Nova York, 27/03/2006 – Os mais de 600 protestos realizados esta semana em todo o território norte-americano, por ocasião do terceiro aniversário da invasão do Iraque, demonstraram que a rejeição à ocupação já é o sentimento dominante nos Estados Unidos, segundo ativistas. A guerra "carece de toda legitimidade", segundo os participantes nas manifestações. Unindo-se a manifestantes em outros países, ativistas norte-americanos foram às ruas entre os dias 15 e 22 deste mês para exigir do governo de George W. Bush a imediata retirada de suas tropas do Iraque. Em todos os Estados foram realizadas centenas de marchas, encontros, vigílias e ações de desobediência civil pacíficas. Também houve grandes manifestações em Londres e Roma, bem como em outras cidades européias.
"O mais importante desta semana é que as atividades aconteceram em todo o país. Isto reflete que o movimento pacifista realmente foi dominante", disse á IPS a ativista Hany Khalil, da organização Unidos pela Paz e Justiça. As manifestações nos Estados Unidos contaram com menos participantes do que nas realizadas pouco antes da invasão, em 20 de março de 2003, mas a ampla gama de atividades realizadas este ano "é, de longe, mais importante do que uma manifestação gigante", afirmou Phyllis Bennis, do Instituto para Estudos Políticos, com sede em Washington.
As atividades pacifistas realizadas em todo o país "foram um exemplo da atual oposição à guerra, que para o povo norte-americano, mais do que para o governo, e inclusive do que para o congresso, carece de legitimidade", disse Bennis ao participar de uma conferência. Por sua vez, Khalil disse à IPS que, apesar das poucas variações nas pesquisas, a tendência geral e as ações da semana passada indicam que a rejeição à guerra "é hoje a opinião majoritária". O ativista destacou que uma pesquisa divulgada pela rede de televisão CBS no dia 13 passado indicava que 59% dos consultados disseram apoiar uma retirada dos 140 mil soldados norte-americanos presentes no Iraque. Mas "ainda persiste o desafio de converter essa opinião em poder político", acrescentou.
Ao falar na terça-feira em um encontro organizado pelo Partido de Famílias Trabalhadoras, terceira força política do Estado de Nova York, o congressista José Serrano, do opositor Partido Democrata, afirmou que o maior problema que os Estados Unidos enfrentam é a "incapacidade, ou o medo, de falar contra a guerra". O governo Bush considera que opor-se à ocupação do Iraque é "antinorte-americano", mas "creio que é nosso dever", acrescentou. Na mesma ocasião, citando o ativista político e defensor dos direitos da comunidade negra Martin Luther King, que havia contestado a guerra do Vietnã (1964-1975) em uma manifestação nesta mesma cidade em abril de 1967, o veterano de guerra Geoffrey Millard afirmou. "Chega um momento em que calar é traição". E esse tempo "chegou agora para os Estados Unidos em relação ao Iraque", acrescentou.
Por sua vez, Entisar Mohammad Ariabi, trabalhadora de um hospital de Bagdá, contou que todos os dias vê " gente inocente morrer e ficar ferida" por causa do conflito bélico. Já que muitas ruas está bloqueadas pelas tropas dos Estados Unidos, "a maioria dos feridos chega morta aos hospitais. "Três anos desta ocupação e ainda não temos uma democracia. O que temos são bombas em hospitais, escolas, estradas e pontes e assassinatos de civis", acrescentou.
"A idéia de que os Estados Unidos construiriam uma real democracia no Iraque era absurda", disse à IPS Rahul Mahajan, professor da Universidade de Nova York e jornalista que cobriu o ataque norte-americano na cidade iraquiana de Faluja, em abril de 2004. "Mas o que eu menos esperava é que uma superpotência econômica e da mais alta tecnologia como os Estados Unidos fracassasse tão miseravelmente na reconstrução da infra-estrutura iraquiana. De fato, os iraquianos estão atualmente pior do que antes da guerra, em termos de infra-estrutura e acesso à água e à eletricidade", ressaltou.
Os ativistas também criticaram os centros de recrutamento militar. "Parem a máquina de guerra norte-americana. Desde o Bronx até as Filipinas, reclamamos o fim da guerra de Washington contra os pobres", gritavam centenas de jovens que se manifestaram diante do Centro de Recrutamento Militar desse bairro novaiorquino, criado na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). "Tenho mais coisas em comum com os pobres iraquianos do que com qualquer um no governo dos Estados Unidos, porque os iraquianos são oprimidos, como os moradores do Bronx e do Harlem durante anos", disse Jeanette Cáceres, da coalizão de organizações não-governamentais Anser.
"Dinheiro para trabalho e educação, não guerra e ocupação", diziam os cartazes exibidos no encontro da terça-feira em Nova York. Até agora, mais de US$ 300 bilhões foram destinados pelo Congresso ao financiamento de operações militares e à reconstrução do Iraque, mas um estudo feito pelo prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz e pela especialista em orçamentos da Universidade de Harvard Linda Blimes sugere que o custo real da guerra estaria entre um US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões de dólares. (IPS/Envolverde)

