicas do Sul, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, propôs reduzir a ajuda internacional para o desenvolvimento e a recuperação de desastres naturais, e aumentar o orçamento militar em quase 7%. Em sua proposta orçamentária para 2007 enviada segunda-feira ao Congresso, o Departamento de Defesa prevê aumentar suas despesas no próximo ano para US$ 440 bilhões, sem incluir outros US$ 120 bilhões que espera pedir como destinação extra para financiar as operações militares no Afeganistão e Iraque em setembro, quando termina o ano fiscal de 2006.
Por outro lado, a ajuda internacional norte-americana em 2007 permanecerá em torno dos US$ 24 bilhões, como este ano, equivalente ao que Washington gasta em menos de cinco meses no Iraque. Além disso, Bush pediu uma redução de quase 20% na ajuda ao desenvolvimento, que passaria de US$ 1,5 bilhão para US$ 1,2 bilhão, e deduções semelhantes na ajuda a países vítimas de desastres naturais ou com programas especiais de saúde e infância. "A administração disse que há três componentes da segurança nacional: diplomacia, defesa e desenvolvimento", afirmou Mohammad Akhter, presidente da InterAction, uma coalizão de 160 organizações não-governamentais norte-americanas ativas no Sul.
"Vemos que a diplomacia e a defesa são bem atendidas, mas o desenvolvimento é a ferramenta mais ignorada. Entretanto, é nela que reside nossa segurança a longo prazo", acrescentou Akhter. Apesar disso, Bush pediu aumentos nos dois programas de assistência que levam sua assinatura: a conta do Desafio do Milênio (MCA), criada para compensar os "bons desempenhos" dos países pobres, e o Plano de Emergência do Presidente para o Alívio da aids, dirigido em sua maior parte a 14 países da África e do Caribe, além do Vietnã.
Para este último, Bush pediu um total de US$ 4 bilhões, incluindo apenas US$ 300 milhões do Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, e para o MCA solicitou US$ 3 bilhões, um aumento de US$ 1,250 bilhão em relação ao orçamento atual. Embora o Congresso, em geral, sempre aprove as propostas de Bush em relação a programas de combate à aids, nunca duvidou em reduzir drasticamente os pedidos destinados à MCA, especialmente porque o governo tem sido muito lento para selecionar os países beneficiários.
"O antecedente histórico sugere que a Corporação para o Desenvolvimento do Milênio (que administra o MCA) poderia obter o financiamento solicitado", afirmou o pesquisador Stewart Patrick, do Centro para o Desenvolvimento Global. Também considerou provável que os congressistas aprovem um aumento da ajuda internacional para programas voltados à infância, como fizeram no passado. O orçamento total proposto por Bush para 2007 chega a US$ 2,7 trilhões, 2,3% a mais do que no atual ano fiscal. Apesar do aumento, o déficit fiscal, se o pacote for aprovado pelo Congresso, passaria dos US$ 423 bilhões atuais para US$ 354 bilhões no ano fiscal de 2007, segundo calculou a administração Bush, cujas previsões de déficit sempre se caracterizaram por serem extremamente otimistas.
Para cobrir o aumento dos fundos destinados ao Pentágono, Bush propõe limitar ou reduzir o gasto em programas sociais e educativos nacionais, uma medida que pode causar grande polêmica em um ano eleitoral. O presidente pediu corte de gastos no programa de seguros de saúde Medicare para idosos e incapacitados. Bush combinou a apresentação de seu pacote orçamentário com um novo e polêmico pedido de cortes permanentes de impostos para grandes corporações e setores de altos recursos. Em uma coluna publicada pelo The Washington Post no domingo, o ex-conselheiro econômico do presidente, Douglas Holtz_Eakin, advertiu que os aumentos de impostos são inevitáveis, a menos que o orçamento seja reduzido. Entretanto, não parece estar nos planos da Casa Branca reduzir gastos militares.
Na sexta-feira, o Departamento de Defesa apresentou um informe no qual, apesar de rejeitar a idéia de enviar mais tropas pelo mundo, propõe um aumento de suas forças para operações especiais, cujos treinamento e equipamentos são especialmente caros. Além disso, como parte de sua "guerra contra o terrorismo", que o Pentágono rebatizou como "guerra longa", destaca a necessidade de adquirir novas armas que possam intimidar potenciais rivais, como China e Índia. "O orçamento de 2007 reflete nosso compromisso em defender nossa nação, travar uma longa guerra contra o terrorismo e nos prepararmos para futuros adversários", disse na segunda-feira o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. (IPS/Envolverde)

