Nova York, 20/03/2006 – Apenas por ir em busca da lenha necessária para a sobrevivência de suas famílias, milhões de refugiadas arriscam suas vidas todos os dias, alerta a não-governamental Comissão Feminina para Mulheres e Crianças Refugiadas. Obrigadas a abandonar o lar por causa de conflitos armados, perseguição e desastres humanitários, quase 35 milhões de pessoas vivem como refugiadas dentro das fronteiras de seus próprios países ou em outras nações. Mas para as mulheres refugiadas a vida é particularmente difícil e perigosa, segundo um relatório divulgado em Nova York, sede da comissão. "Todos os dias, milhões de mulheres e adolescentes refugiadas devem ir em busca de lenha para suas famílias em condições muito perigosas, e correm risco de apanhar, serem violentadas, seqüestradas e assassinadas. Não tem opção. É questão de sobrevivência", alertou a diretora da Women?s Commision, Carolyn Makinson. Supõe-se que os acampamentos para refugiados sejam lugares seguros, criados para proteger e ajudar as populações mais vulneráveis do mundo. Mas embora lhes dêem abrigo, água potável, cuidados médicos e alimentos, "muito raramente recebem combustível para cozinhar, e têm de consegui-lo por seus próprios meios, sem importar os riscos", diz o documento.
O combustível – o mais usado é a lenha – não é vital apenas para cozinhar, mas também para a calefação, construção e cuidados médicos. Além disso, é uma importante fonte de renda, pois pode ser vendido. Os perigos associados à obtenção de combustível entre os refugiados são conhecidos há muito tempo, mas deliberadamente desatendidos pela comunidade internacional e pelas organizações humanitárias que o consideram um "assunto de mulheres", critica o relatório. De fato, a responsabilidade de obter o combustível recai de forma desproporcional nas mulheres e adolescentes. Os riscos variam entre os diferentes acampamentos, dependendo da gravidade dos conflitos bélicos.
A região sudanesa de Darfur, onde se trava uma guerra civil desde 2003, é o lugar mais perigoso do mundo para as refugiadas. Nos arredores do acampamento de Abu Shouk, no norte de Darfur, mulheres e adolescentes vão buscar lenha todas as madrugadas. Saem pelo deserto em pequenos grupos, cada um em diferentes direções, esperando conseguir o suficiente para esse dia e voltar ao acampamento para preparar a primeira refeição antes do amanhecer. Mas as poucas árvores na região que forneciam lenha para os primeiros acampamentos instalados há dois anos já não o fazem mais. Encontrar uma só árvore requer caminhada de várias horas, por isso muitas mulheres preferem cavar o chão com as mãos em busca de restos de raízes.
Com freqüência acabam vítimas das milícias árabes Janjaweed, apoiadas pelo regime islâmico de Cartum, ou dos movimentos armados de indígenas negros que lutam contra o governo. Os dois grupos conhecem o costume das mulheres de sair de madrugada e "se aproveitam da falta de império da lei para cometer violações em massa", diz o relatório. "Os atacantes sabem que não serão pegos, mas pior ainda, as mulheres e adolescentes sabem muito bem o que lhes acontecerá se saírem em busca de lenha", mas não têm escolha, disse Makinson. A situação fica mais difícil a cada dia, "pois as ameaças persistem e as árvores ficam escassas, forçando as mulheres a caminharem maiores distâncias para conseguir madeira", acrescenta o informe.
Em outros cenários, como o dos cerca de 105 mil refugiados butaneses no leste do Nepal, os ataques sexuais contra mulheres e adolescentes nos arredores dos acampamentos são um pouco menos freqüentes. Entretanto, os guardas florestais nepaleses continuam sendo uma ameaça constante. Muitas mulheres foram violadas e assassinadas por eles, diz o relatório. Ali "a situação se torna mais problemática, pois a lei nepalesa proíbe os refugiados de participarem de qualquer atividade que gere renda", disse à IPS a presidente da organização de defesa das mulheres e da infância Himalayan Human Rights Monitors, Anjana Shakya. "As mulheres não têm autorização para saírem sozinhas em busca de lenha, e por isso não podem ir à polícia denunciar os crimes", acrescentou.
Apesar das diferenças nos riscos que correm as refugiadas nos diferentes cenários, trata-se de um problema mundial sobre o qual "a comunidade internacional tem de fazer alguma coisa", destacou Makinson. O representante permanente da Alemanha na Organização das Nações Unidas, Wolfgang Trautwein, disse que somente compreendendo a realidade diária dessas mulheres se poderá tomar medias para protegê-las de situações de violência em conflitos armados. "A busca por lenha e combustíveis alternativos é um aspecto importante que deve ser atendido com urgência", afirmou a diretora-executiva do Fundo de População das Nações Unidas, Thoraya Ahmed Obaid, ao comentar o informe da Women?s Commission. A organização propõe, entre outras coisas a distribuição de utensílios de cozinha que funcionem com luz solar e alimentos que necessitem menos tempo de preparação. (IPS/Envolverde)

