Jerusalém, 06/02/2006 – As perspectivas econômicas da Palestina depois da vitória eleitoral do partido islâmico Hamas ficam mais sombrias, diante da possibilidade de ser suspenso o pagamento de salários dos funcionários públicos e de que os países doadores suspendam sua ajuda. Em resposta à negativa do Hamas em abandonar as armas e reconhecer o direito à sua existência, Israel pode reter a transferência de US$ 45 milhões a US$ 55 milhões arrecadados a título de impostos em nome da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Por outro lado, representantes de países e organizações doadoras se reúnem a portas fechadas para discutir a possibilidade de deter a ajuda internacional ao governo palestino, a menos que o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) se comprometa com um desarmamento.
Cerca de 34 nações e agências doadoras entregam anualmente sua ajuda à ANP. A União Européia, o principal contribuinte, destina US$ 600 milhões, seguida dos Estados Unidos, com US$ 400 milhões. "O corte da ajuda e dos impostos nos territórios ocupados poderia levar a uma situação de fome em grande escala e a um caos político", disse à IPS o sociólogo Jamil Hilal, da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia. "A fragmentação dos territórios palestinos pelos postos de vigilância e pela muralha de separação, que os palestinos chamam de "muro do apartheid", aumentou os níveis de desemprego", acrescentou.
Um terço da força de trabalho palestina está desempregada, e a pobreza aumentou por causa do muro que Israel constrói ao redor da Cisjordânia para impedir a entrada de atacantes suicidas em seu território, já que restringe o movimento de trabalhadores e matérias-primas. Segundo o Banco Mundial, o desemprego na ANP duplicou desde a segunda intifada (revolta popular dos palestinos contra a ocupação) e quase a metade dos 3,6 milhões de palestinos vivem abaixo da linha de pobreza. Além disso, o déficit orçamentário da ANP chega a US$ 800 milhões, segundo o último informe do Banco, divulgado em dezembro.
"A expansão fiscal da ANP é insustentável. A menos que seja revista, levará a uma bancarrota funcional", alertou o Banco Mundial, considerando improvável que o governo palestino possa pagar os salários dos empregados públicos ou prestar serviços sociais básicos. O ex-presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981), que no mês passado liderou uma equipe de observadores internacionais nas eleições parlamentares da ANP, no dia 24 de janeiro, é partidário de dar-se ao Hamas uma oportunidade. Uma suspensão da ajuda fará com que os palestinos, especialmente, policiais, professores e trabalhadores da saúde, sejam severamente afetados. O agravamento da situação econômica poderia desencadear um novo capítulo de violência contra Israel.
O Hamas obteve uma surpreendente maioria de 76 cadeiras no Conselho Legislativo, de 132 membros, nas primeiras eleições parlamentares dos últimos 10 anos, vencendo o partido secular Al Fatah, fundado pelo falecido presidente Yasser Arafat, que dominou a política palestina por 40 anos. O movimento islâmico insiste em não abandonar as armas enquanto Israel não se retirar para a linha de fronteira existentes em junho de 1967, quando ocupou Jerusalém oriental, Gaza e Cisjordânia. O Hamas ganhou popularidade com a queda de prestígio do Al Fatah, afetado por denúncias de corrupção e criticado por sua incapacidade de restaurar a ordem.
O independente Centro de Israel e Palestina para a Pesquisa e a Informação, com sede em Jerusalém, disse que seguramente o Hamas apelará ao apoio de países islâmicos com Arábia Saudita, Irã e Qatar, bem como a organizações humanitárias muçulmanas. De fato, o movimento islâmico já iniciou conversações com Riyadh, que todos os anos outorga US$ 40 milhões de ajuda. "Creio que obterão dinheiro suficiente para pagar os salários", disse à IPS Gershon Baskin, do Centro, embora alerte que não haverá fundos para investimentos em infra-estrutura. Somente o pagamento de salário para os servidores exige entre US$ 35 milhões a US$ 45 milhões mensais.
Baskin afirmou que, embora nem todos os países muçulmanos tendem a traduzir sua solidariedade com a Palestina em apoio financeiro, o Hamas terá uma "melhor oportunidade" de receber ajuda de parte do Irã. Entretanto, o movimento não deseja depender da ajuda internacional. Sua agenda econômica inclui planos para reduzir o salário dos legisladores e combater a corrupção, investigando ex-membros do governo. (IPS/Envolverde)

