Nações Unidas, 20/02/2006 – O Comitê de Relações Internacionais da Câmara de Representantes dos Estados Unidos acusou um grupo de 132 nações de bloquear os esforços de Washington por uma reforma radical da Organização das Nações Unidas. Segundo uma carta assinada pelo presidente do Comitê, Henry Hyde, e por Tom Lantos, do opositor Partido Democrata, o Grupo dos 77 países em desenvolvimento mais a China trabalharam arduamente contra os esforços do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para "erradicar a corrupção da instituição" "Nós e nossos colegas da Câmara seguimos e seguiremos de perto suas ações e pretendemos que respondam por elas", diz a carta.
Menos de 24 horas depois de entregue a carta, na quinta-feira, o presidente dos 132 países que formam o G-77 e a China, o embaixador Duminasi Kumalo, da África do Sul, convocou uma reunião urgente do bloco para discutir o assunto. "A carta traz assuntos muito importantes, e gostaria de obter o conselho do G-77 e China para responder", disse Kumalo. A advertência do Comitê parlamentar receberá uma chuva de críticas do G-77, a maior coalizão de Estados dentro da ONU. "A carta não só não tem precedente, mas também foi um ato de despotismo por um comitê que não tem direito de intervir no trabalho das Nações Unidas", afirmou um membro do grupo à IPS. "A ONU está formada por 191 países, e os Estados Unidos são apenas uma parte minoritária da mesma. Nós teremos nossa própria resposta à carta", prometeu.
Para alguns embaixadores, Annan é um "secretário-geral muito complacente", e é acusado de ceder à pressão da direita norte-americana, que pretende moldar o mundo segundo as linhas de um Estados Unidos corporativo governado por um diretor-geral. Em outubro, o G-77 solicitou a Annan que explicasse "se agora os funcionários principais da Secretaria se reportam diretamente aos parlamentares nacionais sobre resoluções tomadas por membros das Nações Unidas". A Secretaria-Geral da ONU deve "responder à Assembléia Geral de 191 membros, e não a países-membros de forma individual". Segundo o G-77, o papel da Secretaria "é implementar adequadamente os mandatos da ONU. As críticas públicas feitas pelos funcionários da Secretaria sobre decisões tomadas pela Assembléia Geral são inaceitáveis".
Em depoimento perante o mesmo Comitê, em outubro, o chefe de pessoal de Annan, Mark Malloch Brown, disse aos legisladores: "Confiamos em nossos amigos, não só na administração de George W. Bush, mas também no Congresso. Depois de tudo, vocês têm o poder do dinheiro, e isso lhes garante uma audiência atenta em qualquer lugar onde forem". Com tom bastante duro, uma carta enviada a Annan na semana passada pelo G-77 também criticava os hierarcas das Nações Unidas por ignorarem a Assembléia Geral e pressionar em assuntos pertinentes ao trabalho da ONU, particularmente sobre denúncias de má administração, fraude e corrupção.
Em sua carta, o G-77 especifica que estes altos funcionários buscam limitar o papel dos países-membros e da Assembléia Geral. "Devemos garantir que exista confiança e um canal aberto e fluido de comunicação entre os Estados-membros e a Secretaria", dizia em um de seus parágrafos. Esta foi a segunda carta enviada pelo G-77 a Annan questionando os integrantes da Secretaria. A primeira, enviada em outubro, foi dirigida diretamente a Brown. A última foi enviada ao subsecretário-geral para Assuntos Administrativos, Christopher Burnham, ex-funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
O Comitê de Relações Internacionais afirmou: "Escrevemos em resposta ao intolerável ataque que vocês, o Grupo dos 77 mais China, fazem contra a Secretaria das Nações Unidas em seu grande esforço para erradicar a corrupção da ONU". O Comitê também afirma que na carta dirigida a Annan o G-77 "declara de forma absurda que estão junto a quem quer reformar a administração das Nações Unidas, enquanto, simultaneamente, criticam a Secretaria por suas revelações públicas documentando escândalos de suborno cometidos por funcionários e contratados da ONU".
"Aparentemente, o G-77 e China preferem que os cidadãos do mundo não fiquem sabendo das centenas de milhões de dólares roubados por funcionários e contratados corruptos. A reforma das Nações Unidas se centra no respeito e na transparência, especialmente daqueles cidadãos de uns poucos países responsáveis pelo financiamento de programas, muitos dos quais beneficiam suas elites políticas", acrescenta a carta. O último informe sobre atos venais, segundo o Comitê, levou a Secretaria a suspender oito empregados, o que demonstra e reforça a razão de continuar e acelerar os esforços de reforma. "Com uma perda potencial de aproximadamente US$ 300 milhões só neste escândalo, não é momento de ofuscar-se por procedimentos e objeções burocráticas", continua a carta dos legisladores, ao mesmo tempo em que acrescenta que o "statu quo" já não é aceito pela maioria dos norte-americanos.(IPS/Envolverde)

