Ambiente: Proliferam motos e riscos para a saúde

RIO DE JANEIRO, 24/04/2006 – Em 2005, o Brasil produziu 1,2 milhão de motos. Muitos as preferem por serem rápidas e leves, mas também ameaçam a qualidade do ar e provocam milhares de feridos e mortos a cada ano. A sustentada expansão da indústria brasileira de motocicletas, nos últimos 13 anos, contaminou o ambiente das grandes cidades e aumentou os acidentes de trânsito, que matam 30 mil pessoas ao ano e levam mais de cem mil aos hospitais. As motocicletas respondem por 19% dos custos econômicos destes trágicos acidentes, o dobro de sua participação no total de veículos motorizados, segundo o estatal Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Desde a década de 90, as motos se multiplicaram tanto em São Paulo, principal metrópole industrial do país, que também se converteram em sério problema ambiental. As 453 mil registradas em janeiro saltaram para 748 mil em dezembro de 2005, disse ao Terramérica Homero Carvalho, da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Em muitas cidades proliferam os motoboys, dedicados à entrega de documentos, alimentos perecíveis e pequenas encomendas, e os mototáxis, que oferecem serviço de transporte pago.

O problema não recebe a devida importância por parte das autoridades, disse Aldemir Martins de Freitas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas de São Paulo (Sindimoto), referindo-se aos 70 acidentes diários que ocorrem com esses veículos nessa cidade, onde morre um motoqueiro por dia. O próprio Freitas, com 33 anos, sofreu seis acidentes em dez anos, quebrando uma clavícula e a mão, além de ter o olho esquerdo e dentes afetados, e a perna direita esmagada pela roda de um ônibus. Agora, luta pela regularização dos 120 mil condutores de motos que, estima, trabalham em São Paulo.

Até 2004, o Brasil só havia produzido mais de 200 mil motos em dois anos excepcionais. Mas chegou a 1,2 milhão de unidades em 2005. Este ano, a Associação Brasileira de Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Bicicletas e Similares (Abraciclo) espera um aumento de 10%. A recuperação do poder aquisitivo, o financiamento fácil, e o fato de as motos serem baratas e ágeis para circular em cidades congestionadas fomentaram esse auge, explicou ao Terramérica Moacyr Alberto Paes, diretor-executivo da Abraciclo.

Três quartos dos compradores declaram usá-las como meio de transporte, segundo a entidade. Porém, muitas se destinam ao trabalho. No Brasil surgiram milhares de empresas de motoboys e mototáxis, e estima-se que 1,8 milhões de brasileiros vivam dessas atividades. Os motoboys se expandiram especialmente em São Paulo, com 11 milhões de habitantes e permanentemente congestionada por seus cinco milhões de veículos, transformando-se em uma importante fonte de poluição e ameaçando a redução conseguida pelo controle de emissões dos automóveis desde 1986.

Em 2003, as normas nacionais limitaram a emissão de gases pelas motocicletas, determinando redução de 75% até 2005, e fixando 2009 para se chegar a um valor próximo ao dos automóveis, de um grama por quilômetro percorrido. A indústria vem cumprindo o programa, e avanços tecnológicos como a injeção eletrônica e os catalisadores também ajudam a ampliar as exportações, que representam 15% da produção, disse Carvalho. As motos grandes já são produzidas com a tecnologia adequada. O problema são as pequenas, mais numerosas e difíceis de controlar, admitiu.

As motos brasileiras não usam combustível menos poluidor porque o baixo consumo de gasolina não justificaria substituí-la por etanol e ainda não há normas técnicas para usar gás natural em veículos pequenos, explicou Paes. A insegurança é o grande problema a se resolver. Segundo Paes, os acidentes aumentam por fatores humanos, inadequada manutenção do veículo e das ruas, além de falhas na legislação e na capacitação dos condutores. Freitas, do sindicato de condutores, acredita que mais capacitação e correções nas vias de circulação tornarão o trabalho dos motociclistas mais seguro. Organizados e capacitados, "serão uma potência no Brasil", porque é uma modalidade de transporte adequada a países pobres, afirmou.

Os mototáxis, numerosos em cidades médias do interior e no Rio de Janeiro, praticamente não existem em São Paulo, por causa da insegurança no trânsito e os potenciais passageiros não se atreveriam a usá-lo, acrescentou Paes. No entanto, poderão ser viáveis "dentro de dez anos", com reconhecimento da profissão, sua organização e regulamentação, disse Paes. Uma viagem curta de mototáxi custa cerca de R$ 1 nas favelas. Para prevenir acidentes, Freitas propõe exigir dois anos de treinamento antes de poder trabalhar com motocicleta, provas de idoneidade e cursos de direção defensiva. E, nas ruas, usar tinta antiderrapante nas faixas que separam as pistas e limpá-las de areia.

* O autor é correspondente da IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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