Montevidéu, 08/05/2006 – Pela primeira vez desde a restauração democrática de 1985 no Uruguai, seis agentes da ditadura acusados de violações dos direitos humanos foram presos entre sexta-feira e sábado. Estão com ordem pedido de extradição feito pela justiça argentina. A juiz uruguaia Aída Vera Barreto ordenou a prisão de seis dos sete acusados pelo desaparecimento, em 1975, da cidadã argentina María Claudia García, nora do poeta Juan Gelman, em resposta ao pedido de prisão preventiva feito esta semana pela justiça da Argentina.
O subsecretário do Interior do Uruguai, Juan Faroppa, disse à IPS que o ex-militar Ricardo Arab estava detido em dependências policiais desde sexta-feira, enquanto permaneciam presos desde sábado em unidades militares os oficiais da reserva José Gavazzo, Jorge Silveira e Ernesto Rama. O ex-policial Ricardo Medina, que estava foragido, foi detido e também está em uma dependência policial. Outro dos acusados, o militar da reserva Gilberto Vázquez, se entregou ao comando do Exército.
Todos os presos compareceram no sábado perante a juíza Vera Barreto, que ratificou as prisões. Os acusados podem ficar até 30 dias detidos esperando o início do trâmite para determinar se a extradição será concedida. Nesta segunda-feira o embaixador argentino no Uruguai, Hernán Patino Mayer, entregará à chancelaria uruguaia os pedidos das extradições, cuja tramitação no Poder Judiciário pode demorar um ano. O pedido da justiça argentina compreende também o ex-comandante em chefe do exército, Julio César Vadora, já falecido.
A justiça da Argentina investiga a responsabilidade dos uniformizados uruguaios no desaparecimento e suposta morte de Maria Claudia, seqüestrada em agosto de 1976 na Argentina por agentes da ditadura desse país, junto com seu marido, Marcelo Gelman, cujo cadáver foi encontrado pouco depois. Maria Claudia, de 19 anos e grávida de oito meses e meio, foi levada para o Uruguai por pessoal militar uruguaio em outubro desse ano e internada em um centro de detenção ilegal. Depois de dar à luz, foi assassinada no começo de 1977 por um oficial de polícia, supostamente Medina, segundo as investigações na Argentina.
A filha de Maria Clara, Macarena Gelman, foi identificada e localizada no Uruguai, onde foi criada pela família de um policial desde que foi tirada de sua mãe. Esta história ficou conhecida graças a anos de investigações realizadas por seu avô, Juan Gelman. O governo uruguaio do socialista Tabaré Vázquez, iniciado em março de 2005, implementou uma campanha para encontrar os restos de 26 desaparecidos neste país supostamente enterrados em quartéis e outras unidades militares, de um total de aproximadamente 200 com igual destino trágico, na maioria seqüestrados na Argentina.
Até agora, só foi possível identificar os restos de Ubagesner Chávez Sosa e Fernando Miranda, sepultados em locais próximos em Montevidéu e em jurisdição militar após serem assassinados em sessões de tortura. Um informe do Exército entregue ao governo em meados do ano passado com o que parecia a indicação exata dos restos de Maria Clara, não levou a nada, após meses de escavações. Simultaneamente, um processo judicial no Uruguai contra os suspeitos pelo crime da jovem argentina foi arquivado em agosto de 2005, quando o promotor considerou que o caso estava compreendido na Lei de Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado, apesar da opinião contrária do Poder Executivo.
Essa lei foi aprovada em 1986 e ratificada por referendo em 1989 com a intenção de afastar dos tribunais civis militares e policiais acusados de seqüestro, tortura, assassinato e outras violações dos direitos humanos cometidas durante a ditadura. Os seqüestros de Gelman e de García foram cometidos no contexto das operações de conjuntas das ditaduras sul-americanas nas décadas de 70 e 80, conhecidas como Plano Condor. (IPS/Envolverde)

