Desenvolvimento: Contribuição privada supera a ajuda oficial

Nova York, 24/04/2006 – A ajuda privada para os países em desenvolvimento procedente dos Estados Unidos mais do que triplica a assistência ao desenvolvimento por parte do governo, segundo cálculo do Centro para as Ciências Políticas Públicas do Instituto Hudson. Estas contribuições foram impulsionadas por uma inédita onda de contribuições individuais e incluem as estimativas de remessas de imigrantes, explicou esta organização de estudos de caráter independente. A ajuda não-governamental norte-americana chegou a US$ 70 bilhões em 2004, mais que o triplo da ajuda oficial, segundo o Instituto Hudson, que tem sede em Nova York.

Os atos privados de filantropia – definida como compromisso ativo e voluntário para promover o bem-estar e a felicidade de outros seres humanos – são uma forte tradição nos Estados Unidos, mas a magnitude de seus aportes ao estrangeiro tem sido objeto de análise profunda. "Hoje, devemos ver a relação entre o mundo industrializado e o mundo em desenvolvimento em termos de seu compromisso econômico total", disse à IPS a diretora do Centro, Carol Adelman. Novos e crescentes fluxos financeiros, incluídos os do setor privado, "devem ser estimulados, sem dar importância unicamente em quanta assistência ao estrangeiro é dada pelo governo", acrescentou.

Há quatro anos, a análise do Instituto Hudson calcula as contribuições privadas dos Estados Unidos ao estrangeiro a cargo de fundações, corporações, organizações voluntárias privadas (incluídas as religiosas) e universidades. O estudo também analisa o tempo destinado à assistência ao estrangeiro por indivíduos e as remessas de imigrantes aos seus países de origem. O primeiro relatório do Instituto Hudson foi publicado em 2002, seguindo-se uma atualização feita em 2005. O novo estudo também avalia a meta de assistência oficial ao desenvolvimento dos países industrializados, que, segundo a Organização das Nações Unidas e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), deve equivaler a 0,7% do produto interno bruto, no mínimo.

Esse critério "pode ter sido importante como medida nos anos 50 e 60, mas agora resulta errôneo, incompleto e obsoleto", segundo Adelman. O compromisso, formulado pela primeira vez em 1970, na Assembléia Geral da ONU, foi reafirmado em vários acordos internacionais, incluídos os assinados na Conferência Internacional para o Financiamento do Desenvolvimento, em Monterrey, no México, e na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, de Johannesburgo, África do Sul, ambas realizadas em 1992. O principal objetivo do estabelecimento de uma porcentagem do PIB dos países ricos para a ajuda oficial às nações do Sul é promover o desenvolvimento econômico internacional.

No entanto, essa porcentagem já não é adequada. "Os programas de governo não são os únicos nem os melhores para reduzir a pobreza no exterior", segundo o informe do Instituto Hudson. Os Estados Unidos estão em 21º lugar entre as 22 nações doadoras avaliadas no estudo, de acordo com suas contribuição ao desenvolvimento. A ajuda estrangeira não teve êxito como mecanismo para a redução da pobreza, segundo o relatório, que cita uma pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI) segundo o qual existe "pouca evidência de um vínculo positivo (ou negativo) entre o fluxo de assistência a um país e seu crescimento econômico". A maior parte da avaliação da antiga porcentagem como "errônea" é a "exclusão da filantropia internacional privada e o investimento".

O total do compromisso econômico norte-americano com o mundo em desenvolvimento chegou a US$ 99 bilhões em 2004, e a ajuda oficial representou apenas 20% dessa quantia. Por outro lado, a ajuda privada foi estimada em US$ 71,2 bilhões, ou 72% do total. Essa quantia inclui as remessas individuais (US$ 47 bilhões) e a ajuda dada por organizações privadas e de voluntários, segundo o informe. A ajuda oficial ao desenvolvimento, em nível mundial, cresceu 34% entre 1995 e 2004. O investimento estrangeiro direto aumentou 55% e as remessas dos trabalhadores imigrantes aos seus países de origem, 176%.

Com as contribuições privadas de todos os países doadores superando a ajuda oficial ao desenvolvimento, o fenômeno constitui "um novo e enorme fluxo financeiro que faz uma grande diferença nos países que o recebem", disse Adelman. O dinheiro enviado pelos emigrantes nos Estados Unidos às suas famílias e comunidades tem um grande papel no desenvolvimento econômico e no bem-estar da população de seus países, acrescentou. Os países da América Central e do Sul, por sua vez, recebem US$ 13,3 bilhões. Desse modo, em todo o Sul em desenvolvimento, e especialmente nos países americanos, as remessas de seus imigrantes se convertem em uma grande parte da renda nacional. (IPS/Envolverde)

Lisa Söderlindh

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