Desenvolvimento: Um novo imposto em favor dos países pobres

Paris, 06/03/2006 – A decisão de 13 países de cobrar uma taxa sobre as passagens aéreas internacionais foi aplaudida como um primeiro passo para uma política internacional para financiar a cooperação ao desenvolvimento do Sul. A medida foi anunciada na conferência sobre Financiamento Inovador para o Desenvolvimento, realizada em Paris entre 28 de fevereiro e 1º deste mês e organizada pelo governo francês. Os países que adotaram o novo tributo são: Brasil, Grã-Bretanha, Chile, República do Congo, Costa do Marfim, Chipre, França, Jordânia, Luxemburgo, Madagascar, Mauricio, Nicarágua e Noruega. Em alguns destes países, como Brasil, Chile e Grã-Bretanha, já existe alguma forma de imposto sobre as passagens aéreas. Outros anunciaram que iniciarão a cobrança este ano. Na França entrará em vigor dia 1º de julho. A Grã-Bretanha arrecada US$ 1,8 bilhão ao ano a título de impostos sobre vôos comerciais. Até agora, esse dinheiro era canalizado para o orçamento nacional, mas a partir de agora as autoridades destinarão uma porcentagem para programas internacionais de saúde.

O valor do imposto varia. A França estabelecerá uma tarifa entre um e 40 euros por passagem, dependendo do destino. Deste modo espera-se arrecadar cerca de 170 milhões de euros (US$ 200 milhões) anualmente. O Brasil cobra cerca de dois dólares sobre aproximadamente seis milhões de passagens aéreas internacionais por ano. "Este é o primeiro passo para uma política fiscal internacional concentrada no financiamento do desenvolvimento", disse à IPS o chanceler brasileiro, Celso Amorim. "Já estamos discutindo novos impostos sobre outras transações internacionais, como o comércio de armas e as operações financeiras especulativas", acrescentou.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, que participou da conferência em Paris, disse que foram discutidas "medidas concretas" para proporcionar programas de cooperação e desenvolvimento internacionais, especialmente os destinados a cumprir os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Estes foram aprovados por chefes de Estado e de governo na Cúpula do Milênio, realizada na sede da ONU em Nova York, em 2000, para abordar várias das principais barreiras ao desenvolvimento.

Entre essas metas figuram reduzir, até 2015, e em relação a 1990, pela metade a proporção de pessoas que vivem na indigência e sofrem com a fome, bem como conseguir educação primária universal, promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos. Os líderes mundiais também se comprometeram a combater a propagação da aids, malária e outras doenças, assegurar a sustentabilidade ambiental e criar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul.

Annan aplaudiu a idéia de criar um imposto de solidariedade sobre as passagens aéreas para financiar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. "Semelhantes iniciativas têm muitas virtudes: são práticas, estão voltadas aos que podem enfrentá-las economicamente, podem ser implementadas rapidamente e são flexíveis para que, com o tempo, mais países possam aplicá-las", afirmou. O financiamento para o desenvolvimento é uma área em que se precisa de coragem política. Não devemos deixar idéias de lado somente por medo da controvérsia", ressaltou o secretário-geral da ONU.

O governo francês, que apresentou a proposta de um imposto especial sobre vôos comerciais, disse que sua aplicação nos 13 países pode gerar US$ 400 milhões por ano. A Comissão Européia, ramo executivo da União Européia, calculou que se o imposto for implementado em todo o mundo, especialmente nos países industrializados, pode-se chegar a arrecadar até US$ 10 bilhões ao ano. Algumas nações, incluindo Alemanha, Bélgica, Índia e China, disseram que examinarão a aplicação do imposto. Outros, como Estados Unidos e Austrália, o ignoraram.

"A idéia de um financiamento inovador para o desenvolvimento agora consta da agenda dos principais fóruns internacionais, e seu princípio obteve um amplo apoio de parte da comunidade internacional", disse à IPS Susan George, presidente do Conselho de Planejamento do Instituto Transnacional, com sede em Amsterdã e uma das principais promotoras dos pequenos impostos sobre transações especulativas.

Segundo cálculos apresentados na conferência sobre financiamento para o desenvolvimento realizada na cidade mexicana de Monterrey, em 2002, a ajuda externa para o desenvolvimento terá que duplicar os atuais US$ 60 bilhões anuais se quiser cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015. Representantes de mais de 90 países e organizações não-governamentais decidiram criar um Grupo Líder sobre Impostos Solidários, para examinar novas propostas de financiamento inovador para o desenvolvimento.

O grupo analisará a possibilidade de taxar as transações financeiras especulativas e a exportação de armas. Em uma instância paralela, 40 países (entre eles Brasil, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Noruega, México, África do Sul, Espanha e Chile) anunciaram que encabeçarão negociações para "finalizar as modalidades de implementação de uma Instalação Internacional de Compra de Medicamentos", novo mecanismo internacional na luta contra aids, tuberculose e malária. Outras iniciativas para financiar o desenvolvimento, tais como o Serviço Financeiro Internacional (IFF), proposta pelo governo britânico na cúpula do Grupo dos Oito, em julho passado, também tiveram apoio da conferência.

No contexto dessa proposta, o dinheiro seria arrecadado através de bônus para financiar o desenvolvimento imediato, e devolvido através de uma futura destinação de fundos para assistência. A IFF segue o modelo do também britânico Serviço Financeiro Internacional para a Imunização, que arrecadou dinheiro para realizar campanhas de vacinação. O ministro da Fazenda da Grã-Bretanha, Gordon Brown, disse na conferência de Paris que "2006 deveria ser o ano em que o mundo crie uma estratégia de longo prazo para o progresso dos países em desenvolvimento". (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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