Política: A história se repete

Oakland, EUA, 20/04/2006 – Algumas figuras da política externa dos Estados Unidos chamam por uma "mudança de regime" no Irã. Esses mesmos círculos pediam o mesmo em relação ao Iraque nos meses, e inclusive anos, que precederam a invasão a esse país do Golfo. Michael Ledeen, do Instituto da Empresa Norte-Americana, é uma das personalidades que encabeçaram as duas campanhas. Embora não seja muito conhecido fora de Washington, suas opiniões "virtualmente definem a drástica mudança dr filosofia da política externa norte-americana que existia antes da tragédia de 11 de setembro de 2001", comentou, em maio de 2003, William Beeman, especialista da agência de notícias Pacific News Service.

"Basicamente, ele acredita que o destino manifesto dos Estados Unidos é o exercício da violência a serviço da propagação da democracia. Conseqüentemente, se tornou o legitimador filosófico da ocupação norte-americana do Iraque", afirmou Beeman. Mais além do que Ledeen possa pensar sobre o conflito no Oriente Médio, o Irã esteve na mira de George W. Bush durante muito tempo. Funcionários dos governos dos Estados Unidos e da União Européia advertiram que um conflito com o Irã em torno de seu programa nuclear pode ser inevitável, particularmente à luz do anúncio, na semana passada, de que esse país está preparado para aperfeiçoar seu processo de enriquecimento de urânio.

Em seu recente documento de política de defesa Estratégia Nacional de Segurança, a Casa Branca colocou o Irã diretamente no centro de interesse. Ainda falta saber em que derivará a política de Washington para Teerã, mas as sanções econômicas e o uso da força militar parecem opções à mesa. Se o desenvolvimento do conflito com o Irã parece familiar é porque, efetivamente, o é. As instâncias em curso, em que se lida com a possibilidade de um ataque militar contra esse país, não parecem refletir diretamente a mesma etapa no processo da Guerra no Iraque, mas há várias semelhanças.

Como no caso iraquiano, organizações de especialistas de direita e neoconservadores ligados ao governo pressionam para que se produza uma mudança de regime. Como antes da invasão do Iraque, funcionários governamentais alegam que o programa nuclear iraniano constitui uma ameaça contra os Estados Unidos. Organizações de exilados iranianos e seus dirigentes competem pela atenção e pelo apoio financeiro do governo norte-americano. O mesmo aconteceu com os exilados iraquianos, entre eles Ahma Chalabi, antes favorito dos Estados Unidos para substituir Saddam Hussein no poder no Iraque e depois acusado de transmitir informação secreta ao Irã.

Dentro do governo houve desacordos políticos sobre como proceder. Isso não impediu que o caso do Irã esteja sob consideração do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. O presidente da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El Baradei, lembra muito bem aqueles dias tão carregados política e emocionalmente na ONU, antes da Guerra no Iraque. Em um recente fórum em Doha, capital do Catar, El Baradei disse que a comunidade internacional deveria "afastar-se das ameaças de sanções contra o Irã". O programa nuclear desse país não constitui "uma ameaça iminente" e chegou o momento de "baixar o tom" do debate, assegurou.

Os comentários conciliadores de El Baradei no Catar ocorreram depois que o Conselho de Segurança decidiu, no final de março, dar ao Irã um mês de prazo para que cumpra os requisitos da AIEA e detenha seus processos de enriquecimento de urânio. "Não existe uma solução militar para esta situação. É inconcebível. A única solução duradoura é uma solução negociada", disse El Baradei. Três anos depois da invasão do Iraque, muitos dos proeminentes falcões neoconservadores que promoveram a guerra estão afastados das câmeras de televisão.

Não é o caso de Michal Ledeen, que trabalhou no Pentágono, no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional, e esteve envolvido na trasnferência de armas para o Irã durante o caso conhecido como Irangate, durante o governo de Ronald Reagan (1981-1989). Especialista do conservador Instituto da Empresa Norte-Americana, com sede em Washington, Ledeen disse à jornalista Larisa Alexandrovna que a invasão do Iraque, em março de 2003, foi a "guerra equivocada, no momento equivocado, do modo equivocado e no lugar equivocado". Há vários anos, o interesse de Ledeen é que haja "uma mudança de regime" no Irã.

Em uma conversa com Connie Bruck, da revista The New Yorker, Ledeen disse que, já em 2001 e 2002, quando exerceu pressão no caso do Irã "com amigos no governo", teve "apoio de funcionários no Pentágono e no escritório do vice-presidente, Dick Cheney". Segundo Ledeen, entretanto, funcionários do governo sentiram que "o caminho para Teerã passa por Bagdá". O The New Yorker disse que "Ledeen pregou durante anos que o Irã estava à beira de uma revolução popular, que precisa apenas alguma ajuda do exterior para convertê-la em realidade".

Há poucos anos foi desenvolto o suficiente para dizer a um grupo de exilados iranianos em Los Angeles, onde vivem cerca de 600 mil: "Tenho contatos no Irã combatendo o regime. Precisam de fundos. Dêem-me US$ 20 milhões e terão sua revolução". Em março, Ledeen aumentou suas críticas ao governo Bush, na publicação National Review Online, acusando-o de não estar atento diante da ameaça iraniana. Ledeen alegou que o governo não havia feito nada "para tornar mais difíceis as vidas dos mulas (clérigos), apesar da abundante evidência do envolvimento iraniano no Iraque", incluídos "esforços incessantes para matar soldados norte-americanos".

Se a Casa Branca tem sérias intenções de expandir a democracia, "nós apoiaremos ativamente uma revolução democrática no Irã", escreveu Ledeen. A secretária de Estado, Condoleeza Rice, "pediu ao Congresso US$ 75 milhões extras para 'apoiar a democracia? no Irã", mas "a letra miúda mostra que os primeiros US$ 50 milhões serão destinados aos tigres sem dentes da Voz dos Estados Unidos da América e outros comunicadores norte-americanos oficiais, isto é, para empregados do Departamento de Estado", acrescentou.

Ledeen recomendou que os Estados Unidos "atuem contra o Irã e sua meia-irmã Síria, pela carnificina que desataram contra nós e os iraquianos. Conhecemos em detalhe a localização dos acampamentos de treinamento de terroristas dirigidos pelos mestres do terror iranianos e sírios. Deveríamos atacá-los e às bases dirigidas pelo Hezbolá e as Guardas Revolucionárias usadas como pontos de partida para missões terroristas no Iraque. Inclusive, poderíamos ampliar a agenda de assuntos iraquianos ao problema real: negociar sua partida, e depois organizar referendos nacionais por governos livres e eleições para dar poder às ex-vítimas de uma tirania assassina e fanática que convenceu a si mesma de que era invencível", assegurou.

A avaliação de El Baradei sobre a atual situação com o Irã se baseia menos em ideologia e mais em seu trabalho em sua área. O governo Bush ignora um detalhe: os inspetores da ONU não encontraram nenhum sinal de um programa de armas nucleares no Iraque. Os anos transcorridos demonstraram que a AIEA tinha razão quando concluiu que o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein (1979-2003) não possuía nenhuma arma nuclear nem programas para fabricá-las. "Trabalho com base em fatos", disse El Baradei à agência de notícias Reuters. "Felizmente, ficou demonstrado que tínhamos razão no Iraque. Fomos os únicos a dizer naquele momento que o Iraque não tinha armas nucleares, e espero que desta vez sejamos ouvidos", acrescentou. (IPS/Envolverde)

(*) Bill Berkowits é um destacado observador do movimento conservador norte-americano. Publica periodicamente a coluna Conservative Watch na revista eletrônica WorkingForChance.org.

Bill Berkowitz

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