Iraque: Paz depois da ocupação?

Bagdá, 16/03/2006 – Os iraquianos receberam com incredulidade os rumores de uma possível retirada dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha a curto prazo, embora acreditem que, se isso acontecer algum dia, este país saberá alcançar a paz e a estabilidade sozinho. Os jornais The Sunday Telegraph, da Austrália, e Daily Mirror, de Londres, citaram na semana passada declarações de altos funcionários britânicos que revelavam a possibilidade de uma retirada das forças de ocupação até 2007. Washington e Londres advertiram que sua presença no Iraque "é o principal obstáculo para a paz" e que a única saída é ordenar a retirada dos 138 mil soldados estrangeiros, afirmaram os jornais. Nestas forças de ocupação também se encontram militares da Coréia do Sul, Dinamarca, El Salvador, Itália e Japão. De acordo com estas versões, a retirada seria progressiva e a primeira fase consistiria em suspender as patrulhas e fazer com que os soldados permaneçam em suas bases, a não ser em casos de emergência. Washington negou imediatamente a notícia e garantiu que suas forças permanecerão no Iraque até completarem sua tarefa. O próprio presidente George W. Bush confirmou que seus soldados continuarão combatendo contra "uma minoria "insurgente" no Iraque. Os terroristas apelam para a violência "para quebrar nossa resolução e nos obrigar a retroceder, mas não conseguirão", afirmou Bush na segunda-feira, diante de um fórum organizado pela neoconservadora Fundação pela Defesa das Democracias, de Washington.

Ali Al Khalidi, um comerciante de Bagdá, disse à IPS não acreditar nas versões sobre uma retirada. As forças de ocupação "se beneficiam diariamente do Iraque, pois roubam cada vez mais", afirmou. Outros disseram que os rumores poderiam indicar que a resistência está ganhando. Desde o início da ocupação, 9 de abril de 2003, existe no Iraque uma forte oposição às tropas estrangeiras. Cerca de 2.200 soldados norte americanos morreram e mais de 16.600 ficaram feridos em combates com a resistência, segundo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Ma?ad Ahmed, um iraquiano desempregado de 33 anos, disse que, depois da retirada a insurgência "assumirá o controle do Iraque e terá todo o direito de fazê-lo, porque gastou muito dinheiro e sangue para libertar o país". Por sua vez, o barbeiro Zaid Hadi disse que a retirada das forças de ocupação seria um sinal de vitória tanto da resistência quanto dos novos líderes políticos iraquianos. Mas Hadi confessou à IPS que não acredita nesses rumores, acrescentando que "se trata de outra de suas mentiras".

"Tínhamos respeito em confiança no governo dos Estados Unidos antes da ocupação, mas agora descobrimos que são uns mentirosos", afirmou Hadi, acusando Washington de arrastar o Iraque para a guerra civil. Muitos, como Dumiya, uma jovem de Bagdá, prevêem que a retirada das forças estrangeiras significará o desastre. "Temo que as tropas se retirarem haverá uma guerra civil no Iraque. Alguns xiitas odeiam os sunitas, e os sunitas aos xiitas. Estamos assustados com isso, pois a situação está se agravando", acrescentou. O governo britânico, entretanto, confirmou que vai retirar 10% de suas tropas no começo de maio, apesar das advertências dos Estados Unidos, que insistem em que qualquer retirada daria maior força aos "terroristas".

Ma?ad Ahmed afirmou que somente haverá uma retirada completa das forças de ocupação quando a população britânica e norte-americana expressar claramente seu descontentamento com seus governantes. Parte disto aconteceu com o anúncio de retirada parcial feito pelo primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, após uma forte queda de sua popularidade. Além disso, afirmou que não existe o risco de uma guerra civil e que os iraquianos não precisam de uma força internacional em seu território, já que "não desejam lutar uns contra os outros. Por exemplo, pouco depois de iniciada a ocupação estivemos sem governo por três ou quatro meses e nada aconteceu. Isto prova que os iraquianos querem viver em paz", disse.

Os principais meios de comunicação no Iraque apresentam a guerra civil como a conseqüência inevitável de uma retirada das forças estrangeiras. Ma?ad Ahmed, inclusive, disse à IPS que um bombardeio sobre a mesquita de Al Askariya, principal santuário xiita da cidade de Samarra e que foi alvo de um atentado no mês passado, não desataria uma guerra civil. "Creio que tudo ficará bem dentro de um mês. A principal causa da falta de segurança é a ocupação. Depois que Estados Unidos e Grã-Bretanha se retirarem do Iraque, a resistência assumirá o controle e, então, haverá segurança", afirmou. Este jovem iraquiano não é o único que responsabiliza as forças de ocupação pela insegurança no país.

"Prometeram manter a segurança, mas descobrimos que trabalham para provocar uma guerra civil, e o secretário de Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, deveria estar envergonhado por suas últimas declarações", afirmou Zaid Hadi. Rumsfeld afirmou que, se estourar uma guerra civil, os Estados Unidos não se envolverão e dependerá do exército local estabilizar o país. "Espero ver o dia em que Estados Unidos e Grã-Bretanha retirarão seus soldados. Será como um novo sol brilhando sobre o país, porque agora vivemos nas trevas, sob a ocupação", disse al Khalidi. (IPS/Envolverde)

Isam Rashid

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