Tijuana, México, 20/04/2006 – As advertências dos guias de turismo, que diariamente levam visitantes norte-americanos e similares de hotéis localizados em San Diego para o outro lado da fronteira, chegam a cansar pelo repetitivo de suas mensagens, o paternalismo que conferem às suas advertências sobre os riscos de fraude na compra de jóias e lembranças, e sobre os insuperáveis contrastes que separam as duas sociedades. A primeira coisa que choca é a facilidade com que se cruza a fronteira para o Estado mexicano de Baja Califórnia e os avisos sobre os comparativamente drásticos trâmites aduaneiros e de imigração que esperam o viajante em seu retorno ao norte. Conclusão: as vantagens do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN, mais conhecido como Nafta) beneficiam somente os norte-americanos e canadenses e um número aparentemente alto de países europeus, com grande discriminação para os mexicanos, que não têm sua documentação de residência nos Estados Unidos em ordem.
Os controles de fronteira impostos por Washington e os planos de restrição da imigração anunciados, que geraram protestos de numerosos setores hispanos em uma dúzia de capitais dos Estados Unidos, refletem a importância que tem para a segurança nacional o espinhoso tema da imigração. Ameaça, significativamente, em se converter na prioridade da lista de preocupações, não apenas para o governo (federal e estatal), como também para a sociedade em geral. Na medida em que avança o novo século, apresenta sua candidatura a liderar a lista das obsessões nacionais por sua sobrevivência em uma época repleta de nuvens negras. Pode, inclusive, superar a importância concedida atualmente à luta antiterrorista e à estratégia da aventura no Iraque.
Observe-se que os dois desafios compartilham duas características: têm o potencial de incidir decisivamente nos processos eleitorais e também uma origem externa, não provocada por decisões internas nem que possam ser atribuídas à sociedade norte-americana. A luta contra Bin Laden e seus aliados, reais ou imaginários, e a natureza incontrolável da imigração têm uma origem cujas causas, aparentemente, não são atribuíveis à implicação externa dos Estados Unidos, e vão além de se constituir em imã preferido pelos que desejam melhores horizontes trabalhistas. Curiosamente, a intromissão de Washington no Iraque e o dilema diante da irresistível imigração incontrolada são, na realidade, casos excepcionais na essência fundamental do país, que é originariamente de tendência isolacionista.
Contrariamente ao que, aparentemente, mostra a história ao longo dos séculos, os Estados Unidos tiveram de responder à máxima jeffersoniana que defendia uma aberta relação comercial com todo o mundo, mas sentiam profundas reticências por envolver-se em aventuras no exterior. Por outro lado, a essência imigratória do país foi simultaneamente generosa e discriminatória. Primava a chegada de europeus, castigando com cotas a entrada de orientais, e sempre esperando a assimilação em língua e costumes de todas "as massas famintas e apinhadas que sonhavam em ser livres", segundo reza o poema de Emma Lazarus, plasmado aos pés da Estátua da Liberdade.
"Venham a mim os exaustos, os pobres, as massas confusas ansiando por respirar liberdade"
O espetáculo da imigração hispana das últimas décadas incidiu na psiquê política e social dos Estados Unidos, não apenas por seu volume como também por sua origem identificada na América Latina, sobretudo no México, e à aparente tenacidade com que os novos residentes, legais e ilegais, persistem em compatibilizar sua inserção na cultura norte-americana e conservar suas características culturais e lingüísticas. Ajudados pela globalização e pelas fluidas comunicações, os hispanos nos Estados Unidos violam, desta maneira, o contrato social dos precedentes migratórios, para escândalo e terror dos que consideram que ameaçam subverter a fibra romântica e de identidade que atribui a uma raiz anglo-protestante a marca de fábrica do produto genuinamente "made in USA".
Não se sabe bem se a luta antiterrorista será eterna, embora seja assim que o presidente Bush se encarregue de recordar aos norte-americanos. Porém, o desafio apresenta sinais de sobrevivência durante décadas: tem uma força demográfica que não pode ser parada e é movido pelo próprio "sonho americano", que os que agora resistem se encarregarão de alimentar. Até que as autoridades dos Estados Unidos adotem uma combinação de procedimentos que comecem pela legalização de boa parte dos ilegais (embora pareça discriminatória com os que entram legalmente). Seguiria um programa racional de vistos de trabalho temporário e uma política séria de ajuda externa (com fundos "estruturais" à moda da União Européia) para contribuir com a redução da brecha atual. No momento, não existe consenso para executar tal plano. (IPS/Envolverde)
(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

