Mulheres: Com véu, porém, mais visíveis

Abbotabad, Paquistão, 24/02/2006 – Mais de quatro meses depois do terremoto que, no dia 8 de outubro, matou cerca de 80 mil pessoas na região setentrional do Paquistão, as vozes das mulheres mais do que nunca são ouvidas, embora suas aspirações e temores continuem sendo ignorados. O terremoto de 7,8 graus na escala Richter também deixou 2,5 milhões de pessoas sem teto, e até agora a ajuda tem sido insuficiente, apesar do enorme esforço do governo e das agências humanitárias internacionais. A zona mais afetada é a que fica próxima da fronteira com o Afeganistão, onde a religião e os costumes exigem que as mulheres permaneçam cobertas pelo "purdah" (véu) e deixem que os homens tomem todas as decisões. Talvez por isso, o frio não tenha intimidado cerca de 600 mulheres que, em uma tarde no final de janeiro, se reuniram em uma enorme barraca de campanha para expressar seus sentimentos sobre o nulo avanço dos trabalhos de reabilitação depois da catástrofe. Algumas apenas deixavam ver os olhos através dos véus nessa "assembléia popular" convocada pela Fundação Omar Asghar Khan para o Desenvolvimento, uma organização não-governamental que trabalha com as comunidades rurais do distrito de Mansehra, na Província da Fronteira Noroeste. Algumas clamavam por abrigo e rações de alimentos, enquanto outras destacavam a necessidade de médicos e ginecologistas, bem como de escolas para meninas em suas aldeias. Também houve muitas que falaram de seu desagrado com o projeto das novas moradias. Porém, todas demandaram ser consultadas.

Seu ânimo expressava a angústia em que se encontravam. Nem o clima hostil conseguiu apaziguar seu entusiasmo. "Quem teria pensado que estas mulheres rurais, normalmente vistas como submissas, seriam tão batalhadoras", disse Rashida Dahod, conselheira de programa na Fundação, que desde o terremoto trabalha nestas regiões. "A idéia é expandir o espaço político dos marginalizados, para que sejam capazes de se comprometerem efetivamente com o Estado", explicou Dohad. Devido ao sucesso dessa primeira assembléia, a Fundação realizou outras com resultados semelhantes. "Queríamos dar às mulheres uma plataforma para compartilharem seus pontos de vista, esperanças e medos sobre a reconstrução de suas casas, das instalações sanitárias e para obter alguma segurança em seus meios de vida", afirmou Dohad.

No período imediatamente posterior ao terremoto, a Fundação adotou algumas medidas para minimizar a situação. Seus voluntários organizaram os aldeões em grupos e começaram a instalar "serais" (refúgios temporários), deixando um pacote completo de material de assistência, incluindo alimentos e outros produtos essenciais, nas portas das pessoas afetadas. Isto significou o não-deslocamento, maior segurança para as mulheres, capacidade para continuar com a atividade agrícola, melhor acesso à água e às instalações sanitárias, possibilidade de custodiar as posses da família, a colheita, cuidar dos animais e começar a reconstrução e o planejamento.

Estes fatores e a participação na reabilitação da aldeia, bem como maior solidariedade e coesão comunitárias, geraram uma demanda muito maior de "serais". No final de novembro de 2005, a Fundação havia instalado esses abrigos em 36 aldeias de três distritos, cobrindo mais de 6,1 mil moradias (quase cinco mil pessoas). As mulheres podem ser as mais pobres do Paquistão, mas durante essas reuniões mostraram que já não estavam dispostas a continuar sem voz. "Esta é nossa chance de nos manifestarmos. Podemos viver em aldeias, mas também somos paquistanesas", disse Zarina, uma mulher de 30 anos.

Durante anos, na medida em que os homens migravam para centros urbanos em busca de trabalho, as mulheres se transformavam, silenciosamente, em chefes de família. "Carregaram em seus ombros a responsabilidade de administrar as famílias, inclusive antes do terremoto. A principal fonte de renda local são os animais, que tradicionalmente são manejados pelas mulheres", explicou Dohad. Quando os homens retornarem para seus locais de trabalho nos centros urbanos, a responsabilidade da reconstrução também ficará em mãos das mulheres. Uma primeira preocupação foi ter acesso à ajuda de 175 mil rúpias paquistanesas (US$ 3 mil) concedida para cada casa destruída ou danificada.

"Ouvimos sobre o pacote do governo para a reconstrução de casas, mas não estamos certos de conseguir essa ajuda", disse Hukumdad, uma mulher de 40 anos, procedente da aldeia Sirla. Muitas expressaram descontetamento pela compensação, já que os custos dispararam. "O dinheiro não é suficiente para reconstruirmos nossas casas", disse Madiha, da aldeia de Buruj. Contudo, o informe da Fundação diz outra coisa: "Alguns lares verdadeiramente afetados confirmaram que receberam esta soma, embora seja inadequada. Muitos deles que não o mereciam também se beneficiaram da ajuda. Os casos de que se tem conhecimento indicam que a distribuição da compensação por morte, de 100 mil rúpias (US$ 1,6 mil), é insuficiente e está cheia de corrupção".

Outras questionaram o mecanismo de dirigir essa quantia aos homens chefes de família. "Nós temos o mesmo direito", afirmaram muitas mulheres que juntaram coragem suficiente. "O terremoto deixou profundas rachaduras em nossa terra. Não é adequada para a reconstrução. Para onde iremos?", foi o angustiante comentário de uma participante. "Somos arrendatários. O que nos acontecerá?", se preocupou outra. As mulheres sugeriram que o governo destinasse terrenos para as famílias afetadas.

"O pacote do governo é cego em matéria de gênero. Sua menção das mulheres diz respeito às viúvas, que são colocadas na mesma categoria que os órfãos e incapacitados. Mas, nem todas são viúvas", disse Dohad. A Fundação sugeriu à Autoridade de Reabilitação e Reconstrução após Terremotos que colocasse o dinheiro para a reconstrução de moradias em uma conta bancária comum do chefe e da chefe da família. Iniciativas políticas como esta podem ser uma enorme diferença no status familiar das mulheres e garantir que o declarado objetivo do governo de "reconstruir melhor" seja cumprido.

Se, por um lado, houve unanimidade geral quanto a seguir os códigos de construção para que as casas sejam mais seguras, por outro, muitos participantes lamentaram que os projetos dos modelos pré-fabricados não seguissem as tradições nem respeitassem sua privacidade. "Necessitamos de um projeto que respeite nossa privacidade e nosso prudah", foi a reclamação comum. Muitas jovens que participam das assembléias populares falam apaixonadamente sobre seu direito à educação. "São as moças menos importantes do que os rapazes? Se somos iguais, por que não se dá a devida importância à nossa educação?", perguntou Aasiya, da aldeia Sihali.

"Nossos pedidos para reconstrução do edifício da escola simplesmente foram ignorados. Quem se responsabilizará pelas mortes de estudantes, se ele desabar?", perguntou Rabya, estudante da Escola para Meninas Garhi Habibullah, onde mais de 200 moças foram enterradas vivas por causa do terremoto. A própria Rabya ficou presa sob os escombros por mais de duas horas, até ser resgatada. Dohad vê aqui "uma oportunidade real de mudar as relações tradicionais de poder que podem trazer uma mudança duradoura".

"A reconstrução não só deve reedificar, como também melhorar significativamente as condições das áreas rurais devastadas, reduzindo a vulnerabilidade dos pobres do lugar", disse Ali Asghar Khan, presidente da Fundação. Também pediu urgência ao governo e outras entidades sociais no sentido de ouvir os afetados, particularmente as mulheres e os pobres. "É mais fácil dizer do que fazer", afirmou uma cética Dorothy Blane, diretora para este país da Concern, uma ong irlandesa envolvida na tarefa de reabilitação na Província da Fronteira Noroeste, que aposta na mobilização comunitária para incentivar a formação de organizações masculinas e femininas.

"Inclusive, mesmo se as organizações se formarem, ainda faltará um grande salto para que as mulheres se sintam livres para erguer a voz, e outro ainda maior para que sejam ouvidas", disse Blane. "Se considero o quão pouco mudou, inclusive em circunstâncias nefastas, como mulheres feridas negando-se a aceitar tratamento de médicos homens, mesmo com permissão de seus maridos, não estou de todo convencida de que todas vejam a reconstrução como uma oportunidade de gerar uma mudança positiva. Mas, nós, como uma ong, devemos apoiar aquelas que pensam o contrário", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Zofeen T. Ebrahim

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