Arbirl, 24/02/2006 – O atentado contra uma mesquita xiita no Iraque e a conseqüente onda de assassinatos e ataques contra lugares sagrados sunitas acabaram jogando por terra os sonhos de reconciliação nacional sob um governo que represente todos os setores. Mais de 130 pessoas morreram, nesta quinta-feira, em ataques e enfrentamentos em todo o território, apesar dos desesperados apelos à calma por parte das autoridades, que limitaram a ação da polícia e do exército para impedir desmandos e evitar que o país caia irreversivelmente em uma guerra civil. A onda de violência, desatada após um atentado com bomba, na quarta-feira, contra uma mesquita xiita na cidade de Samarra, acabou prejudicando as negociações entre os diferentes setores para a formação de um governo de coalizão, paralisadas há três meses. Nas eleições realizadas no dia 15 de dezembro, a xiita Aliança Iraquiana Unida (AIU) obteve 129 cadeiras, os partidos curdos ficaram com 53, a Frente para o Acordo Iraquino (FAI), formada pelos principais partidos sunitas, com 44, e a lista secular do ex-primeiro-ministro Ayad Allawi, com 25. Os resultados tornam impossível que qualquer partido por si só forme um governo, por isso a imperiosa busca de acordos para obter uma maioria de dois terços no parlamento.
A maioria dos 26 milhões de iraquianos é xiita (62%), a população hegemônica do sul, enquanto no centro predominam os sunitas (35%), ramo islâmico dominante no mundo árabe e que constituiu a elite do regime de Saddam Hussein. Quanto à composição étnica da população, os árabes constituem três quartos, enquanto os curdos – a maioria dos quais professa o Islã sunita – somam 20%. A comunidade curda é majoritária no norte, apesar da campanha de limpeza étnica realizada por Saddam. Na semana passada, a AIU apresentou oficialmente o primeiro-ministro Ibrahim Al Jafari para um segundo mandato, uma notícia que causou impacto em todo o espectro político.
Al Jafari foi acusado de ineficiência em mais de uma ocasião por outros partidos e por observadores internacionais. "No último ano, Al Jafari não respeitou muito a Constituição interina e não teve bom desempenho. Por isso, os xiitas deverão escolher alguém mais popular", afirmou o analista Sarhang Hamid Barzinji, professor no Colégio de Direito e Ciência Política da cidade de Arbil. No começo deste mês, o embaixador dos Estados Unidos no Iraque, Zalmay Khalilzad, advertiu o bloco xiita que, se escolhesse um líder muito próximo ao Irã, Washington poderia suspender sua ajuda. Al Jafari é conhecido por seus estreitos vínculos com clérigos de Teerã.
A indicação de Al Jafari causou surpresa, já que muitos tinham esperanças de que fosse indicado seu rival na coalizão xiita, o moderado Abel Abdul Mahdi. Inclusive, circularam rumores de uma possível aliança entre curdos, árabes sunitas e a lista de Allawi para opor-se a Mahdi. Porém, Azad Jundiyani, chefe do escritório de imprensa da União Patriótica do Curdistão (UPK), partido do presidente iraquiano Jalal Talabani, rejeitou essas versões. "Não existe tal plano para criar uma coalizão contra a AIU. Estamos procurando unir todas as listas em um programa político unificado e adotar mecanismos para criar um novo governo", disse Jundiyani à IPS.
Entretanto, ainda existem grandes obstáculos no caminho. Os xiitas querem que o futuro parlamento introduza um artigo na Constituição que lhes permita criar regiões com maior autonomia no sul. Por sua vez, os sunitas acusam o Ministério do Interior, dominado por xiitas, de realizar blitz contra a população por motivos religiosos e políticos e de ter matado centenas dos seus. Por isso, pedem que os ministérios da Defesa e do Interior sejam administrados por políticos que não integrem a AIU. Por outro lado, os líderes curdos exigem, como principal condição para participar do governo, a devolução da cidade de Kirkuk, a região autônoma curda no norte do país, rica em petróleo.
Poucos dias depois do anúncio dos resultados eleitorais, os partidos sunitas uniram forças com Allawi para criar um segundo bloco parlamentar maior, com 80 cadeiras. Observadores dizem que isto não afetará a posição curda no novo governo. "De fato, curdos e xiitas mantiveram contatos antes, e parecem querer saltar sobre as demais listas para criar um novo governo", disse Barzinji. Os políticos de linha dura na AIU, leais ao clérigo radical xiita Muqtada al Sadr, expressaram seu rechaço a participar de qualquer governo com Allawi no futuro.
A atual tensão, agravada pela violência, pode fazer com que as negociações se estendam por meses. Muitos temem graves conseqüências políticas e sociais se o novo governo não representar todos os setores do país. "Se o futuro governo não for inclusivo e de base ampla, que cumpra a Constituição, então explodirá uma guerra civil", alertou Barzinji. (IPS/Envolverde)

