Jornalismo: Rumsfeld declara outra guerra

Washington, 24/02/2006 – O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, anunciou uma campanha para influenciar a cobertura jornalística internacional sobre as ações de seu país, o que, sem dúvida, desencadeará um novo debate sobre a liberdade de imprensa. O governo de George W. Bush prepara uma cruzada para divulgar e defender as posições de Washington, em especial a "guerra contra o terrorismo", disse Rumsfeld perante o Conselho de Relações Exteriores, instituição acadêmica conservadora com sede em Nova York. O secretário mencionou, como antecedentes e modelo, duas iniciativas da Agência de Informação dos Estados Unidos na época da Guerra Fria: a Rádio Europa Livre e a Rádio Liberdade. É provável que a campanha, como ocorreu com esforços semelhantes nos últimos cinco anos, se projete em duas áreas principais: os meios de comunicação norte-americanos e os do mundo islâmico, nos quais Washington deseja exercer uma influência estratégica. Rumsfeld disse, na terça-feira, que o Pentágono está "revisando" sua prática de pagar a transmissão de notícias favoráveis sobre o Iraque na imprensa dos Estados Unidos. Essas declarações contradizem afirmações anteriores sobre a suspensão do polêmico plano de propaganda. A nova campanha se soma a uma longa lista de decisões do governo questionadas por ativistas dos direitos humanos, como a escuta – sem autorização – de comunicações de cidadãos, a inspeção de registros bibliotecários e a compilação de bases de dados sobre pessoas que discordam das políticas do governo.

Estas medidas – afirmam – estão levando o país por um caminho autoritário, paradoxalmente não muito diferente dos regimes do Oriente Médio que combate. Além disso, afirmam que os principais meios de comunicação dos Estados Unidos já tendem a fazer uma interpretação conservadora dos fatos, com pouca atenção para os pontos de vista que a contradizem. As vozes conservadoras predominaram notoriamente sobre as liberais nos programas jornalísticos dominicais dos últimos nove anos, segundo um estudo divulgado este mês pelo centro independente de pesquisa sobre jornalismo Media Matters for América (A imprensa importa para os Estados Unidos).

O estudo analisa o conteúdo de programas como "Meet the Press", da rede NBC, "Face the Nation", da CBS, e "This Week", da ABC, considerados por muitos o pináculo do bom jornalismo na televisão. Os pesquisadores classificaram cada um dos cerca de sete mil convidados, que apareceram entre 1997 e 2005, como membros do governante Partido Republicano, do opositor Partido Democrata, conservadores, progressistas e neutros. A pesquisa concluiu que aos convidados críticos do governo Bush foi dado apenas o espaço necessário para manter certa imagem de imparcialidade e precisão. A maioria dos legisladores contrários à guerra no Iraque, por exemplo, esteve ausente dos programas dominicais, sobretudo nas vésperas da invasão, lançada em maio de 2003.

"Se o domínio conservador neste importante campo da formação de opinião pública continuar como nos últimos nove anos, pode haver graves conseqüências para os futuros debates e eleições", afirmou o presidente do Media Matters for América, David Brock. "Este estudo deveria servir como um alerta para todos os que pensam que vêem um discurso equilibrado aos domingos pela manhã, e para os responsáveis por esta programação pouco equânime", acrescentou. O plano de Rumsfeld seguramente fortaleceria este tipo de cobertura. Em seu discurso, o secretário usou terminologia de guerra para se referir à imprensa. "Algumas das batalhas mais críticas não acontecem nas montanhas do Afeganistão nem nas ruas do Iraque, mas nas salas de imprensa, em lugares como Nova York, Londres, Cairo", afirmou.

Para Jim Naureckas, editor da revista Extra!, do grupo independente Fairness and Accurancy in Reporting (Justiça e Precisão ao Informar), o governo Bush considera que "mutilar a informação que chega ao público é parte de sua estratégia de guerra. Creio que é muito perigoso os militares fazerem esse trabalho em uma democracia. Quando as pessoas falam da 'frente interna', não se dão conta das sinistras implicações decorrentes. O público é visto como outra frente com a qual os militares devem lutar", acrescentou. Rumsfeld anunciou sua intenção de integrar mais a imprensa na "guerra contra o terrorismo", inclusive capacitando pessoal militar nas diversas técnicas de comunicação. O secretário disse que contratará especialistas em jornalismo do setor privado.

Por sua vez, o Departamento de Estado também redobra seus esforços em propaganda. Na semana passada, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, pediu US$ 74 milhões para ampliar suas campanhas de transmissão de televisão, divulgação de sites na Internet e intercâmbio de estudantes no Irã, destinadas a desestabilizar o governo do presidente Mahmud Ahmedinejad. Para o Pentágono, "divulgar informação só tem o propósito de alcançar objetivos militares. Não é em honra à verdade. Uma vez que se começa a olhar os fatos desta maneira, a diferença entre uma declaração verdadeira e uma falsa é muito pequena", disse Naureckas. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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