Educação: Chega de missionários do Estado

Nova Iguaçu, 28/03/2006 – Um sistema de ensino que honre realmente o direito universal á educação deve valorizar seus agentes mais diretos: professores e professoras. Mas esta é uma profissão em crise em muitos países, afirma o especialista argentino Gustavo Fischman, professor de doutorado de políticas educacionais da Universidade Estatal do Arizona (EUA). Fischman traçou um panorama realista da situação desses homens e mulheres cujo trabalho costuma ser considerado um sacerdócio, mas que está cada vez mais subvalorizado como profissão.

Nos Estados Unidos, de cada 10 pessoas que entram na carreira do magistério apenas quatro exercem a atividade de educadores cinco anos depois de formados. Os estudantes norte-americanos, em sua grande maioria, se dedicam a profissões ligadas aos negócios, às leis e à economia, disse o especialista, um dos convidados internacionais do Fórum Mundial de Educação, que terminou domingo em Nova Iguaçu. Sete em cada 10 professores universitários na América não têm estabilidade no emprego e trabalham por contrato, o que faz com que existam muitos "professores-taxi", que rodam por três ou quatro instituições ao mesmo tempo. Entre eles, quatro em cada 10 são estrangeiros.

Somente na América Latina, o salário de docente perdeu bastante poder aquisitivo nos últimos 25 anos. As classes médias, que sempre viram essa profissão como um trabalho interessante, não encontram mais atrativos nela devido aos salários baixíssimos, afirma Fischman. "É certo que a profissão, hoje em dia, aparece como caminho de subida social para outras classes porque os requisitos são menores. É mais fácil entrar em um curso de pedagogia do que em um de sociologia, por exemplo", acrescentou.

Entretanto, essa "facilidade" faz com que, cada vez mais, se formem professores sem preparação adequada para uma missão tão importante, e, pior ainda, sem condições financeiras ou estímulos para prosseguir buscando o aperfeiçoamento profissional. Segundo Fischman, houve uma redução nos investimentos na área de educação em todo o mundo, e isso se reflete, entre outros aspectos, na maior quantidade de estudantes para cada professor, o que prejudica a todos.

Em primeiro lugar, "seria importantíssimo se as crianças do ensino fundamental, entre os 4 e os 10 anos de idade, pudessem freqüentar salas de aula com média de 12 alunos. Isso teria capacidade para compensar qualquer outro problema e o aprendizado seria muito mais efetivo", explicou. Em segundo lugar os professores e as professoras. "É comum que estes, especialmente na escola secundária, recebem em uma semana em suas classes entre 200 e 250 alunos. Isso significa corrigir um volume enorme de trabalhos, o que os impede de ter mais tempo para uma atividade de atualização ou entretenimento, fundamentais para que se continue sendo um bom profissional", disse o especialista.

"Em minha opinião, praticamente todos os governos da América Latina e do mundo sempre cobriram a profissão de docente com um manto de vocação: são os missionários do Estado; são os que têm que dar amor, em lugar de dizerem: me parece bom que queiram os alunos, mas é preciso que saibam matemática, geografia, química, que saibam escrever e sejam pesquisadores, disse Fischman. "Hoje temos professores e professoras que não escrevem, que não se dedicam à leitura. Esse é um dado alarmante. Como alguém que deve ensinar a paixão pela leitura não lê?", perguntou o educador.

"Em qualquer profissão, queremos que os profissionais sejam amáveis, mas o mais importante é que saibam fazer muito bem o que devem fazer e que continuem treinando constantemente. Não importa se é um mecânico, um dentista ou um professor", afirmou. "Se alguém que vai ao dentista leu no jornal que existe um novo tratamento para as cáries por menos de um dólar, não vai querer que seu dentista saiba disso? Então, se estamos discutindo as diversas maneiras de aprender a ler e escrever, não vamos querer que os professores o saibam? Claro que sim", afirmou Fischman

O Fórum Mundial de Educação, que começou no dia 23 finalizou no domingo com uma declaração exortando os países a dedicarem 6% do produto interno bruto aos gastos com educação. Cerca de 30 mil pessoas de 25 países (entre educadores, estudantes e ativistas) tomaram parte do encontro criado em Porto Alegre como parte do Fórum Social Mundial. Os dois países com melhores sistemas educacionais, segundo os padrões internacionais, são Cuba e Finlândia, disse Fischman. "Como Cuba tem coisas que são difíceis de serem aplicadas em outros países, vamos analisar a situação do país europeu", propôs.

A Finlândia tem os professores mais bem pagos, não em termos absolutos, mas com relação ao poder aquisitivo, afirmou. Além disso, a condição do professor está muito valorizada, e os exames para ingresso na carreira são tão rigorosos quanto para qualquer outra atividade. Não existe a situação de que para estudar engenharia se deva saber mais matemática do que para seguir o magistério. O esforço e as dificuldades são os mesmos, disse. "Em segundo lugar, as condições de trabalho nas escolas são apropriadas. A quantidade média de alunos por professor é de 20 a 22. Os professores trabalham em equipe para avaliar os alunos e resolver todos os problemas", acrescentou.

O que podem fazer países como Brasil e Argentina para conseguir uma situação semelhante às da Finlândia e de Cuba? Na opinião de Fischman, muitas coisas, entre elas investir mais na formação do docente e ter escolas equipadas para favorecer e facilitar o trabalho dos professores. "Não vou tirar a responsabilidade profissional individual de ninguém. Agora, se os sistemas das escolas estão estruturados de maneira tal que isso não ocorra, não se pode culpar os professores", concluiu o especialista.

A avaliação do profissional do ensino também foi defendida com ênfase pelo representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Pierre Fonkoua, durante a conferência Estado e Sociedade na Construção de Políticas Públicas, que encerrou o Fórum Mundial de Educação. Em sua curta apresentação, o representante da Unesco criticou a crise de autoridade na educação e afirmou que a formação dos educadores deve ser reconhecida como um valor essencial em todas as sociedades. (IPS/Envolverde)

Eloyza Guardia

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