Trabalho-Futebol: Jogo mais limpo na oficina

Berlim, 05/04/2006 – A proximidade da Copa do Mundo na Alemanha faz com que milhões de torcedores acalmem sua ansiedade comprando camisetas, brinquedos e bolas. Mas, poucos sabem das condições muitas vezes abusivas que enfrentam os trabalhadores que fabricam esses artigos. A enorme demanda de produtos relacionados ao maior torneio de futebol entre nações, que começará dia 9 de julho em Munique, uma das 12 sedes, implica que as oficinas dos países em desenvolvimento trabalhem a toque de caixa para cumprirem as obrigações impostas pelas grandes companhias, segundo dirigentes de uma organização humanitária.

Pressionadas por esses pedidos, as multinacionais de artigos esportivos admitem que é difícil fazer com que sejam respeitadas as condições mínimas de trabalho para pessoas humildes que confeccionam as bolas de futebol e outros artigos, a milhares de quilômetros dos majestosos estádios alemães. "Muitas vezes, há fábricas que não conseguem melhorar as condições de trabalho, e nesses casos deixamos de trabalhar com elas", disse à IPS Reiner Hengstmann, diretor-geral de Assuntos Sociais e de Meio Ambiente da empresa alemã Puma. Grande parte de sua tarefa é verificar a situação das fábricas que em todo mundo trabalham para a Puma.

No ano passado, a companhia rescindiu contratos com 33 fornecedores, em grande parte devido aos baixos salários que pagavam e ao tempo de trabalho adicional, mais de 60 horas semanais, que impunham aos seus empregados, afirmou Hengstmann. O nome da bola que será usada no Mundial da Fifa é "Teamgeist" (espírito de grupo, em alemão), fabricadas pela firma alemã Adidas na Tailândia e que tem as peças coladas a quente.

Mas no resto do mundo, a maioria das bolas de futebol é costurada à mão. Cerca de 80% das bolas fabricadas pelas multinacionais têm origem em Sialkot, nordeste do Paquistão, um centro-chave na exportação de produtos esportivos, mas cujas condições de trabalho são duras. Companhias, como Adidas, Puma e a norte-americana Nike apuraram a produção das fábricas de Sialkot diante do notável aumento das vendas devido à febre do futebol que a Copa do Mundo desperta.

No ano passado, a Adidas duplicou os centros de costura das bolas de futebol na região, mas este rápido crescimento gerou problemas no ambiente de trabalho. Descobriu-se que vários deles não cumpriam os requisitos mínimos e, por isso, fecharam. A preocupação da Adidas pelas condições de trabalho a levou a controlar mais rigidamente alguns temas-chave, com idade, salário e segurança dos trabalhadores, informou a empresa em seu último relatório sobre as condições sociais e de meio ambiente.

A produção em Sialkot de artigos relacionados ao futebol chegou às manchetes da imprensa antes da Copa da França, em 1998, quando se descobriu que o trabalho infantil era uma prática corrente, e freqüentemente as condições de trabalho para eles e para os adultos eram atrozes. O escândalo desencadeou uma mudança de tática por parte das multinacionais. Foi proibida a produção a domicílio, por considerar-se que favorecia a multiplicação do trabalho infantil, e os trabalhadores foram levados para novas oficinas de costura. Esta mudança acabou com o trabalho infantil, mas piorou as condições de muitas famílias, segundo a organização humanitária alemã Brot Für die Welt.

Por causa da criação das oficinas de costura, as mulheres perderam uma importante renda, pois na cultura islâmica do Paquistão elas não podem trabalhar no mesmo local que os homens. Os salários não foram alterados e muitas famílias não puderam comprar produtos fundamentais. A maioria dos consumidores não considera o custo social que existe por trás de suas novas bolas de futebol. Em meio à ansiedade gerada pelo Mundial, a organização alemã por um comércio justo Gepa procura aumentar o conhecimento das pessoas sobre as condições de trabalho nas quais esses produtos são fabricados.

Sob o lema "Fair Pay-Fair Play" (Pagamento justo-Jogo limpo) esta organização tenta fazer com que os trabalhadores de Sialkot recebem uma contrapartida justa por seu trabalho. Costurar os gomos que formam as bolas de futebol demora cerca de uma hora e meia. A Gepa paga à sua sócia paquistanesa Talon Sports um prêmio entre US$ 0,40 e US$ 1 por bola, de acordo com qualidade, além do preço acertado para cada unidade. Esta organização diz que pagou ao seu sócio US$ 260 mil em prêmios. As bolas de futebol "limpas" da Gepa são vendidas entre US$ 12 e US$ 68, incluindo as pequenas para crianças e as profissionais que levam a marca da Fifa.

Porta-vozes da Gepa indicam que esses prêmios permitiram aumentar os salários. Além disso, esta organização alemã concede pequenos empréstimos para que os trabalhadores possam iniciar outros empreendimentos e, assim, não dependerem da produção sazonal de bolas de futebol. Também implementou centros de saúde e escolas, incluindo educação pré-primária para os filhos dos trabalhadores e centros de saúde gratuitos para eles e suas famílias. Por sua vez, dirigentes da Talon Sports afirmam que o plano é um antídoto para os consumidores que buscam preços baixos.

"Na Europa, as pessoas procuram comprar as bolas de futebol pelo menor preço possível, repercutindo nos lucros", disse Ammar Faisal al-Assad, administrador da Talon Sports em entrevista à imprensa. "Graças ao comércio justo, muita gente se conscientizou das pessoas que estão por trás das bolas", acrescentou. As vendas disparam antes da Copa do mundo, porque as bolas "limpas" representam uma pequena porcentagem em relação às que são usadas nos estádios e nas casas de todo o mundo.

Os pequenos empreendimentos são um problema porque freqüentemente exploram seus trabalhadores para manter os preços baixos, disse Bárbara Schimmelpfennig, da Gepa. "A zona cinza está ocupada pelas bolas baratas sem marca e fabricadas sem os controles normais das grandes fábricas", disse à IPS. "Estes centros são abertos antes dos acontecimentos importantes como a Copa do Mundo e desaparecem logo depois", acrescentou. Nos últimos anos, algumas multinacionais tomaram medidas para limpar suas linhas de produção de roupa e bolas de futebol. Seus departamentos ambientais e sociais publicam extensos relatórios anuais sobre seus avanços. Isto atende às exigentes campanhas dos consumidores e defensores dos direitos humanos durante a última década.

"As organizações não-governamentais têm impulsionado esta temática" e denunciado os problemas existentes como os fornecedores, disse à IPS a porta-voz da Adidas, Anne Putz. No início do ano, a Puma deu um passo importante ao vincular-se a ongs, convertendo-se na primeira grife de roupa esportiva a forjar alianças deste tipo. Também anunciou que o grupo de pressão Campanha por Roupa Limpa (CCC, sigla em inglês) controlará as condições de trabalho nas instalações dos fornecedores em El Salvador durante um ano. Apesar de a CCC e a Puma darem as boas-vindas a esta iniciativa, o braço alemão deste grupo pediu cautela.

A contínua busca por preços mais baixos e menor prazo de entrega por parte das companhias repercute negativamente nas condições de trabalho, afirmou à IPS Maik Pflaum, da CCC. Isto significa que a tarefa de manter as condições de trabalho de acordo com as normas é titânica. "O problema é a distância que existe entre o que está no papel e o que acontece na prática", disse Pflaum. "As grandes firmas agora produzem relatórios ambientais e sociais, mas ainda há muito trabalho pela frente com relação ao mercado europeu", advertiu. (IPS/Envolverde)

Jess Smee

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