Paris, 01/03/2006 – Enquanto a gripe aviária se propagada rapidamente pela Europa, as autoridades sanitárias e agrícolas, os criadores de aves e o público ainda não têm certeza sobre quais medidas preventivas devem tomar. O governo da França, um dos países onde se detectou o vírus da gripe do frango, que causou a morte de 90 pessoas na Ásia, pediu à União Européia que autorize a vacinação das aves domésticas. Mas a maioria dos criadores não se mostra disposta a enfrentar a imunização. "Se vacino meus frangos contra a doença, não serei autorizado a exportá-los. Se não exporto, quebro. Portanto, não vacinarei", disse à IPS a criadora Catherine David, da província de Pirineus Orientais, na fronteira com a Espanha. Além das preocupações econômicas, a vacina causa outras, de caráter epidemiológico. "A vacina detém o desenvolvimento da doença, mas não impede que as aves sejam infectadas", explicou à IPS Lothar Wieler, diretor do Instituto de Microbiologia e Epizootias da Universidade Livre de Berlim. "Isso significa que as aves vacinadas não ficarão doentes e terão menor quantidade de vírus em comparação com as não vacinadas, mas essas aves poderão contagiar outras", acrescentou.
Ao mesmo tempo, os especialistas fizeram advertências sobre os remédios contra a infecção humana da gripe aviária, especialmente o mais conhecido, o Tamiflu. Este remédio deve ser administrado somente ao se detectar a enfermidade. "A administração de Tamiflu como preventivo é extremamente perigosa", disse à rede de televisão alemã ARD o diretor do Instituto de Microbiologia da Universidade de Halle-Wittenberg, Alexander Kekule. "O vírus poderia ficar resistente contra o remédio, que hoje é a nossa única arma contra a forma humana da gripe aviária. Se pusermos tudo a perder agora, precisaremos de muitos anos mais para desenvolver um novo medicamento", advertiu Kekule.
Até agora, a gripe do frango foi detectada em aves de sete países da UE (Alemanha, França, Hungria, Itália, Eslováquia, Eslovênia e Grécia) e em quatro nações vizinhas ao bloco (Bósnia-Herzegovina, Croácia, Suíça e Turquia). Os países mais afetados são Alemanha e França. Na maioria dos casos detectados, se tratou de gansos, cisnes e patos silvestres. Em sua atual manifestação, a doença foi registrada em 2003 no Vietnã, e, desde então, se espalhou na Ásia central e oriental, Rússia e, depois, África e Europa.
Na França, principal produtor europeu de aves, a enfermidade causou a morte de milhares de pavões em uma propriedade de Versailleux, na província de Ain, cerca de 500 quilômetros a sudeste de Paris. Uma semana antes, na mesma região, foi detectado um pato selvagem infectado. Segundo as autoridades sanitárias e agrícolas francesas, o vírus entrou na granja de Versailleux, que não tem criação ao ar livre, através de palha infectada. A agência governamental de vigilância alimentícia AFSSA confirmou nesta segunda-feira que o vírus H5N1 estava presente nos corpos de 15 cisnes encontrados mortos nessa província.
O governo estabeleceu cordões sanitários ao redor das áreas onde as aves foram encontradas mortas. As pessoas que podem ter tido contágio com as aves silvestres e domésticas afetadas pela enfermidade agora estão sob vigilância médica. O negócio avícola na França fatura cerca de US$ 6 bilhões ao ano. A queda na venda de carnes de ave na França caiu 30% depois que foram encontradas aves silvestres infectadas, há mais de 15 dias. Os importadores começaram a cancelar pedidos: o Japão, por exemplo, proibiu no dia 24 passado a entrada de carne de ave francesa no país.
Na Alemanha, as aves selvagens mortas infectadas com o vírus foram encontradas em uma ampla área perto da ilha de Rügen, proximidades da costa nordeste do mar Báltico, cerca de 250 quilômetros a sudeste de Berlim. A cepa H5N1 do vírus da gripe aviária foi identificada em mais de 125 aves silvestres mortas em cinco Estados alemães. O caso mais preocupante é o de um pato encontrado no lago Constance, perto das fronteiras com Suíça e França e cerca de mil quilômetros a sudeste de Berlim. O pato portava "a forma mais agressiva" do vírus, a chamada "variante asiática", transmissível a humanos. Até agora, 90 pessoas que estiveram em contato direto com as aves ou seus detritos morreram.
A acelerada propagação da doença, apesar das radicais medidas preventivas, levaram as autoridades a anunciarem que se aproxima uma longa guerra contra a gripe do frango. "As medidas que tomamos contra a enfermidade estão programadas para vários anos", disse à imprensa o primeiro-ministro da França, Dominique de Villepin. "Calculamos que as aves precisam de, pelo menos, meio século para desenvolver resistência ao vírus H5N1", disse Emil Reisinger, pesquisador de doenças transmissíveis e tropicais na Universidade de Rostock, na Alemanha. "Estamos apenas no começo deste ciclo", acrescentou. (IPS/Envolverde)

