Iraque: Em câmera lenta rumo à guerra civil

Bagdá, 24/04/2006 – Os choques, ocorridos na semana passada, entre moradores do bairro Adhamiya, em Bagdá, onde predomina a minoria sunita, e milícias xiitas, vestindo uniformes militares e policiais do Iraque, têm todos os ingredientes de uma guerra civil. Dirigentes das duas comunidades estão comprometidos há muito com o diálogo de paz, mas seus esforços não conseguem frear a violência sectária desatada nesse país pelo atentado do dia 22 de fevereiro contra a Mesquita Dourada, santuário xiita em Samarra.

Durante várias semanas, barricadas com pneus e troncos de palmeiras impediram a entrada na área de milícias xiitas. Contudo, novos incidentes ocorreram no dia 16, depois de uma blitz realizada na região por pessoas usando uniforme policial. "Antes havia combates noturnos esporádicos, mas nada como isto", contou à IPS um homem que disse se chamar Abu Aziz. "Minha família e eu pensávamos que havia uma guerra, porque eram usadas armas pesadas, como granadas impulsionadas por foguete e morteiros".

A IPS constatou que o céu sobre a área ficou vermelho durante a noite devido às explosões, enquanto helicópteros militares norte-americanos sobrevoavam o lugar. Segundo os moradores, os ataques são responsabilidade de milícias xiitas. "Vi membros da milícia Badr e do Exército Mehdi com uniformes e veículos da polícia iraquiana", disse Aziz. "Tentaram chegar à mesquita Abu Hanifa, mas, graças a Deus, foram detidos antes. Alguns vestiam roupas civis e usavam máscaras negras. Outros eram, definitivamente, comandos do Ministério do Interior". O ministro do Interior, Bayan Jabr, admitiu, no mês passado, que integrantes de esquadrões da morte xiitas estavam infiltrados em forças policiais e militares.

A Organização Badr é o braço armado do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, um partido xiita. O Exército Mehdi é a milícia liderada pelo clérigo xiita Muqtada al-Sadr. No ataque, grande quantidade de pessoas vestidas com uniformes da polícia atacou o distrito, sendo que pelo menos seis veículos policiais foram queimados e ao menos um membro das milícias xiitas morreu, contaram à IPS moradores do local. Eles também informaram que no mínimo dez pessoas, entre eles uma mulher, morreram nos incidentes. "Uniformizados atacaram o bairro. O Ministério do Interior afirma que os uniformizados não pertencem às forças títeres (do governo iraquiano), mas moradores locais estão seguros de que se trata de forças especiais desse Ministério, especialmente das Brigadas Badr", disse um morador de Adhamiya, em uma nota que entregou à IPS. "O bairro foi fechado, a rede de telefones celulares desligada e a energia elétrica foi cortada", acrescentou.

Rebeldes sunitas armados com rifles, fuzis AK-47 e granadas impulsionadas por foguete ocuparam as plantações para deter as milícias xiitas, afirmou o homem. "Quando os uniformizados entraram no bairro, a Guarda Nacional, que usualmente patrulha as ruas, deixou o lugar. Nossos jovens armados lutaram ombro a ombro com mujahidines (combatentes islâmicos) para proteger Adhamiya", acrescentou. "Vários moradores acabaram mortos nas ruas, mas não há números possíveis. Soldados norte-americanos também vieram aqui. No início limitaram-se a observar. Depois, também dispararam contra os moradores que tentavam repelir os ataques", concluiu.

Não foi possível confirmar este relato com fontes independentes. Grupos xiitas negaram oficialmente que seus integrantes tenham usado uniforme policial ou militar para atacar alvos sunitas. O Ministério do Interior, que havia admitido a infiltração da polícia e do exército por parte das milícias xiitas, não deu informação sobre este enfrentamento. A agência de notícias Associated Press assegurou que houve participação norte-americana nos combates. "Oficiais do exército disseram que não sofreram baixas e que planejavam revistar as casas em busca de pistoleiros", disse a agência em um despacho.

Segundo os moradores de Adhamiya, as forças norte-americanas foram ao bairro para dar assistência às milícias xiitas que vestiam uniformes policiais e militares iraquianos. Porta-vozes militares dos Estados Unidos em Bagdá não responderam aos telefonemas e às mensagens via e-mail enviadas pela IPS para consultá-los a respeito. E os incidentes não cessaram. Grande quantidade de xiitas em túnicas brancas e armados de pistolas chegou a Adhamiya, na manhã do dia 18, dispostos a atacar a mesquita sunita Jalal. Testemunhas afirmaram que os homens dispararam contra a mesquita e que houve combates até a tarde, quando foram obrigados a se retirar. Outros grupos armados se aproximaram de Adhamiya a partir de três direções distintas, mas foram repelidos antes de chegarem à mesquita Abu Hanifa. Houve choques perto da mesquita Al-Anbia. Foram registrados duros enfrentamentos em uma das principais ruas de Adhamiya, a avenida Omar Abdul Aziz. A tensão e os tiroteios persistem. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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