Moscou, 16/02/2006 – O governo da república autônoma da Chechênia proibiu "tudo o que procede da Dinamarca" e suprimiu um programa de ajuda humanitária do Conselho Dinamarquês para os Refugiados, organização não-governamental que ajuda milhares de refugiados. O primeiro-ministro interino checheno, Razman Kadyrov, afirmou que com essa medida salvaria os trabalhadores de organização de serem atacados por muçulmanos descontentes com a publicação das caricaturas do profeta Maomé publicadas originalmente em setembro no jornal dinamarquês Jyllands-Posten.
Os desenhos, reproduzidos nas últimas semanas por jornais da Alemanha, Áustria, Espanha, França, Itália Suíça e outros países europeus, provocaram uma onda de protestos violentos no mundo muçulmano, com ataques a representações diplomáticas e choques com forças de segurança que causaram várias mortes. Uma das 12 ilustrações representa o profeta com uma bomba de estopim acesso na cabeça, em lugar do turbante. "Muitos muçulmanos queriam esta suspensão, incluindo os de nossa república", disse Kadyrov, à revista russa Kommersant-Vlast, ao explicar as razões de sua decisão, anunciada na semana passada. "Os trabalhadores poderiam ser feitos reféns para se conseguir uma desculpa da Dinamarca. Ouvi rumores e decidi proteger os dinamarqueses. Eles deveriam me agradecer", afirmou.
O primeiro-ministro ressaltou sua intenção de que todos os grupos de origem dinamarquesa abandonem a república. "Farei todo o possível para que estas organizações saiam da Chechênia. Creio que as autoridades dinamarquesas deveriam pedir desculpas pelo que fez sua imprensa", afirmou. Entretanto, sugeriu que somente uma desculpa não seria suficiente. Os muçulmanos "querem castigar os que abusaram do nome do profeta". Além disso, acusou os trabalhadores humanitários dinamarqueses de envolvimento em "trabalhos de inteligência" na república chechena. "Estas organizações nunca cooperam com as autoridades (chechenas) e coletam todo tipo de informação", acrescentou.
O Conselho Dinamarquês para os Refugiados disse que as acusações "carecem de qualquer fundamento", e expressou preocupação pelas conseqüências de uma surpreendente interrupção na ajuda humanitária à conflitiva república. A diretora da organização na Rússia, Per Ilsaas, informou que haviam diminuído suas atividades esperando uma decisão do governo federal russo. "Estamos preocupados com a deplorável situação dos refugiados e ansiosos para dar-lhes a mão e melhorar seu bem-estar material depois da relativa paz estabelecida após as eleições democráticas", disse Ilsaas à IPS.
Em dezembro a Chechênia realizou suas primeiras eleições parlamentares desde que o governo central da Rússia assumiu há sete anos o controle da república e iniciou um "processo de pacificação". Esta república do Cáucaso de predomínio muçulmano se declarou independente e soberana depois da dissolução da União Soviética em 1991, mas a resposta de Moscou não se fez esperar: o então presidente russo Boris Yeltsin lançou imediatamente uma guerra contra os separatistas. O território deve sua importância à localização estratégica entre os mares Negro e Cáspio – passagem entre Europa, Ásia e África – bem como às suas reservas de petróleo e aos oleodutos, gasodutos e estradas que o atravessam.
Em 1995, Grozny, a capital da Chechênia, estava quase totalmente destruída. A quantidade de mortos por causa da violência política desde 1994 chega a 150 mil. Tanto os insurgentes chechenos quanto o governo russo foram acusados de atos de terrorismo: bombardeios indiscriminados, seqüestros e atentados com explosivos contra civis e, inclusive, utilização de gases tóxicos por parte das forças militares. Um questionado referendo convocado por Moscou em 2003 reafirmou a permanência da Chechênia na Federação Russa. O presidente Vladimir Putin anunciou, na época, que a guerra de mais de 10 anos havia chegado ao fim.
"Nossa organização está disposta a continuar trabalhando com o povo, que ainda precisa de ajuda. Nossos estudos mostram que a situação humanitária na Chechênia tem de melhorar ainda mais para que a população se beneficie", disse Ilsaas. Dos 573.500 chechenos, pelo menos 91.700 ainda são vulneráveis, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Entretanto, Ilsaas acredita que as negociações com Moscou permitirão o reinício do trabalho humanitário. "O diálogo começou, e há esperanças de que tenha êxito", afirmou.
Por sua vez, Moscou age com cautela. A chancelaria expressou em um comunicado esta semana sua preocupação "pelas conseqüências negativas da publicação de caricaturas que insultavam a fé dos muçulmanos". O escândalo apenas beneficia "aqueles que querem fomentar os confrontos étnicos para seus próprios fins políticos", acrescentou. O ministério pediu "esforços conjuntos" para a tolerância e o estabelecimento de um diálogo para reiniciar a ajuda humanitária à Chechênia. "Entretanto, o presidente da Duma (câmara baixa do parlamento russo) e do oficialista Partido Unido, Boris Gryzlov, pediu mais prudência ao primeiro-ministro checheno. "Suas declarações deveriam ter sido canalizadas através do governo federal", disse Gryzlov ao jornal russo Nezavisimaya Gazeta. (IPS/Envolverde)

