Política: A ONU analisa círculo de violência

Nações Unidas, 19/04/2006 – O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas parece dedicado a aplacar o conflito palestino-israelense. A atual escalada de violência desatou uma troca de acusações entre os representantes das duas nações dentro do fórum mundial. A grande maioria dos 191 países que integram a ONU responsabilizou Israel pela degradação da segurança e da situação humanitária na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. "Os ocupantes cometem diariamente, a cada hora e neste preciso instante, flagrantes e graves violações do direito internacional contra a população civil palestina", afirmou, na segunda-feira, o observador permanente da Palestina nas Nações Unidas, Riyad Mansour.

"Atualmente, mais de 9,5 mil palestinos são prisioneiros políticos de Israel, a potência ocupante, incluindo 350 crianças e 120 mulheres", acrescentou. Mansour assegurou que os prisioneiros enfrentam tortura e maus-tratos no cativeiro e têm negada a visita de familiares e advogados. Porém, o embaixador de Israel na ONU, Dan Gillerman, mencionou o atentado suicida, cometido na mesma segunda-feira em seu país, como argumento para manter o controle sobre os territórios ocupados. O ataque suicida, no qual morreram dez pessoas, incluindo o homem-bomba, e 60 ficaram feridas, foi "outro horripilante ato terrorista", afirmou Gillerman.

O diplomata israelense também recordou que o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que encabeça desde janeiro a Autoridade Nacional Palestina, reivindica o "direito" de sua nação "apelar a todos os meios ao seu alcance para se defender". O atentado de segunda-feira "não deve surpreender" (…) quando há apenas duas semanas" o Hamas também manifestou seu "compromisso com todas as formas de resistência, incluindo ataques suicidas", prosseguiu Gillerman. Isto "é muito preocupante", acrescentou o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Nenhum dos dois lados deve colocar os civis em "sérios riscos", afirmou. "É imperioso que velemos por eles e também que lembremos que existem leis internacionais que regem o assunto, especialmente a Quarta Convenção de Genebra", ressaltou Annan.

Os enviados palestinos acusaram Israel de violar essa Convenção, referente ao tratamento da população sob condições de ocupação militar, e destacaram que este país comete "sérias violações" do direito internacional ao exercer a força, excessiva e indiscriminada, contra os civis. Em resposta à inesperada vitória eleitoral do Hamas, que se nega a reconhecer a legitimidade do Estado de Israel, a União Européia e os Estados Unidos cortaram quase US$ 1 bilhão de sua assistência à Palestina. A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) advertiu, na semana passada, que "existe um perigo real de que a situação piore, particularmente na Faixa de Gaza, onde cerca da metade dos 1,4 milhão de moradores vivem em condições de extrema pobreza".

O bombardeio do exército israelense se intensificou, entre cem e 300 ataques por dia desde sexta-feira, "causando sérias baixas civis?, informou a MSF. Não compete às organizações de ajuda humanitária garantir as necessidades básicas da população civil dos territórios ocupados, declarou o porta-voz da organização, Kris Torgeson. "Esta responsabilidade, segundo estipula a Quarta Convenção de Genebra, cabe à força invasora, neste caso, o Estado de Israel", acrescentou. Como os Estados Unidos declararam o Hamas uma "organização terrorista", instituições humanitárias e de assistência que tenham intercâmbios com o novo governo palestino podem ser castigada pelos tribunais norte-americanos.

Torgeson também revelou que a deterioração das condições de segurança, bem como os últimos seqüestros de funcionários internacionais, "nos obrigou a retirar por várias vezes nossas equipes de trabalho em Naplusa, Hebron e Gaza. "O que é pior é o clima de medo e insegurança sob o qual trabalham as organizações de assistência, que não sabem como se conduzir perante os funcionários palestinos sem ficarem expostas a acusações dos Estados Unidos", disse Nadia Hijab, pesquisadora do Instituto de Estudos Palestinos, com sede em Washington. Estes temores são parte das razões pelas quais a ONU limitou seus contato políticos com a Autoridade Nacional Palestina, enquanto o Banco Mundial está verificando os seus.

"O ambiente piora por causa de iniciativas legais do Congresso dos Estados Unidos, no sentido de endurecer ainda mais as medidas contra a ANP", acrescentou Hijab. A especialista também advertiu que um colapso político e de segurança na ANP pode levar ao caos e à guerra civil em Gaza e na Cisjordânia, convertendo-se em um problema ainda maior para Egito, Israel, Jordânia e a comunidade internacional. O governo do Irã prometeu, no final da semana passada, US$ 50 milhões ao governo palestino, que precisa de US$ 170 milhões por mês para pagamento de salários.

O embaixador do Paquistão, Munir Akram, pediu à ONU e às suas agências de assistência que cubram as necessidades básicas da população palestina. As Nações Unidas devem aumentar sua ajuda, "e não cortá-la ou reduzi-la. Embora outros tenham suspendido a assistência à ANP, a ONU e suas agências podem encontrar a forma de canalizá-la, já que está disponível multilateralmente e bilateralmente, para reforçar a ordem e a coesão política, em lugar de aumentar a divisão e a desordem", acrescentou.

Em nome dos 114 membros do Movimento dos Não-Alinhados, o embaixador da Malásia, Hamidon Alí, destacou a necessidade de ser respeitado na Palestina o direito humanitário internacional, que protege a população civil em tempos de conflito e os prisioneiros de guerra. "O Conselho de Segurança não deve ser reticente em invocar suas funções e competências, pelo bem dos palestinos e dos israelenses, pelo bem dos habitantes da região e para atender aos interesses e ao desejo coletivo da comunidade de nações", acrescentou Ali. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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