Iraque: O necrotério de Bagdá está superlotado

Bagdá, 18/04/2006 – Enquanto as operações de segurança das forças de ocupação, o confronto entre comunidades religiosas e a criminalidade recrudescem no Iraque, o necrotério central de Bagdá está superlotado. Um funcionário, que pediu para não ser identificado, contou à IPS que por dia chegam 60 corpos, e, às vezes, mais de cem. "A média, provavelmente, fique em torno de 85", acrescentou na manhã de um dia deste mês, enquanto grande quantidade de pessoas esperavam fora do edifício autorização para entrar e reconhecer seus parentes entre os mortos.

Os familiares de um homem chamado Ashraf, que havia sido preso pela polícia iraquiana no dia 16 de fevereiro, procuravam ansiosos no arquivo de fotos digitais do necrotério. Ali encontraram seu rosto sem vida. "Seus dois filhos foram assassinados quando ele foi preso", disse seu tio Aziz, de 50 anos. "Ashraf era um pedreiro que só queria fazer seu trabalho. Agora vemos o que nossa nova democracia fez com ele", acrescentou. Aziz soube que a polícia iraquiana levou o corpo de Asharaf para o necrotério no dia 18 de fevereiro, dois dias depois de seu seqüestro. As fotos mostram ferimentos a tiros na cabeça e marcas de pancadas no rosto. Ao que parece, os braços estavam quebrados e tinha o peito destruído por perfurações.

Um relatório divulgado, no dia 29 de outubro de 2004, no jornal médico britânico The Lancet calculou que "aproximadamente cem mil mortes, ou mais" foram causadas por "excessos" desde a invasão do Iraque por uma coalizão encabeçada pelos Estados Unidos, em março de 2003. Em uma atualização desse documento, publicada no dia 8 de fevereiro, Les Roberts, seu principal autor, diz que o número correto de mortes de civis iraquianos poderia ter chegado a 300 mil. Tais estimativas coincidem com a informação obtida pela IPS no necrotério de Bagdá. O funcionário disse que os corpos não reclamados até 15 dias após chegarem são transferidos para a administração de cemitérios, que cuidam de registrá-los. Depois, são enterrados no cemitério de Najaf.

Enquanto o funcionário conversava com a IPS, chegaram ao necrotério três caminhonetes da polícia iraquiana, cada uma com dez cadáveres. "De 1º de fevereiro a 31 de março enterramos 2.576 corpos em Bagdá", disse à IPS um funcionário administrativo do cemitério. Os pedidos de entrevista com empregados da administração do necrotério da capital iraquiana feitos pela IPS foram rejeitados por "razões de segurança". Vários estudos independentes evidenciam a grande quantidade de mortes civis como conseqüência da ocupação. A organização humanitária Iraqiyun, vinculada ao partido político do presidente interino, Ghazi al-Yawar, informou, no dia 12 de julho de 2005, que desde a invasão haviam ocorrido 128 mil mortes violentas.

A Iraqiyun assegurou que havia contado somente as mortes confirmadas por familiares das vítimas e que omitira grande quantidade de pessoas que, simplesmente, desapareceram sem deixar rastros. Outra organização, a Kifah do Povo, envolveu centenas de acadêmicos e voluntários em uma pesquisa realizada em coordenação com "cemitérios de todo o Iraque". Para esta pesquisa também foi colhida informação em hospitais e de "milhares de testemunhas de incidentes nos quais civis iraquianos foram mortos por fogo norte-americano".

O projeto foi abandonado, porque um pesquisador foi capturado por rebeldes curdos e entregue às forças norte-americanas. Nunca mais foi visto. Porém, em menos de dois meses de trabalho, a Kifah do Povo documentou cerca de 37 mil mortes violentas de civis, até outubro de 2003. Somente o necrotério central de Bagdá contabiliza, aproximadamente, 30 mil cadáveres por ano. A essa quantidade devem ser acrescentados outros números grandes: os corpos levados a necrotérios de cidades como Basra, Mosul, Ramadi, Kirkuk, Irbil Najaf e Karbala. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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