Karachi, 30/03/2006 – Ao concluir a terceira e última fase do sexto Fórum Social Mundial, na cidade de Karachi, no Paquistão, os participantes se perguntavam que impacto terá a conferência na ditadura militar deste país. "Toda a estrutura paquistanesa está alimentando os militares. O FSM é apenas uma gota no oceano e isto não afetará o regime de maneira nenhuma", disse Tarek Fatah, apresentador de "A crônica muçulmana", um programa semanal da televisão canadense. "Mas durante o Fórum, neste quilômetro quadrado, podia-se notar que todos os mitos de hostilidade obstinada entre Índia e Paquistão, entre outras etnias e entre nossas províncias, eram tapeação", concluiu Fatah.
Para outros participantes, ao sediar o FSM, o regime ganhou legitimidade. "Este Fórum ajudará a consolidar a imagem do Paquistão. Mas se alguém pensa que afetará o regime de alguma maneira está equivocado", disse um correspondente do jornal The News. O presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, que assumiu o poder em outubro de 1999 após um golpe militar sem derramamento de sangue e aplaudido por setores da elite, prometeu realizar eleições livres e limpas no próximo ano. O FSM representou uma oportunidade única para que ativistas e pensadores se reunissem e difundissem pontos de vista sobre temas sensíveis, com democracia, conflitos internos e a paz regional.
Fatah acredita que a paz entre Índia e Paquistão é necessária para uma desmilitarização, mas acrescentou que isto levaria a uma situação na qual "o exército paquistanês não teria nenhum papel a desempenhar, nenhuma razão de ser". O Paquistão, observou, "não é sério em relação ao processo de paz, e o lado indiano tem a obsessão de controlar a Caxemira". Syed Jafar Ahmed, professor da Universidade de Carachi, disse à IPS, antes do FSM, que só o fato de o Paquistão "continuar governado por um general uniformizado mostra que não possui um sistema político estável, embora o regime de Musharraf, estranhamente, é forte e não enfrenta nenhuma ameaça séria à sua sobrevivência".
Musharraf – disse Ahmed – goza do pleno apoio dos Estados Unidos porque sua cooperação é considerada vital para Washington em sua "guerra contra o terror" e política em relação ao Afeganistão. Mas o acadêmico acrescentou que a cooperação acontece no contexto de uma "difundida política terrorista dentro do Paquistão". Porém, os pontos de vista mais ousados e que chamam à reflexão procederam de Ayesha Siddiqa Agha, do Centro Internacional Woodrow Wilson, em Washington, autora da ainda não publicada investigação "Military Inc.: the politics of Military?s Economy in Pakistan" (Exército Inc.: a política da economia militar no Paquistão) que lhe custou seis anos de trabalho.
"Não é um livro sobre o Paquistão; poderia ser sobre qualquer exército. Usei o Paquistão como caso de estudo para explicar determinado tipo de capital militar. É uma crítica a certo comportamento, não à instituição em si", disse Agha à IPS. É provável que o título do livro e seu conteúdo causem arrepios nos uniformizados que governam o país. A investigação se refere à natureza depredadora do exército, a instituição mais poderosa do Paquistão, que governou o país durante a maior parte de sua vida independente, iniciada em 1947. "Já contrariei muitos enquanto fazia a pesquisa", admitiu a autora.
"Naturalmente, existe um interesse pessoal em compreender a relação entre o exército e a sociedade civil, que por muito tempo foi refém da elite. Sou paquistanesa e não estou contra o Estado. Simplesmente sou como milhões que tentam achar um espaço melhor para si mesmos, talvez mais ativamente", explicou Agha. As perguntas que fez no FSM foram explosivas: "Por que nossa sociedade civil é inerentemente elitista? Por que existe uma desconexão entre as quatro unidades federativas e por que três províncias (a Província da Fronteira Noroeste, Sindh e Balochistão) desconfiam de uma (Punjab)?". Punjab domina o país e, o que é mais importante, o poderoso exército.
Enquanto fazia suas críticas, Agha também sugeriu propostas com a esperança de que "algum dia alguém possa iniciar um debate sobre como fortalecer o espaço político e investir tempo na construção da estrutura política". A autora vê de modo circunspecto a hegemonia do exército do Paquistão, "um importante ator político, na posição de condutor, especialmente depois de abril de 2004, quando o Conselho de Segurança Nacional foi criado e o exército obteve formalmente carta branca para ter ingerência em sua elaboração de políticas".
"Tento olhar e compreender um capital militar específico que se encontra em todo o mundo, seja nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na África ou mesmo na Índia. É o adquirido e usado para gratificação pessoal do quadro de oficiais", afirmou. Este modelo – disse – depende da força ou fraqueza das instituições políticas de um Estado. No caso paquistanês, a instabilidade política ajudou os fortes (exército) a substituir os fracos, e a construção de instituições foi descuidada no processo, afirmou. "A penetração militar na economia depende da influência política sobre as forças armadas e da relação entre a política e o ativismo civil", acrescentou Agha.
"Nos casos de Turquia, Indonésia e Paquistão, para citar uns poucos, o exército é o ator dominante e o que explora os recursos do Estado", assegurou. "O exército se torna inerentemente depredador e também incentiva sua fraternidade (os uniformizados ativos e da reserva), bem como seus comparsas e sócios (parte da elite que ostenta o poder sócio-político), depredar e perpetuar seu poder", acrescentou a autora. Em semelhante cenário, o Paquistão não pode superar seu feudalismo. Duas forças – feudalismo e militarismo – se apóiam entre si na busca de ganhos de curto prazo, por isso a democracia continua sendo um sonho, afirmou Agha.
"Infelizmente, inclusive os políticos se negaram a examinar o assunto. Portanto, não só o espaço político se tornou claustrofóbico, como também não há riqueza no pensamento político", concluiu Agha. E é precisamente por isso que realizar o FSM é valioso para o Paquistão, disse, por sua vez, Karamat Ali, membro do comitê organizador da conferência. "A participação popular em tais acontecimentos democráticos é a necessidade do momento. Isto dará força à nossa frágil sociedade civil", ressaltou. (IPS/Envolverde)

