Saúde: Novos desafios na luta contra a aids

Nações Unidas, 20/04/2006 – A falta de preparação para mudanças sociais em grande escala, como as originadas pelos conflitos armados e pela mudança climática, pode propiciar explosivos focos de aids e afetar milhares de pessoas, afirmam pesquisadores. Quase 25 anos se passaram desde a primeira descrição de casos de pneumonia severa na comunidade homossexual dos Estados Unidos, em um informe das autoridades sanitárias desse país, em junho de 1981. Desde então, 65 milhões de pessoas contraíram o vírus da deficiência imunológica humana (HIV, causador da aids) e 25 milhões morreram por causa da doença, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida). A agência calcula que entre 37 milhões e 45 milhões de pessoas vivem atualmente com o vírus.

"Não deveríamos aceitar viver com esta epidemia no nível em que chegou", disse à IPS o diretor de Controle e Avaliação da Onusida, Paul DeLay. "Agora entendemos a epidemia com muito mais clareza" para tomar medidas que a detenham, acrescentou. O principal avanço científico real dos últimos 25 anos, segundo DeLay, foi o desenvolvimento de mecanismos de diagnóstico e tratamento mais baratos e simples, bem como de medicamentos que impedem a transmissão do HIV de mãe para filho durante a gravidez, no parto e na amamentação. O especialista considera nada realista pensar em erradicar a epidemia nesta etapa. "O que devemos fazer é usar todas as ferramentas que temos ao nosso alcance para tê-la sob controle e reduzi-la o máximo possível. Temos de lutar", acrescentou.

Por outro lado, para o pesquisador Samuel R. Friedman, "não estamos percebendo realmente o que pode estar nos esperando mais adiante. Houve uma generalizada falta de atenção às ciências sociais e a questões de grande escala em todos os aspectos do debate sobre a aids", disse à IPS. Isso ocorreu porque os cientistas concentravam sua atenção no comportamento individual e na intervenção médica, afirmou Friedman, que é diretor do Núcleo de Teorias Sociais do Centro para Uso de Medicamentos e Pesquisa sobre HIV dos Institutos Nacionais de Desenvolvimento e Pesquisa dos Estados Unidos. O especialista, junto com outros pesquisadores do seu país e da Argentina, Austrália e África do Sul, identificou seis fatores sociais que poderiam acelerar a propagação do HIV e influenciar a capacidade da humanidade para responder à volátil pandemia, e deixar pelo caminho os avanços já obtidos.

Os novos desafios são explicados na edição de abril da revista AIDS, da Sociedade Internacional para a Aids. Estes fatores são: grandes acontecimentos, como guerras, transições políticas e bancarrotas econômicas ou ambientais; epidemias de HIV em grande escala com suas conseqüências políticas; políticas governamentais que ignoram ou desafiam as evidências científicas disponíveis; sociedades estáveis sem epidemias generalizadas, mas que enfrentam desafios que lhes são próprios; mudanças biomédicas emergentes, e possível fracasso de terapias antes eficazes devido à evolução do HIV. Cada um destes seis itens origina várias linhas de pesquisa. Para responder a estas perguntas "será necessário utilizar todo o arsenal das ciências sociais e dos modernos métodos de pesquisa social epidemiológica", segundo a revista.

"Há uma elevada probabilidade de mudanças políticas, ambientais e sociais maciças nos próximos anos", adverte a publicação. "Estas mudanças ameaçam com uma ruptura em grande escala das redes de segurança, dos padrões habituais de relações sexuais e uso de drogas, e de comportamentos que facilitariam o contágio". O aquecimento do planeta, por exemplo, pode originar migrações em massa, com o conseqüente colapso de certas normas sociais que mantêm o vírus sob controle. Por outro lado, a ascensão do fundamentalismo religioso poderia levar os governos a ignorar ou desafiar as evidências científicas em matéria de prevenção. A relativa falta de pesquisa social em grande escala enfraqueceu a resposta à epidemia, tanto no individual quanto no social, segundo o editorial, que exorta as agências de financiamento, pesquisadores, estudantes, ativistas e comunidades a se informarem melhor.

Quando surgiu a epidemia, "não sabíamos o suficiente para manter uma conversação em termos inteligentes, mas hoje sabemos o suficiente para iniciá-la", afirmou Firedman. Em muitas regiões do mundo, por exemplo, o ponto principal das campanhas é "impedir a epidemia, mais do que, simplesmente, impedir que os indivíduos se infectem uns aos outros". Agora sabemos que alguns dos grandes acontecimentos da epidemiologia da aids, nos últimos 15 anos, tiveram sua origem em grandes acontecimentos, como o colapso dos regimes comunistas da União Soviética, Ásia central e Europa oriental no começo dos anos 90. De acordo com a Onusida, nessas regiões viviam 1,6 milhão de pessoas com HIV em 2005, número 20 maior do que o registrado há menos de dez anos. A epidemia continua crescendo na Ucrânia e na Rússia, o país mais afetado da Europa, com 860 mil portadores.

A situação fugiu ao controle, em parte, pela interrupção em grande escala das redes sociais existentes e desmoralização dos jovens durante o período de transição, que conduziu a uma época de mudanças nos comportamentos sexuais e de uso de drogas, explicou Friedman. Entre as "razões para se preocupar", acrescentou, algumas se manifestam em países pobres e outras, "provavelmente", nos ricos. Entre elas, mencionou a contínua instalação de assentamentos urbanos precários sem serviços de saneamento, com uma maior exposição a parasitas e desnutrição, bem como o recrudescimento dos conflitos armados e o impacto de um possível colapso econômico. Se não forem feitas intervenções efetivas, "poderemos chegar a outros 500 mil a um milhão de infectados muito rapidamente, em cinco anos, ou menos", advertiu. (IPS/Envolverde)

Lisa Söderlindh

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