Ambiente: Protocolo de Biossegurança vivo, mas limitado

Curitiba, 20/03/2006 – O Protocolo de Cartagena sobre Segurança da Biotecnologia "está vivo", celebraram os delegados presentes à terceira Reunião das Partes (MOP 3), apesar de alguns lamentos e críticas por mudanças no acordo final, alcançado na noite de sexta-feira. "Fizemos concessões importantes para acomodar preocupações legítimas", disse em seu discurso de encerramento a ministra de Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, lamentando que a proposta brasileira que serviu de base às negociações e teve "ampla aceitação" não tenha, entretanto, conseguido o consenso necessário e sofreu algumas alterações. A proposta se referia ao principal ponto em negociação, a regulamentação do artigo 18 do Protocolo de Cartagena do qual fazem parte 132 países. Os delegados reunidos durante a semana passada em Curitiba aprovaram que o rótulo "contém OVM" (organismos vivos modificados) acompanhe os carregamentos transnacionais destinados à alimentação humana ou animal e para processamento, quando existir identificação e separação de produtos transgênicos. Também admitiram a expressão "pode conter" para os casos em que os transgênicos não forem identificados na origem. A proposta brasileira admitia um período de transição de quatro anos para tornar o regime obrigatório. Mas os negociadores ampliaram esse prazo para seis anos e acrescentaram uma incerteza.

Dentro de quatro anos, na quinta reunião bianual das Partes (MOP 5), se avaliará como foi aplicada a rotulagem, para orientar uma decisão definitiva no encontro seguinte, em 2012. Além disso, por insistência do México, cujas posições retardaram o final da MOP 3, se fez constar na resolução que as regras aprovadas não se aplicariam ao transporte transfronteiriço entre países-partes, aqueles que adotaram o Protocolo e os "não-partes". Essa exceção que parece óbvia, já que nenhum país pode impor regras de uma convenção a outro que não tenha aderido à mesma, permitiu o consenso, mas obrigando a prolongar a reunião por quatro horas além do programado.

Para o México, representa "a possibilidade de manter uma série de acordos comerciais com outros países, os compromissos com Estados Unidos e Canadá", explicou à IPS Marco Antonio Meraz, chefe da delegação mexicana. "Não entorpecer" esses acordos é o objetivo da reserva reclamada, acrescentou. Um tratado assinado pelo México com os Estados Unidos e o Canadá, em outubro de 2004, determinou que se consideraria "não-transgênica" uma importação com até 5% de OVM, e que uma presença "não-intencional" em um carregamento não obrigaria a colocação de rótulos. Os Estados Unidos, maior produtor de transgênicos do mundo, não faz parte do Protocolo de Cartagena.

Como país megadiverso (de grande diversidade biológica), o México sempre apoiou o Protocolo de Cartagena, e não se opõe à expressão "contém OVM", como foi acusado, o que faz é defender uma informação mais detalhada sobre os transgênicos, se defendeu Meraz. "Há dentro do Protocolo outros instrumentos que podem nos ajudar a construir uma história sobre o que é plantado, onde e em que ciclo", como o Centro de Intercâmbio de Informações sobre Segurança da Biotecnologia (BCH, sigla em inglês), que pode reunir tantos dados qualificados que tornariam "irrelevante" a discussão sobre o "contém" ou "pode conter", argumentou Meraz.

A exigência mexicana contribuiu para o resultado "muito tímido" da MOP 3, que não aponta para "um sistema seguro de identificação para o comércio global de transgênicos", ignorando os riscos, avaliou a organização internacional Greenpeace. Não existem estudos concludentes sobre a inocuidade dos transgênicos para o meio ambiente e a saúde humana. O Protocolo, em vigor desde setembro de 2003, está destinado a proteger a diversidade biológica dos riscos potenciais dos organismos vivos modificados pela moderna biotecnologia. "Uma vez mais" a pressão de grandes empresas de biotecnologia, o agronegócio e países exportadores de transgênicos impuseram um "escasso avanço" em uma conferência ambiental da Organização das Nações Unidas, afirmou a organização ambientalista.

Nos corredores da conferência se comentava que o "efeito tequila" (humorística referência à bebida nacional do México) fomentado pelos Estados Unidos obstruiu a reunião, exigindo árduas negociações e limitando o resultado final. A reserva mexicana não anula os avanços do Protocolo, mas "cria uma brecha" para futuros questionamentos, com queixas perante a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra países que se negarem a importar produtos transgênicos sem as informações requeridas no Protocolo, e que poderiam ser acusados de "discriminação" comercial, disse à IPS Bráulio Dias, diretor de Conservação de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente do Brasil.

Esta é uma possibilidade que pode não ser muito efetiva, já que no sistema multilateral prevalecem as resoluções mais recentes, e as desta reunião do Protocolo de Cartagena favoreceriam o país que cumpre as regras de biossegurança. "As disputas não serão evitadas, mas serão feitas em um nível superior, a partir de agora", afirmou Dias. Os grandes mercados importadores de soja, como China e União Européia, adotaram o Protocolo, o que pode neutralizar a pressão dos grandes exportadores que não aderiram a ele, Argentina, Canadá e Estados Unidos, avaliou o representante brasileiro.

O fato de somente o Brasil, um dos grandes exportadores agrícolas, integrar o Protocolo de Cartagena é um fator negativo para o agronegócio nacional. Os custos adicionais para identificar e separar transgênicos aumentariam seus preços, deixando-o em desvantagem para competir com os demais exportadores. É melhor um acordo do que a paralisação do Protocolo, avaliou Lim Li Ching, especialista em biossegurança da Rede do Terceiro Mundo. O artigo 24 já estabelecia a possibilidade de acordos bilaterais entre partes e não-partes para os movimentos transfronteiriços, mas de forma "compatível com o objetivo do presente Protocolo", afirmou.

A alternativa era não aprovar regras para o transporte internacional de transgênicos, que são chaves para "dar vida" ao Protocolo, ao interferir no comércio e criar condições para o avanço da rotulagem nacional de produtos geneticamente modificados, observaram numerosos delegados. A proposta brasileira foi decisiva para o resultado da MOP 3, reconheceram todos. O Brasil deixou de fazer o papel de "vilão" da reunião anterior, no ano passado, em Montreal, quando defendia a rotulagem "pode conter" e acabou isolado com a Nova Zelândia por evitar o consenso.

Mas sua nova posição a favor do "contém OVM" com prazo de quatro anos para adaptação foi definida apenas na segunda-feira passada, primeiro dia da conferência, e formalizada perante a MOP 3 no dia seguinte, retardando as negociações. Desta vez, México e Paraguai foram os obstáculos ao consenso até o final da reunião, deixando no ar a dúvida sobre o motivo de não terem apresentado antes suas objeções, inclusive em Montreal. As negociações foram difíceis, "sob forte carga emocional". O Brasil deixou de ser o "mau" com sua proposta, mas suportou resistências de "alguns países latino-americanos", disse à IPS Antonio Patriota, diplomata-chefe dos negociadores brasileiros.

As objeções iniciais, baseadas na falta de condições técnicas e financeiras para implementar o sistema de identificação de OVM em quatro anos, foram superadas com resoluções que determinam à Secretaria Executiva do Protocolo que coloque em andamento um plano de assistência técnica e amplie o financiamento do sistema de biossegurança para os países mais pobres, recordou Patriota. Depois, o México expôs o problema de suas importações de milho transgênico desde os Estados Unidos e de sua necessidade de cumprir o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, que foi atendida com a ressalva sobre comércio entre partes e não-partes, explicou o diplomata brasileiro, que considerou irrelevante a frase adicionada. (IPS/Envolverde)

* Com a colaboração de Roberto Villar Belmonte (Curitiba).

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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