Energia: Agência nuclear da ONU taxada de esquizofrênica

Nações Unidas, 24/04/2006 – Ex-ministros europeus de Meio Ambiente afirmam que a Organização das Nações Unidas deve deixar de promover a tecnologia nuclear como fonte de energia, por causa dos grandes riscos ambientais que implica e por seu inquestionável papel no agravamento de conflitos políticos, como o existente entre Irã e Estados Unidos. Destacadas figuras políticas européias, que chefiaram ministérios de Meio Ambiente em seus respectivos países, pedem urgência ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para que reforme o mandato da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) por considerá-la "obsoleta" e "conflitiva".

Esta agência, com sede em Viena, foi criada em 1957 para inspecionar as instalações nucleares em todo o mundo e comprovar que não servem a objetivos militares. Entretanto, seu mandato também lhe permite promover a energia atômica "segura e pacífica". O "trabalho em relação à proliferação de armas nucleares é cada vez maior. Para que seja efetiva, a AIEA deve abandonar esse papel esquizofrênico", afirmou em uma declaração a legisladora finlandesa Satu Hassi, integrante do Parlamento Europeu e ex-ministra do Meio Ambiente de seu país.

Hassi e outros ex-ministros consideram que a AIEA não pode prevenir efetivamente a proliferação nuclear e, ao mesmo tempo, promover a aquisição e o desenvolvimento da energia atômica, cuja tecnologia é utilizada também na fabricação de bombas. "Ao ignorar deliberadamente a inter-relação entre a tecnologia nuclear civil e a militar, a AIEA contribui para a proliferação de material passível de fissão", disse Dominique Voynet, ex-ministra de Meio Ambiente da França que também promove reformas em seu país.

Hassi e Voynet enviaram uma carta a Annan explicando que a atual crise decorrente do programa nuclear do Irã, que está gerando sérias preocupações na comunidade internacional, "faz relembrar, oportunamente, as competências contraditórias que a AIEA detém". A carta também foi assinada por ex-ministros da Bielorrúsia, Bélgica, Dinamarca, Grã-Bretanha, Itália, República Checa, Rússia e Ucrânia. A AIEA tenta fazer com que o Irã atue de acordo com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, por meio da pressão internacional. Os Estados Unidos e alguns países europeus acusam o Irã de pesquisar a fabricação de armamento nuclear, mas Teerã afirma que seu programa destina-se somente à geração de energia elétrica.

Na carta enviada a Annan, afirma-se que a AIEA já se mostrou impotente para evitar que outros planos com supostos fins pacíficos acabassem na fabricação de armas nucleares, como ocorreu com a Coréia do Norte, Índia e Paquistão. Os ex-ministros de Meio Ambiente também consideraram "perigosa e desestabilizadora" a tecnologia nuclear e afirmaram que a agência deve abandonar seu "duplo papel de juiz e representante desta forma alternativa de gerar eletricidade que, por outro lado, é a mais cara do mundo e deixa resíduos radioativos por centenas de milhares de anos". A carta também chama a atenção para o impacto da radiação nuclear sobre a saúde e o meio ambiente. "A energia nuclear já não é necessária. Contamos com numerosas tecnologias renováveis mais seguras, limpas e baratas", afirmam na carta os ex-ministros.

O pedido para modificar o mandato da AIEA coincide com os 20 anos do desastre de Chernobyl. Quando essa central atômica ucraniana explodiu, no dia 26 de abril de 1986, foi o pioo acidente nuclear da história. A AIEA estima que entre quatro mil e nove mil pessoas ainda podem morrer de câncer por causa de Chernobyl. Entretanto, cientistas independentes indicam que as vítimas fatais podem ser muitas mais. Um estudo, divulgado na semana passada pela organização ambientalista Greenpeace, afirma que, provavelmente, o acidente ocorrido há duas décadas termine provocando no total mais de 250 mil casos de câncer, dos quais cem mil fatais.

O estudo "Conseqüências da catástrofe de Chernobyl na saúde humana" é o resultado de pesquisas realizadas por mais de 52 cientistas de todo o mundo. Nele se demonstra que a radiação que a usina lançou no ar provocou uma variedade de doenças, como leucemia e deficiências cardíacas. O Greenpeace acusou a AIEA de procurar esconder as conseqüências desse vazamento. "Negar as seqüelas do acidente não só é insultante para as milhares de vítimas, como também permite recomendações perigosas e o reassentamento de pessoas em áreas contaminadas", afirmou o ativista Ivan Blokov, do Greenpeace.

Cerca de sete milhões continuam vivendo em áreas contaminadas pela radiação de Chernobyl, segundo a organização, que apóia plenamente o pedido dos ex-ministros europeus a respeito da AIEA e o fim da energia nuclear. "A AIEA não pode continuar inspecionando a produção de energia atômica, se não puder, ao menos, admitir sua responsabilidade nas cicatrizes que esta deixou para sempre na vida de muitas pessoas", acrescentou Blokov. Além de criticar o papel da agência da ONU, os ex-ministros europeus também chamam a atenção para os países envolvidos em negócios lucrativos de energia atômica. "A França deve abandonar sua política de venda de material e tecnologia nuclear a qualquer um que esteja disposto a pagar. Isto coloca em risco a paz mundial", destacou a ex-ministra francesa Voynet. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *