Ambiente-Caribe: Luta contra a seca começa pelos jovens

Havana, 16/05/2006 – Por trás dos hotéis e dos biquínis, o Caribe apresenta outra paisagem: a seca. Para combater a degradação dos solos e a desertificação, jovens de 16 países da região serão treinados em técnicas de reflorestamento e desenvolvimento sustentável, no contexto de um programa de reabilitação ambiental. "Este é o maior projeto de iniciativa sub-regional" em seu gênero a ser desenvolvido em 2006, ano internacional dos desertos e da desertificação mundial, afirmou à IPS Sergio Zelaya, coordenador para a América Latina e o Caribe da Convenção de Luta contra a Desertificação.

Os 13 Estados insulares do Caribe mais Belize, Suriname e Guiana, participantes do projeto, apostam no desenvolvimento no prazo de dois anos de "atividades nitidamente ambientais, com as agroflorestais, de organização comunitária, capacitação e de energia renovável", acrescentou Zelaya, que atua como coordenador da iniciativa caribenha. Para isso, será criado em Cuba o Centro de Treinamento para o Manejo Sustentável de Terras, segundo ficou acertado no encontro realizado de 8 a 10 deste mês em Havana. O centro será construído em Las Tunas, no leste da ilha, a cerca de 650 quilômetros da capital, uma das províncias cubanas que mais sofre os rigores da seca.

Zelaya, que também é coordenador do programa, destacou que "este projeto é altamente novo e atraente, e inclui as comunidades de jovens que não têm emprego e vivem nas zonas rurais degradadas". Em entrevista à IPS, Mario Abó, funcionário do Ministério de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Cuba, considerou que o centro de capacitação constituirá a "contribuição fundamental" da ilha ao projeto e garantiu que trabalhariam na "transferência de tecnologias" voltadas essencialmente "à extensão de práticas sustentáveis que contribuam para deter a desertificação".

Abó acrescentou que os cubanos também podem aportar seus conhecimentos práticos e compartilhar com os estudantes da região "a própria prática tradicional existente o país em função de aliviar ou reabilitar os ecossistemas com diferentes níveis de degradação". Cuba sofre atualmente a maior seca dos últimos cem anos. Em 2005, a média nacional de chuva foi de 952 milímetros, 69% da média histórica. No ano passado, a falta de chuvas causou perdas econômicas estimadas em US$ 1,350 bilhão e 2,6 milhões de pessoas tiveram de receber água potável fornecida por carros-pipa.

Embora praticamente toda a ilha sofra a seca, as províncias orientais de Holguín, Las Tunas e Camagüey são as mais afetadas. O principal diretor do Ministério da Ciência e Tecnologia em Tunas, Elver Torres, afirmou à IPS que a seca obrigou os moradores "a mudarem hábitos e costumes no uso e economia da água". Torres explicou que a comunidade aprendeu "a consumir a água estritamente necessária" e implementou um programa de economia que inclui "reciclar toda a água possível e substituir os sistemas de irrigação por gravidade pelo de gotejamento".

O secretário-executivo da Convenção de Luta contra a Desertificação, Hama Arba Diallo, afirmou durante o encontro em Havana que "o projeto permite (aos Estados do Caribe insular) enfrentar o problema ao seu modo, utilizando suas próprias experiências e conhecimentos". Diallo destacou que a degradação dos solos e a seca na região incidem negativamente nas indústrias do açúcar e da banana, ao mesmo tempo em que geram uma conta alimentar de milhares de milhões de dólares. Daí a importância da capacitação dentro do programa de reabilitação ambiental no Caribe insular. "É mais barato combater a seca com prevenção do que com reabilitação", afirmou Zelaya.

Entretanto, ressaltou que mesmo no presente existem diferenças na execução dos planos de ação para lutar contra o fenômeno no Caribe, que vão desde países que têm planos em funcionamento até aqueles que não acabam concretizando-os. O programa tem um custo estimado em US$ 4,2 milhões, dos quais US$ 1 milhão já foram doados pela Venezuela, US$ 2 milhões pela China e o restante será completado por entidades civis da Itália e Espanha. Os Estados insulares entrarão com outro milhão "em espécie" com a incorporação de sua comunidade juvenil "como mão-de-obra" capacitada. "É uma iniciativa de muito perfil, mas com gastos modestos", acrescentou Zelaya.

A Convenção de Luta contra a Desertificação foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas reunida em Paris no dia 17 de junho de 1994 e entrou em vigor dois anos depois. A Convenção estabelece que serão aplicadas "estratégias de longo prazo para a reabilitação, conservação e aproveitamento sustentável dos recursos de terras" e hídricos que melhorem "as condições de vida, especialmente em nível comunitário". Enfático, o coordenador do programa chamou à ação. "As oportunidades estão à frente, já passou o tempo de elaborar rascunhos, é hora de colocar mãos à obra", concluiu Zelaya. O programa acertado em Havana será apresentado oficialmente em julho próximo na Cidade do Panamá, quando se reunirão todos os países latino-americanos e caribenhos na XI Reunião Regional de luta contra a Desertificação e a Seca. (IPS/Envolverde)

Orlando Matos

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