Irã: Conflito nuclear prenuncia escalada de tensão

Nova Délhi, 02/02/2006 – Agora que o Ocidente acertou com a China e a Rússia levar a questão das atividades nucleares do Irã ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, está sobre a mesa uma grave escalada da tensão. Moscou e Pequim enviaram diplomatas a Teerã para explicar suas respectivas posições, segundo a Agência de Informação Rússia, mas há poucas esperanças de avanços antes da reunião da Agência Internacional de Energia Atômica, (AIEA) desta quinta-feira. A atitude demonstrada pelo Irã é desafiadora. Se seu governo não responder à iniciativa russo-chinesa, haverá um conflito que desestabilizará ainda mais a já volátil situação no Oriente Médio, segundo analistas indianos em questões de segurança.

A mudança de rumo dos acontecimentos poderia ocorrer na reunião da AIEA, convocada para discutir o caso do Irã, que, segundo suspeitam Estados Unidos e a União Européia, pretende enriquecer urânio porque tem a intenção de fabricar armas nucleares. Os Estados Unidos, os três países que representam a UE no diálogo com o Irã (Alemanha, França e Grã-Bretanha), Rússia e China chegaram na segunda-feira a um acordo em Londres, após várias horas de negociações. Esta é a primeira vez que China e Rússia se unem ao Ocidente para reclamar à Teerã o fim de suas atividades de enriquecimento de urânio, incluída a "pesquisa", reiniciada no começo de janeiro quando rompeu os selos nas instalações de Natanz na presença de inspetores da AIEA.

De todo modo, esses dois países conseguiram impor a condição de que o Conselho de Segurança não adote medidas práticas sobre o caso iraniano, por exemplo, sanções, pelo menos por um mês. Outra reunião da AIEA está programada para março, quando seu diretor-geral apresentará um relatório completo sobre as atividades nucleares do Irã. "Ao alcançar este acordo em Londres, a Rússia voltou atrás em relação à sua posição inicial, segundo a qual resistia em levar o caso ao Conselho", disse Kamal Mitra Chenoy, professor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Nehru, em Nova Délhi.

Moscou também mudou sua oferta anterior de enriquecer urânio para o Irã em instalações próprias para fornecer à central de energia nuclear em construção. Também há pouco, o governo russo inclinava-se pelo envio do caso iraniano ao Conselho, mas apenas a título de informação. O acordo é interpretado como um sinal de que, mais do que se absterem, Pequim e Moscou votarão pela moção ocidental em Viena, como ambos fizeram em setembro, quando a junta da AIEA considerou o Irã culpado de não cumprir o Tratado de Não-proliferação nuclear, do qual é signatário. Embora o assunto não seja tratado esta semana na junta da AIEA, fica evidente que Estados Unidos e União Européia avançam para um choque com o Irã.

Mais cedo do que tarde, Teerã deverá enfrentar sanções, apesar de seu governo assegurar que cumpre escrupulosamente seus compromissos internacionais. "Se Rússia e China votarem contra o Irã em Viena, a Índia fará o mesmo, quase com certeza", disse Mitra Chenoy. Em setembro, recordou o especialista, Nova Délhi rompeu fileiras com o Movimento dos Não-alinhados e votou a favor de uma moção norte-americana contra o Irã na junta da AIEA. Desta vez, a pressão dentro da Índia pela abstenção em Viena é intensa, mas o governo de Manmohan Singh tem novos argumentos no acordo alcançado em Londres por Estados Unidos, União Européia, China e Rússia, acrescentou Chenoy.

Além disso, Nova Délhi está sob pressão de Washington para acelerar a implementação do convênio de cooperação nuclear assinado em julho, o que legitimaria a posse de armas atômicas por parte da Índia. O acordo entre indianos e norte-americanos é usado pelo Irã com uma mostra de duplo discurso e hipocrisia. O convênio permitiria a Nova Délhi a compra de insumos nucleares em outros países. "A Índia gostaria de evitar a votação em Viena", mas votará contra o Irã "se for obrigada a tomar uma decisão", informou na terça-feira o jornal The Hindu. Tal decisão isolaria o Irã, que "responderia se o Conselho de Segurança decidisse por sanções", argumentou o especialista em assuntos asiáticos Gulshan Dietl, da Universidade Nehru.

"Não responderia imediatamente, mas o faria com uma resposta calibrada, passo a passo. Poderia, por exemplo, deixar de executar o Protocolo Adicional que assinou com a AIEA, que permite as inspeções intrusivas", explicou Dietl. "Depois, expulsaria os inspetores da AIEA, e, mais tarde, tomaria medidas mais duras", acrescentou. A carta mais forte do Irã é o Iraque, onde tem uma grande influência, tanto no governo de maioria xiita quanto na sociedade. Os Estados Unidos já têm grandes problemas no Iraque, cuja ocupação está bloqueada. Também é importante a influência iraniana no Afeganistão, segundo um diplomata indiano que serviu nesse país. E também na Síria e no Líbano. A vitória do Hamas nas eleições parlamentares da palestina também abona a força regional de Teerã. "No curto prazo, sanções contra o Irã seriam contraproducentes para o Ocidente. Um embargo petrolífero prejudicaria o Irã, mas também a economia de vários países europeus e do Japão", advertiu Dietl. (IPS/Envolverde)

Praful Bidwai

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