Washington, 13/04/2006 – A maioria dos cidadãos dos Estados Unidos considera que a segurança interna e a imagem do país melhorarão se houver aumento dos valores destinados à assistência externa, afirma uma pesquisa feita pelo Instituto Zogby International. Por outro lado, o governo considera interromper a ajuda à Palestina e o Congresso se prepara para cortes em outros pedidos. Segundo a pesquisa, 83% dos norte-americanos entrevistados apóiam a ajuda humanitária e ao desenvolvimento, e consideram que esta deve ser entregue a organizações independentes.
A divulgação do estudo coincidiu com a reunião anual da entidade InterAction, no dia 10, em Washington, da qual participaram centenas de organizações humanitárias, ativistas, funcionários e ex-funcionários, como o ex-presidente Bill Clinton (1993-2991) e Randall Tobias, recém-nomeado administrador da governamental Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). InterAction é uma coalizão de 165 organizações não-governamentais ativas em países do Sul em desenvolvimento, metade das quais financiadas pela Usaid e pelo Departamento de Estado.
A assistência estrangeira é um tema candente em Washington desde que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, anunciou em janeiro planos para revisar os programas vigentes. O debate girou em torno da quantia e do destino da ajuda, sua efetividade e o crescente vínculo entre a ajuda humanitária e militar. Segundo a pesquisa Zogby, quase nove em cada dez entrevistados (87%) consideram que os Estados Unidos deve oferecer assistência diante de emergências como seca, fome, inundação e outros desastres naturais. Aproximadamente 69% concordam que o governo deve contribuir para reduzir a pobreza e ampliar o acesso à educação, entre outros objetivos humanitários.
Uma maioria prefere que o dinheiro seja distribuído por organizações sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos. Somente 13% concordam que os recursos sejam entregues a entidades nacionais operando nos países beneficiados. Por uma margem de mais de cinco a um, os entrevistados consideraram que uma ajuda efetiva poderia melhorar a imagem deste país no exterior e a segurança interna. Cerca de 46% se manifestaram de acordo com esta afirmação. Estes resultados podem ser particularmente relevantes à luz do anúncio de Rice, sobre uma iniciativa de "diplomacia transformadora", que vincularia ainda mais a ajuda monetária com a segurança interna dos Estados Unidos, a democracia e o desenvolvimento dos países beneficiados.
Rice afirmou que a reestruturação da ajuda fará parte da iniciativa para destinar mais diplomatas aos países pobres e às zonas de crise, ensinar mais idiomas falados nos países em desenvolvimento e garantir uma evolução do Departamento de Estado para enfrentar ameaças à segurança no mundo pós-Guerra Fria.. mas esta agenda causa preocupações nos ativistas, pois a ajuda obedecerá, mais do que nunca, as prioridades políticas e militares e não as necessidades de combater a pobreza e a fome. As últimas estatísticas da Usaid justificam essas preocupações, pois expõem os fortes vínculos entre a assistência ao desenvolvimento e a presença militar norte-americana em muitas partes do mundo, especialmente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 contra Nova York e Washington.
No ano passado, a ajuda ao desenvolvimento atingiu seu ponto máximo com US$ 27,5 bilhões, muito superior aos US$ 19,7 bilhões de 2004 e aos US$ 11,4 bilhões gastos em 2001, segundo a Usaid. Entretanto, os aumentos se concentraram em uns poucos países, como o Iraque, onde a ajuda triplicou para mais de US$ 10 bilhões, e Afeganistão, onde quase duplicou para US$ 1,5 bilhão, duas nações ocupadas militarmente pelos Estados Unidos. Quanto ao resto do mundo, a assistência permaneceu igual, com exceção da África, onde aumentou em US$ 500 milhões.
Em fevereiro, o governo de George W. Bush pediu ao Congresso US$ 23,7 bilhões para o orçamento de assistência internacional 2007, um aumento de 14,25% em relação ao ano fiscal de 2006, que terminará em setembro. Isto não inclui as cotas suplementares. No total equivale ao que Washington gasta em menos de cinco meses apenas no Iraque. Para complicar mais o cenário, os legisladores, que enfrentam um orçamento reduzido e um déficit crescente, informaram sua intenção de rejeitar o pedido do governo, mencionando planos para cortar US$ 56 bilhões em programas nacionais de educação, agricultura, ciência e saúde nos próximos cinco anos.
O governo Bush planeja outros cortes na assistência. No dia 7, o Executivo anunciou que reduziria ou congelaria os US$ 306 milhões de fundos destinados à Autoridade Nacional Palestina, em protesto pela vitória do Hamas nas eleições de 25 de janeiro. "Como principais interessados na ajuda internacional dada pelos Estados Unidos, nos preocupa muito que os interesses dos mais pobres do mundo continuem sendo primordiais no processo de planejamento", afirmou o presidente e diretor da InterAction, Mohammad Akhter.
A coalizão InterAction apoiou um aumento de US$ 5 bilhões para 2007 acima da quantia aprovada em 2006. Esses recursos se destinarão a programas de ajuda humanitária como sobrevivência e saúde infantil, assistência ao desenvolvimento, assistência em desastres naturais e a refugiados, e organizações internacionais. Entretanto, um crescente número de especialistas pedem que se reconsidere a utilidade desse tipo de ajuda, argumentando que o aumento de fundos nem sempre é a melhor resposta à pobreza global e à fome, com afirmam muitas organizações não-governamentais.
O que é necessário é uma avaliação independente, e não necessariamente mais fundos, disse no final de março William Easterly, ex-funcionário do Banco Mundial, atualmente professor na Universidade de Nova York. Depois de cinco décadas em que a assistência internacional levou milhares de milhões de dólares às ex-colônias ocidentais, centenas de milhares de crianças continuam morrendo, mesmo em países como Gana, apontados como histórias de sucesso, disse Easterly. (IPS/Envolverde)

