Colômbia: Governo e ELN continuarão diálogo em Cuba

Havana, 01/03/2006 – Um novo compasso de espera ficou aberto depois do encerramento da segunda fase do diálogo exploratório com vistas a um processo de paz entre os delegados do governo da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional (ELN), reunidos em Havana. A rodada de conversações, aberta no último dia 17, terminou "de maneira satisfatória" e com o acordo de continuarem em abril, segundo um comunicado conjunto divulgado segunda-feira por Luis Carlos Restrepo, comissário de Paz do presidente colombiano, o direitista Álvaro Uribe, e Antonio García, chefe militar do esquerdista ELN. "Ainda não podemos dizer que formalmente esteja em andamento um processo de conversações, estamos na fase exploratória e somente na medida em que avançar o projeto do processo e a formação da agenda poderemos passar para uma fase propriamente formal das conversações", explicou García. Por sua vez, Restrepo considerou "muito importante" poderem se ouvir mutuamente e se conhecer o ponto de vista de cada parte a fim de se preparar para uma terceira rodada com "documentos mais elaborados" e sustentáveis que "eventualmente nos permitam ir avançado rumo a acordos".

"É o natural destes processos, primeiro haver uma escuta mútua, para dar lugar a avanços e pode dizer sobre o que estamos de acordo e que caminho podemos abrir conjuntamente", destacou o comissário. Na sexta-feira, Restrepo e García romperam o silencia mantido até esse momento para anunciar que o governo de Uribe reconhece a qualidade de "membro representante" aos integrantes da delegação do ELN, de conformidade com a lei 782 de 2002, a fim de criar um clima de confiança "necessário para avançar".

Essa figura jurídica dá garantias de segurança dentro do território colombiano a García, Francisco Galán, comissário do ELN nos contatos de paz, e Ramiro Vargas, também membro do Comando Central dessa guerrilha, todos partícipes das conversações com Restrepo iniciadas em dezembro de 2005, também em Havana. As duas partes também acertaram criar um mecanismo alternativo e complementar à mesa do diálogo para discutir e dar soluções a problemas que surjam no curso das conversações, o que, para os analistas, permitiu "tirar do diálogo problemas conjunturais e concentrar-se no essencial".

As duas decisões contribuíram para dar "estabilidade à mesa", uma vez superados momentos críticos nos primeiros dias de reunião, sobre os quais Restrepo e García não quiseram dar detalhes. Vemos um evidente "ganho" no fato de conseguirmos abordar temas difíceis, estabilizar a mesa, consolidar uma rotina de trabalho, pôr em marcha procedimentos que enriqueçam o cenário de diálogo e que se vá ganhando uma confiança para o pertinente, "que é, precisamente, poder avançar neste processo", disse Restrepo.

García, por sua vez, disse que a primeira rodada foi "uma manifestação de vontade" do ELN e do governo em iniciar um processo de paz que permita buscar uma saída política para o conflito. "Nesta segunda fase avançamos no que pode ser a estabilização da mesa", disse García. O chefe guerrilheiro também insistiu em que o reconhecimento dos delegados do ELN como atores políticos do diálogo permitia mais fluidez à delegação para uma interlocução dessa organização com o país, os setores da sociedade e a comunidade internacional.

Também esclareceu que no imediato não pensa em viajar à Colômbia. "No momento, vou continuar em atividades próprias do processo de paz, conversando algumas coisas que interessam para estabilizar o processo", disse García, com fama de manter posições mais "duras" dentro de sua organização. O diálogo foi seguido de perto por diplomatas da Espanha, Suíça e Noruega, como países acompanhantes, e precedido de reuniões bilaterais de García com delegações estudantis, sindicais, camponesas e de outros setores da sociedade colombiana.

"Queremos uma saída política para o conflito e viemos aqui para sermos ouvidos", disse à IPS Ivan Fernando Aguilar, de 23 anos, estudante de engenharia industrial da Universidade Pontifícia Boliviariana da cidade de Bucaramanga, que viajou para o encontro em Havana junto com outros três universitários. Eles estão ligados ao processo através da Casa de Paz, iniciativa com base na cidade de Medellín, que facilitou intensas jornadas de consultas do ELN com setores sociais, e que serviu de ponto inicial de encontros entre Restrepo e Galán, porta-voz do ELN. Esse processo de consultas culminou na proposta de uma Mesa de Acompanhamento no exterior com garantidores internacionais.

O ELN, com cerca de 4.500 combatentes, é a segunda guerrilha esquerdista, depois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), ambas criadas em 1964, mas com origens diferentes. As Farc, de orientação comunista, tem forte componente camponês e suas forças provêm da guerra civil de meados dos anos 40. O pesquisador canadense James Brittain atribuía às Farc 46 mil homens, em 2004. Já o ELN se inspirou na revolução cubana e na Teologia da Libertação, da Igreja Católica latino-americana, e muitos de seus membros foram e são intelectuais.

No conflito colombiano também atuam esquadrões da morte estreitamente ligados ao narcotráfico, que desde o final dos anos 80 se apresentam como exércitos locais agrupados como Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), agora em processo de desmobilização de aproximadamente 10 mil efetivos, a metade de sua força, afirmam. A Organização das Nações Unidas considera que as AUC são responsáveis por 80% dos crimes e massacres cometidos na guerra colombiana. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *