Bonn, 31/03/2006 – Representantes de governos, da sociedade civil, de organismos internacionais e especialistas de todo o mundo insistem na urgência de um compromisso político para reduzir o impacto dos desastres naturais através de mecanismos confiáveis de alerta. A Terceira Conferência Internacional sobre Alertas, realizada em Bonn entre segunda-feira e quarta-feira, com patrocínio da Organização das Nações Unidas e iniciativa do governo alemão, concentrou-se na análise do tsunami que se formou no oceano Índico em dezembro de 2004.
O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Jan Egeland, disse que muitas mortes poderiam ter sido evitadas se existisse um sistema de alerta. A implementação do sistema hoje em debate tem custo entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões, enquanto a reconstrução das áreas afetadas pelo maremoto é estimada em US$ 12 bilhões, afirmou Egeland. Desenvolver redes regionais que permitam detectar mais rapidamente e com maior precisão os terremotos é uma necessidade urgente, disse à IPS Patricio A. Bernal, secretário-executivo da Comissão Oceanográfica Intergovernamental e diretor-geral-adjunto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). É essencial contar com uma rede em tempo real de estações ao nível do mar que detectem tsunamis, acrescentou.
Participantes de 132 países insistiram em sua declaração final na necessidade de "centrar o compromisso dos políticos na ampliação do diálogo sobre o alerta e em fechar as brechas já identificadas". A declaração incentiva o fortalecimento do Programa Internacional de Alerta e de sua Plataforma para a Promoção do Alerta, com parte da reformada Estratégia Internacional da ONU para a Redução de Desastres.
Os participantes reiteraram que sistemas efetivos de alerta devem integrar as estratégias de redução de riscos de desastres nos contextos de desenvolvimento nacionais e gerar a cooperação entre vários atores. Enfatizaram o papel das comunidades locais, no aumento da cooperação regional e na capacitação, educação e aumento da consciência sobre o assunto. Sob o lema "Do conceito à ação", a conferência – a terceira depois das realizadas em 1998 e 2003 – aprovou um "compêndio" de mais de cem projetos de alerta que supõem custo de aproximadamente US$ 200 milhões.
Um dos projetos-chave prevê uma rede de análise de alertas com uma dependência no Irã, por sua propensão a terremotos, inundações e secas. O objetivo é fornecer aos responsáveis da administração de desastres um acesso rápido e confiável à informação sobre os riscos. Outro projeto diz respeito à cidade boliviana de La Paz, que se desenvolveu junto ao estreito vale do rio de mesmo nome. Mais de 200 mil pessoas estão em situação vulnerável diante de inundações e deslizamentos. O principal objetivo do projeto é desenvolver e implementar um sistema automático de alerta que permitirá às pessoas receber avisos de perigo iminente a tempo de adotar medidas.
As pragas de gafanhoto são reconhecidas como a maior ameaça que sofrem há milhares de anos os agricultores africanos. Na Internet há informação meteorológica disponível para ajudar a controlar e prever os focos de gafanhotos, mas esta informação e estas ferramentas não são usadas amplamente em nível nacional. O objetivo do projeto é desenvolver ferramentas mais efetivas e eficientes e gerar mais informação confiável para que os países controlem a migração desta praga, bem como reforçar a capacidade dos governos nacionais para controlar as operações. Espera-se que Mauritânia e Senegal se beneficiem deste projeto.
Anualmente, uma média de 20 ciclones tropicais entra na área de prognóstico sob responsabilidade das Filipinas, e uma média de nove efetivamente atravessa o país. Mas até o momento não existe um sistema de alerta baseado na última tecnologia disponível nos países industrializados. O objetivo mais importante deste projeto é reduzir a 20% o número de mortes associadas aos tufões que tocam a terra nas Filipinas, através da implementação de um sistema avançado de alerta. Isto se conseguirá, segundo as medidas adotadas na conferência de Bonn, graças à transferência de tecnologia, capacitação dos responsáveis políticos e encarregados das medidas de emergência, ativistas e programas de educação para a população.
Ao comentar as idéias do projeto, a organização não-governamental Deutsche Welthungerhilfe (Ação Agrícola Alemã) disse esta semana que "os sistemas de alerta só podem ser efetivos se as potenciais vítimas de desastres naturais, furacões, deslizamentos de terra ou terremotos tomarem medidas preventivas utilizando métodos simples". Também afirmou que "a pobreza, o conhecimento inadequado e a falta de organização e infra-estrutura são elementos freqüentemente ignorados quando se criam os programas nacionais de prevenção de desastres".
Durante anos esta ong trabalha intensamente com organizações de países em desenvolvimento na prevenção de desastres e crises. Desenvolveu pela primeira vez na Nicarágua, em 1998, um amplo sistema de alerta quando essa região sofreu a passagem do furacão Mitch. A experiência obtida nessa oportunidade agora será usada em outros países em perigo e adaptada às condições locais. (IPS/Envolverde)

