Energia: Gasoduto caro e polêmico

Caracas, 23/02/2006 – O gasoduto sul-americano que cruzará a Amazônia para levar combustível desde o Mar do Caribe até o rio da Prata ainda é um sonho, mas pelas emendas de suas tubulações já afloram problemas econômicos, políticos e ambientais. O projeto consiste em levar gás desde as jazidas do sul do Caribe e do oceano Atlântico diante da costa da Venezuela até o Brasil e a Argentina, por uma distância entre sete mil e 9.300 quilômetros, segundo diferentes estimativas, com ligações com tubulações da Bolívia, do Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. Quando os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega da Argentina, Nestor Kirchner, lançaram o projeto no ano passado se falou de custos na casa dos US$ 7 bilhões, mas há estimativas de US$ 25 bilhões. Também não existe certeza sobre a capacidade venezuelana para sustentar o abastecimento, o projeto ainda está longe de ter um traçado definitivo e um cronograma, e a responsabilidade de obter gás mais barato provoca polêmicas na região. Na Venezuela, organizações ecologistas fizeram seus primeiros alertas sobre o impacto ambiental do gasoduto e exigem uma discussão pública de todo o projeto.

Ildo Sauer, diretor de gás e energia da Petrobras, disse na semana passada que com o projeto o Brasil poderia economizar US$ 11 bilhões por ano em importações de gás, ao comprar o combustível a preços equivalentes a US$ 26 o barril (de 159 litros). A empresa contaria com uma oferta venezuelana para lhe vender gás a preço subsidiado a fim de garantir sua adesão ao projeto, aproximadamente um dólar para cada milhão de BTU (Unidade Térmica Britânica), sendo que atualmente o Brasil paga à Bolívia US$ 3,23 por milhão de BTU.

Em La Paz, que discutirá novos preços com o Brasil, em março, o anúncio foi considerado "um balão de ensaio das multinacionais quando nos dirigimos à nacionalização dos hidrocarbonos", afirmou o deputado oficialista Gustavo Torrico. O opositor Oscar Ortiz considerou que se trata de "uma bofetada, uma competição desleal" da Venezuela em relação à Bolívia, e pediu ao governo de Evo Morales que se afaste de Caracas. O ministro venezuelano de Energia, Rafael Ramírez, respondeu a essa afirmação dizendo que "um dólar não paga nem mesmo os custos de produção na costa da Venezuela, que é de US$ 1,6 por milhão de BTU. O preço será anunciado quando definirmos a rota, mas nunca será menor que US$ 5" por unidade, afirmou.

O presidente boliviano disse na terça-feira que "não se pode pensar que, com semelhante investimento, o gás da Venezuela possa custar mais barato para o Brasil, é algo absurdo em que não se pode acreditar". Técnicos do Brasil, da Venezuela e Argentina continuam delineando um projeto para que Lula, Kirchner e Chávez possam adotá-lo quando se reunirem no dia 11 de março em Mendoza (Argentina), depois de assistirem a posse de Michelle Bachelet como nova presidente do Chile. Uma delegação da empresa russa Gazprom contatou autoridades petrolíferas do Brasil e da Venezuela nas últimas semanas, interessada em participar da construção do gasoduto.

O projeto, considerado o mais ambicioso quanto à infra-estrutura física da América do Sul, abordará o traçados, custos, financiamento e produção e financiamento de gás, bem como as ligações com gasodutos já existentes. A idéia enquadra-se dentro da aliança energética entre Estados da região, Petrosur, e na Iniciativa de Infra-Estrutura Regional Sul-Americana, levantada por Brasília como suporte material da nascente Comunidade Sul-Americana de Nações. Cada capítulo gera polêmicas. "O plano de atravessar a Guiana venezuelana e a Amazônia deveria disparar todos os alarmes de gente preocupada por esse pulmão do planeta, além de lar de culturas aborígines", disseram à IPS integrantes da organização ambientalista venezuelana Rede Alerta Petroleira-Orenoco Oilwatch.

Citaram, com exemplo, o gasoduto de Camisea, no Peru, "uma tubulação para levar gás amazônico ao oceano Pacífico peruano e que em poucos anos de vida já protagonizou importantes vazamentos de gás liquefeito, com danos ao meio ambiente e às populações". Trata-se de "um plano do mais rançoso e primitivo desenvolvimentismo neoliberal", que oferta um combustível mais limpo do que o petróleo, "mas tem maiores riscos operacionais, contribui como o petróleo para o aquecimento do planeta, implicaria desmatamentos ao longo do traçado e é vulnerável a desastres naturais ou sabotagens", afirmaram. A rede ambientalista reclama a suspensão do projeto até que haja um debate democrático na região sobre sua pertinência, e lembra que "há opções menos comprometedoras e onerosas", como o transporte por navios.

Nesse ponto coincidem especialistas como Luis Giusti, ex-presidente do gigante estatal Petróleos da Venezuela, para quem "não é por acaso que acima de, aproximadamente, três mil quilômetros de distância o transporte preferido para o gás liquefeito sejam os navios". No Cone Sul, "os mercados do gás natural estão regulados, enquanto os preços necessários para justificar o investimento de US$ 25 bilhões excederiam os US$ 20 por milhão de BTU, que não paga nem o mercado aberto", recordou. Mas o outro problema é a capacidade de fornecimento. Chávez afirmou que seu país tinha reservas suficientes para abastecer a região "durante cem anos".

A Venezuela tem reservas de 149 bilhões de pés cúbicos de gás natural, isto é, 56% das reservas da América Latina e do Caribe, embora sua produção seja inferior à da Argentina e do México. "Mas grande parte desse gás não é livre, e sim associado ao petróleo", recordou à IPS o especialista Elie Habalián, que foi governador da Venezuela junto à Organização de Países Exportadores de Petróleo, o que significa que para sua extração são necessários investimentos elevados para produzir petróleo e também reinjetar gás nos poços de onde se extrai petróleo.

O grupo de opinião nacionalista Soberania recordou que o gasoduto servirá para transportar 150 milhões de metros cúbicos, ou 5,3 bilhões de pés cúbicos, de gás por dia, "a ninharia de 46% da produção de gás" da Petróleos da Venezuela. "A famosa tubulação já não percorrerá sete mil ou oito mil quilômetros, mas 9.283, segundo a Petrobras, e não custará entre US$ 17 bilhões e US$ 20 bilhões, mas US$ 23,279 bilhões. Tanta precisão assombra", diz um texto de estudiosos do petróleo da Soberania a respeito de informações procedentes da empresa brasileira. Finalmente, os presidentes deverão estabelecer a fórmula do financiamento do ambicioso projeto, para o qual se descontam aportes do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Corporação Andina de Fomento. Esta última, para todas suas operações concede financiamento de US$ 3,5 bilhões anuais. (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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