Washington, 10/04/2006 – Enquanto o governo dos Estados Unidos é cada vez mais exortado a deter o que foi qualificado de genocídio na zona sudanesa de Darfur, os últimos acontecimentos sugerem que o regime islâmico de Cartum não está preocupado com a crise. Um dos muitos sinais desta situação foi a decisão do governo do Sudão de bloquear a visita prevista para esta semana a Darfur do subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, Jan Egeland. O departamento de Estados norte-americano disse que esta medida é "profundamente perturbadora". O desafio de Cartum à pressão internacional foi evidente, sobretudo considerando que tomou a decisão às vésperas de uma esperada votação no Congresso dos Estados Unidos sobre uma moção para expandir as sanções diplomáticas e econômicas contra o Sudão, incluindo medidas contra funcionários e líderes das milícias árabes responsáveis pela violência. "O governo do Sudão não dá nenhum sinal de reconhecer a pressão internacional", disse Eric Reeves, do Smith College, acadêmico que teve um importante papel em forçar Washington a tomar ações mais duras contra Cartum.
Reeves criticou o governo de George W. Bush por não ter investido o capital político e diplomático necessário para fazer com que a comunidade internacional obrigue as autoridades sudanesas a deterem a violência e aliviar a crise humanitária. Os problemas de Darfur, reino independente anexado pelo Sudão em 1917, começaram na década de 70 como uma disputa por terras de pastoreio entre nômades árabes e agricultores indígenas negros. As duas comunidades étnicas compartilham a fé islâmica. Mas a tensão se transformou em uma guerra civil em fevereiro de 2003, quando guerrilheiros negros responderam com violência às hostilidades das milícias Janjaweed.
Os Janjaweed são acusados de levar adiante uma campanha de limpeza étnica contra três tribos negras que apóiam os dois grupos guerrilheiros. Presume-se que as milícias árabes têm apoio de Cartum, ou que faça vista grossa diante de seus crimes. Estima-se que entre 200 mil e 400 mil pessoas foram assassinadas em Darfur desde então e mais de dois milhões fugiram para o vizinho Chade. A situação em Darfur, que o próprio governo de Bush qualificou de genocídio há mais de dois anos, causa cada vez mais preocupação nos Estados Unidos. Enquanto no Congresso se discutia as sanções, ativistas lançavam uma campanha contra as empresas com importantes investimentos em território sudanês.
Até agora, quatro Estados e 10 universidades, incluindo a gigantesca Universidade da Califórnia, ordenaram aos seus departamentos financeiros que vendesse ações, no valor de centenas de milhões de dólares, de companhias como Petrochina, Alstom, Alcatel, Siemens e outras que têm negócios com Cartum. Outra dezena de Estados norte-americanos considera medidas semelhantes. Na semana passada, a Câmara de Representantes aprovou por esmagadora maioria de 416 a 13 a Lei de Paz e Responsabilidade em Darfur, que além de impor sanções contra funcionários do governo sudanês e líderes dos Janjaweed mencionados em um informe confidencial da ONU, fornece dinheiro à limitada força de paz da União Africana presente na região.
A lei também inclui uma exortação a Bush para que impeça que navios de carga ou petroleiros envolvidos em operações comerciais com o Sudão parem em portos norte-americanos, bem como suspenda a ajuda econômica a países que vendam armas a Cartum. O Senado norte-americano aprovou uma lei semelhante no começo deste ano, que agora deverá ser harmonizada com a dos representantes. "Comemoramos a ação do Congresso porque é um claro sinal de que os Estados Unidos têm de fazer algo mais", disse Donald Steinberg, vice-presidente do Grupo Internacional de Crise (ICG), que exortou Washington a liderar esforços internacionais, particularmente dentro do Conselho de Segurança da ONU, para por fim à violência em Darfur.
O ICG – como o secretário-geral da ONU, Kofi Annan – propôs que os soldados da União Africana sejam incorporados a uma força internacional mais numerosa e com um mandato mais severo do fórum mundial. Além disso, exortou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que até agora só deu apoio logístico à operação africana, que contribua para a formação de "uma força-ponte" que seja enviada até a chegada dos soldados das Nações Unidas, o próprio Bush aprovou esta idéia depois de se reunir com Annan em fevereiro, quando chamou a Otan a adotar um papel mais ativo em Darfur.
"Creio que isto irá requerer uma administração, um planejamento e uma organização da Otan, além de duplicar o número de soldados de paz que se encontra ali agora, para começar a proporcionar alguma sensação de segurança", disse Bush durante visita ao estado da Flórida. Mas Washington sofreu uma série de reveses diplomáticos nos esforços para ganhar apoio internacional. O embaixador norte-americano na ONU, John Bolton, conseguiu no começo de fevereiro que o Conselho de Segurança começasse a discutir uma eventual operação em Darfur, mas não conseguiu que fosse aprovada uma resolução autorizando o uso da força.
Por sua vez, a União Africana decidiu oficialmente no mês passado atrasar a intervenção da ONU em Darfur até que sejam cumpridas certas condições, entre elas a aceitação do governo sudanês, o que parece improvável. Cartum conseguiu outra vitória política há cerca de duas semanas ao ser a sede da cúpula da Liga Árabe, que apoiou sua oposição ao envido da força das Nações Unidas. Após a cúpula, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, um aliado de Washington, visitou Cartum para se reunir com seu colega Omar Al Bahsir pela primeira vez em uma década.
Diante destes acontecimentos, analistas concluem que o governo Bush não está disposto a usar sua forte influência na África, no mundo árabe e no Conselho de Segurança para garantir o envio de uma força internacional a Darfur. "Cremos que o discurso da administração é admirável, mas as ações são inadequadas. O governo deve usar todas suas forças diplomáticas", afirmou Steinberg. (IPS/Envolverde)

