Penang, Malásia, 27/03/2006 – Enquanto uma onda de excitação cerca o Fórum Social Mundial de Karachi, veteranos ativistas e especialistas políticos da Malásia expressaram reservas sobre o enfoque regional deste acontecimento, e outros até mesmo ignoram o encontro. Esta é a terceira etapa do FSM 2006, que começou sexta-feira e vai até a próxima quarta-feira nesta cidade paquistanesa. Os dois anteriores aconteceram em janeiro em Bamako (19 a 23) e Caracas (24 a 29), como contraponto ao Fórum Econômico Mundial que acontece no primeiro mês do ano na cidade suíça de Davos. O propósito do FSM é estabelecer um contexto para o intercâmbio e o debate do movimento mundial altermundista, que busca alternativas para a atual globalização. Este é o primeiro ano em que o Fórum aplica um enfoque policêntrico, em três continentes.
Mais de 15 mil pessoas, a maioria procedente de zonas de língua francesa da África, incluindo aldeias agrícolas, participaram de uma série de 600 reuniões em Bamako. E aproximadamente cem mil participaram do encontro na capital da Venezuela. Agora, cerca de 30 mil se reúnem em Karachi, pois este FSM inicialmente previsto para janeiro foi adiado por causa do terremoto que no dia 8 de outubro devastou a região da Caxemira, com saldo de aproximadamente 80 mil mortos. Para muitos ativistas em Penang, centro de operações de uma cadeia de organizações regionais, nacionais e locais da sociedade civil, o fórum de Karachi, centrado na Ásia, está a um mundo de distância. Uma pesquisa da IPS entre quatro importantes organizações não-governamentais desta cidade revelou que nenhuma enviaria delegados.
Alguns observadores acreditam que a falta de entusiasmo e inclusive de conhecimento sobre o encontro entre ativistas indica um problema maior que vai além de realizar ou não um fórum policêntrico. "É uma boa idéia regionalizar o fórum", disse um veterano ativista de Penang que acompanhou de perto a evolução do FSM e pediu para não ser identificado. As organizações regionais podem participar e se beneficiar da discussão de temas relevantes para elas. Mas, ao mesmo tempo, há a necessidade de aproveitar a energia gerada em fóruns anteriores e construir um genuíno movimento global pela justiça, afirmou. "Devemos ter certa estrutura e organização, como uma secretaria permanente, com representantes eleitos, com um desempenho que vá além de simples coordenador", acrescentou.
Esta estrutura poderia coordenar a ação, esclarecer a visão, formular passos específicos, superar as diferenças e chegar a um programa amplo, mesmo se as organizações não puderem entrar em acordo quanto a uma ideologia comum. Mas existe muita resistência a reestruturar o FSM. "Já se consegue bastante com a liberdade para fazer (uma atividade própria) e isto é compreensível, devido ao temor de que o fórum possa ser manipulado por certas organizações", disse o ativista. Mas a glorificação do individualismo pode enfraquecer o FSM. "Qual é o valor (do fórum em última instância)? Torna-se uma rede muito frouxa e seus acontecimentos anuais se convertem em uma algazarra, uma celebração da diversidade. Não me parece útil" a longo prazo, ressaltou.
Quando o FSM foi inaugurado, em 2001, na cidade de Porto Alegre (RS) suas atividades foram moldadas pelo comitê organizador que o criou, composto por uma rede de organizações brasileiras, e também recebeu estímulos de várias entidades não-governamentais progressistas da Europa. Para o terceiro Fórum na capital gaúcha, seu conselho internacional, que crescera até contar com representantes de mais de cem organizações, planejou a maioria das atividades. A edição 2004 aconteceu na cidade indiana de Mumbai, a quinta voltou a Porto Alegre, enquanto a do próximo ano acontecerá em Nairóbi, capital do Quênia.
"Tenho certos receios sobre a divisão (em três instâncias), mas suponho que seja parte do novo experimento da democracia descentralizada e participação real que me parece atraente no FSM", disse à IPS via e-mail o especialista político britânico John Hilley, que escreveu sobre o militarismo neoliberal, o FSM e a política do sudeste da Ásia. Hilley acredita que o Fórum e outros movimentos altermundistas mais amplos devem trabalhar com alinhamentos, coalizões e estratégias múltiplas. "Se a estrutura de poder dominante se constrói ao redor de uma hegemonia corporativo-político-militar que utiliza a globalização e todos seus recursos ideológicos, qualquer bloco alternativo deve pensar em um nível semelhante", afirmou.
Alguns alegam que o movimento global pela justiça deveria ser político e que não há nada de mau em apoiar figuras e causas que valham a pena. Hilley não vê contradições essenciais entre os princípios de fundação do FSM e sua capacidade para comprometer intelectuais ou dirigentes políticos de destaque da esquerda. Enquanto os intelectuais são parte integral do movimento, um alinhamento muito estreito com os dirigentes políticos poderia ser problemático. "Isso não é só porque muitos líderes políticos "de esquerda" tenham se vendido ou foram cooptados", disse Hilley. "Mas também pela diferença fundamental entre os espaços burocráticos que eles ocupam com partidos ou como governos e o tipo de política aberta, não hierárquica, que o FSM aparentemente tenta construir", acrescentou.
O enfoque policêntrico deste ano também pode dar lugar a um encontro sub-regional em Bangcoc, possivelmente em outubro. Para Sarojeni Rengam, diretora-executiva do escritório para Ásia-Pacífico da Rede de Ação contra Pesticidas, em Penang, isso cria um problema. "Para uma organização como a nossa, que cobre toda a região Ásia-Pacífico com nossos limitados recursos, em qual reunião devemos nos centrar, na de Karachi ou de Bangcoc?", perguntou. Em seus primeiros encontros, o FSM teve um tremendo impacto como desafio à economia neoliberal. "Reuniu grupos diversos, com diferentes ideologias, e os acontecimentos tiveram uma quantidade de energia criativa", disse à IPS. "Mas quando não há nada que unifique esses grupos, fica difícil mobilizar as pessoas de maneira constante e regular", disse Rengam.
"Deveria haver mais debates e algum tipo de chamado ou esclarecimentos que os participantes pudessem assinar depois de tais fóruns", acrescentou a ativista. É preciso algum tipo de estrutura. Rengam enfatizou que as organizações da sociedade civil local que lutam pelos direitos dos refugiados e despossuídos deveriam estar na frente de batalha do movimento global. "Eles devem ser os líderes e desempenhar um papel de destaque", assegurou. Por sua vez, Johan Saravanamuttu, especialista político de Penang que participou do Fórum de Mumbai, não sabia de Karachi até ser consultado pela IPS. "A divulgação é ruim. Não captei nem mesmo uma notícia sobre Karachi, ao contrário da Organização Mundial do Comércio em Hong Kong", disse, se referindo à sexta conferencia ministerial da OMC realizada em dezembro de 2005.
Reconhecendo os benefícios de um enfoque policêntrico, disse que "se houver muitas coisas ao mesmo tempo, perde-se o foco, e as pessoas perderão o sentido de que o FSM é uma reunião-cúpula de todos os movimentos sociais do mundo". Essa falta de enfoque arrisca a enfraquecer o conceito do movimento de justiça global que atua como "a outra superpotência" tentando contrapor-se à agenda neoliberal imperialista dos Estados Unidos, afirmou. (IPS/Envolverde)

