Religião: Fúria islâmica é contra a "guerra ao terrorismo"

Kuala Lumpur, 15/02/2006 – A fúria desatada nos paises muçulmanos depois da publicação de uma série de caricaturas do profeta Maomé é, na realidade, conseqüência da crescente indignação com a "guerra contra o terrorismo", lançada pelos Estados Unidos, afirmam líderes islâmicos. As caricaturas publicadas originalmente por um jornal dinamarquês, mostrando Maomé como um terrorista, foram o tema central da conferência internacional "Quem fala pelo Islã? Quem fala pelo Ocidente?", realizada no final de semana em Kuala Lumpur, na Malásia.

O primeiro-ministro da Malásia, Abdulá Badawi, presidente de turno da Organização da Conferência Islâmica, exortou os muçulmanos e o mundo ocidental a se unirem contra os elementos extremistas nas duas sociedades, os quais – ressaltou – estão empenhados em nos dividir". Porém, Badawi também culpou a "hegemonia dos centros de poder no Ocidente" pela crescente brecha entre as duas culturas. Os muçulmanos "vêem a subjugação da Palestina como uma concretização dessa hegemonia. Vêem a hegemonia manifestada diretamente na invasão do Afeganistão e na ocupação do Iraque", afirmou.

O primeiro-ministro também fustigou a atitude de muitos ocidentais que vinculam diretamente o Islã com a violência. "Pensam que (o líder terrorista) Osama bin Laden fala em nome da religião e dos fiéis. O Islã e os muçulmanos não estão vinculados a tudo isso tão negativo e retrógrado", destacou Badawi, e responsabilizou a "guerra ao terrorismo", lançada pelos Estados Unidos, por ampliar a brecha entre Oriente e Ocidente. Badawi afirmou perante os delegados de aproximadamente cem países participantes da conferência de Kuala Lumpur que "aqueles que deliberadamente matam pessoas não-combatentes e inocentes, aqueles que oprimem outros, aqueles que são corruptos e cobiçosos, aqueles que são chauvinistas, não podem falar em nome do Islã".

"Devemos reconhecer que no Ocidente princípios como liberdade e igualdade encontram expressões concretas no império da lei, nas responsabilidades das autoridades públicas, na aceitação da discrepância política e no respeito à participação popular", afirmou. "Entretanto, esta não é a cara do Ocidente vista hoje por muitos muçulmanos", acrescentou. A reação contra as caricaturas foi mais comedida na Malásia, um país multiétnico que oficialmente pratica o "hadhari", um ramo moderado do Islã. Badawi goza de grande popularidade entre os muçulmanos, e graças a isso controla 90% das 217 cadeiras do parlamento.

Enquanto os jornais da Malásia informavam amplamente sobre distúrbios em vários países durante protestos contra a publicação das caricaturas, as mesquitas do país permaneciam em calma. Cinqüenta e três por cento dos 23 milhões de malaios professam a fé islâmica, 17% são budistas, 11% taoístas, 7% hindus, 7% cristãos e o restante é formado por sikhs. Entre os delegados na conferência de Kuala Lumpur destacou-se o ex-presidente iraniano Mohammad Khatami (1997-2995), que disse esperar que o mundo aprenda a lição dada pela controvérsia causada pelas caricaturas. "O mundo muçulmano reagiu a este assunto, e se esta política internacional continuar, nos veremos em meio a uma contínua violência", alertou.

Badawi expressou sua tristeza pela malícia das caricaturas, mas afirmando que na Malásia não haverá boicote de produtos dinamarqueses a título de represália, como registrado em vários países do Oriente Médio. O primeiro-ministro aproveitou a oportunidade para expressar ao embaixador da Dinamarca, Borge Petersen, que Kuala Lumpur deplorava a publicação dos desenhos. Copenhague havia pedido a colaboração da Malásia para tentar acalmar a ira dos muçulmanos. As caricaturas foram publicadas inicialmente em um jornal dinamarquês, e depois reproduzidas por outros órgãos de comunicação europeus. A Dinamarca não condenou os desenhos, argumentando que respeitava a liberdade de expressão.

O chanceler malaio, Datuk Seri Syed Hamid Albar, disse à margem da conferência que havia recebido um telefonema de seu colega dinamarquês, Per Stig Moller, pedindo seu apoio. Albar prometeu que a fúria desatada em todo o mundo por causa das caricaturas "não se estenderia à Malásia". Por sua vez, o pensador islâmico malaio Chandra Muzaffar disse que a tranqüilidade que reina na Malásia se deve ao fato de os muçulmanos desse país carecerem de medos e de sentimentos de insegurança.

"Ao contrário de outros países muçulmanos no olho do furacão, a Malásia está livre das conseqüências da hegemonia das grandes potências, como ocorre com Afeganistão e Iraque, por exemplo", disse Muzaffar, que preside o Movimento Internacional por um Mundo Justo, organização que promove as relações entre diferentes culturas. "A Malásia está relativamente livre das conseqüências negativas destas tendências hegemônicas", disse á IPS. "Os muçulmanos deste país não se sentem desiludidos nem temem que o Islã esteja ameaçado, como acontece em outros países, como Palestina, Afeganistão ou Iraque", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Baradan Kuppusamy

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