Washington, 13/03/2006 – Enquanto desmorona a posição do presidente George W. Bush nas pesquisas de opinião, mais do que nunca fica difícil para o Partido Republicano manter a unidade em assuntos-chave como política externa, imigração e liberdades civis. Desde que o Congresso reiniciou suas sessões, em fevereiro, ressurgiram as diferenças dentro do partido, muito bem silenciadas por uma campanha republicana para destacar Bush e sua imagem de líder forte e decisivo depois dos atentados de setembro de 2001. Algumas dessas diferenças se referem à segurança dos portos e surgem entre os republicanos de Wall Street (como se denomina os defensores das altas finanças) e os de Mains Street (os que apóiam as pequenas empresas). A iminência das eleições para o Congresso contribui com um período de crescente incoerência do partido. O opositor Partido Democrata recruta uma quantidade importante de candidatos viáveis para disputar uma cadeira no Legislativo.
Enquanto isso, figuras republicanas enfrentam a encruzilhada de permanecerem vinculadas ao barco de Bush, que parece afundar, ou se afastar para reafirmar perante os eleitores, cada vez mais pessimistas, que eles também têm sérias reservas sobre as águas pelas quais o presidente navega. Ainda se pode considerar que um domínio democrata de alguma das casas do Congresso – e mais ainda das duas – está longe. Mas a perspectiva é levada cada vez mais a sério por analistas políticos de Washington. Essa possibilidade se vislumbra nas pesquisas que mostram uma inesperada erosão do apoio a Bush entre os republicanos mais firmes e os independentes. Esta queda se deve, principalmente, à crescente percepção de que o presidente é incompetente.
"A competência não é um tema partidário", escreveu Alan Abramowitz, cientista político da Universidade de Emory, de Atlanta, no jornal The Washington Post. "Existe uma crescente preocupação entre os republicanos diante da possibilidade de perderem o controle das duas casas do Congresso se as próximas eleições se converterem em um referendo sobre um presidente que tem aprovação em torno de 30%, ou menos", acrescentou. Do mesmo modo que os democratas, que também sofrem sérios conflitos internos, por muito tempo os republicanos estiveram divididos em facções ideológicas que representavam diferentes interesses.
Os republicanos de Wall Street, que representam os interesses de grandes multinacionais – como o livre comércio -, freqüentemente se chocam com os republicanos de Main Street, que se inclinam por uma agenda mais populista e nacionalista. De maneira semelhante, a direita cristã, que nos últimos anos se tornou o setor mais decisivo do eleitorado republicano, enfrente "moderados" e "libertários" do partido, que são seculares e atrapalham as tentativas de legislar ou impor de outro modo uma visão religiosa da moral a toda a nação.
A extraordinária popularidade de Bush depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 – e sua capacidade de traduzi-la em vitórias legislativas e eleitorais – geralmente manteve satisfeitas todas as facções principais do Partido Republicano. Alguns, como os de Wall Street, se inquietaram pelo impacto de sua política exterior unilateral, quando está em vigor um sistema multilateral do qual as corporações multinacionais obtiveram lucros substanciais. Também se preocupam com o impacto das enormes reduções de impostos sobre o déficit federal.
Após a vitoriosa campanha de 2004 pela reeleição, a unidade começou a se desfazer, devido à crescente impressão de que, apesar das reiteradas garantias do governo, a guerra do Iraque absolutamente não vai bem e que Bush não tem um "plano de fuga" viável". Na medida em que essa impressão criou raízes, a opinião sobre Bush continuou caindo, atingindo seu índice mais baixo depois que o furacão Katrina devastou Nova Orleans. O desastre deixou evidente um grau de incompetência e falta de preparo por parte do governo que poucos imaginavam.
Assim, afloraram as antigas divisões ideológicas entre os republicanos. Primeiro, pelos chamados de Bush para se refazer Nova Orleans através de uma espécie de Plano Marshall (nome dado ao projeto de reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial – 1939-1945). Partidários da redução ao mínimo do gasto público e dos impostos, que haviam mantido fidelidade a Bush apesar do constante crescimento do hoje enorme déficit fiscal, acusaram o presidente de "desperdício".
Esta ala do Partido Republicano questionou Bush do mesmo modo que os conservadores dos anos 30 fustigaram os mecanismos com que o presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), do Partido Democrata, tirou o país da Grande Depressão. Desde então, as políticas econômicas de Bush se converteram em uma importante fonte de conflito dentro do partido, especialmente desde a publicação, no mês passado, de um livro do conhecido economista republicano Bruce Bartlett. A obra, uma crítica virulenta e muito vendida, tem o título "Impostor: como George W. Bush levou os Estados Unidos à bancarrota e traiu o legado de Reagan".
Um mês depois, uma segunda brecha – desta vez com a direita cristã – se abriu com a indicação da conselheira da Casa Branca Harriet Miers para a Suprema Corte de Justiça. A direita cristã considerou que ela não oferecia garantias de seguir a pregação contrária ao aborto voluntário, entre outros princípios, no máximo tribunal norte-americano. Por tanto, suas principais figuras atacaram Bush por tentar colocar no cargo uma "cupincha" com duvidosas credenciais. Finalmente, o presidente teve de retirar a indicação, o que o deixou mal visto com a ala moderada do Partido Republicano. Nos últimos dois meses, as divisões internas se tornaram mais evidentes do que nunca.
O crescente pessimismo sobre a guerra do Iraque levou cada vez mais os conservadores influente a questionarem publicamente a campanha de Bush por "transformar" e "democratizar" o Oriente Médio, particularmente depois das vitórias islâmicas iraquianas, egípcias e palestinas nas urnas. Entre essas vozes críticas elevou-se, no mês passado, a do presidente do Comitê de Relações Internacionais da Câmara de Representantes, Henry Hyde. Os "realistas" republicanos, como o ex-conselheiro de Segurança Nacional, Brent Scowcroft, e os "paleo-conservadores", como Patrick Buchanan, se manifestaram por muito tempo contra a guerra do Iraque e os esforços do governo para "democratizar" o mundo árabe.
Mas o ex-neoconservador, Francis Fukuyama, e o fundador da revista National Review, William F. Buckley, fizeram eco às críticas de Hyde. Segundo estas personalidades republicanas, as ambições democratizantes do governo não são realistas. Ao contrário, são perigosas. Assim, abriu-se uma corrente de defecções que oferece uma fachada política para outros republicanos descontentes faltando poucos meses para as eleições de novembro. Ainda faltava abrir uma brecha ainda mais espetacular e profunda entre os republicanos de Mains Street e os de Wall Street.
Trata-se da controvérsia sobre o controle pela empresa Dubai Ports World, dos Emirados Árabes Unidos, dos seis principais portos norte-americanos e a ameaça de Bush de vetar qualquer lei que impedisse a concretização desse acordo comercial com essa companhia e com outra da Grã-Bretanha. Os de Main Street acreditam que a operação ameaça a segurança nacional. Os de Wall Street alegam que abortá-la colocaria em perigo fontes críticas de investimento estrangeiro nos Estados Unidos e enfraqueceria os regimes internacionais de comércio e investimentos. Inclusive, os neoconservadores, que historicamente apoiaram o livre comércio, mostraram profundas divisões pelo caso da Dubai Ports World, o que, segundo as últimas pesquisas, prejudicou seriamente a imagem de Bush.
Uma cisão semelhante se registra a respeito da imigração, que alguns analistas acreditam que chegará ao ponto alto da agenda política na campanha rumo às eleições de novembro. Enquanto as alas populista e paleo-conservadora do Partido Republicano favorecem uma legislação dura voltada a reafirmar a segurança das fronteiras e castigar os imigrantes ilegais, incluindo milhões que vivem nos Estados Unidos há muitos anos, a ala empresarial, apoiada por Bush, exigiu reiteradamente um programa liberal de "trabalhador convidado". Como acontece em relação aos portos, a questão recrudesce a divisão entre os neoconservadores (tradicionalmente partidários de medidas liberais de imigração) e a direita cristã. (IPS/Envolverde)

