Caribe: Polícia sobrecarregada apela ao FBI e à Scotland Yard

Georgetown, 11/05/2006 – Governos do Caribe estão apelando a agências policiais e de segurança dos Estados Unidos e da Europa para combater o narcotráfico, a lavagem de dinheiro e as gangues violentas, o que provoca grande variedade de conflitos. Especialistas do Escritório Federal de Investigações (FBI) ou da Scotland Yard (Polícia britânica) dão apoio a forças policiais caribenhas com sua experiência. Mas algumas de suas contribuições têm sido, até agora, inúteis. A maioria dos tribunais da região ainda não aceita gravações de áudio e vídeo e exames de DNA como evidência, o que dificulta o processo judicial de casos graves e de alta repercussão pública.

A Jamaica, que durante a maior parte da década de 90 registrou mil assassinatos anuais, foi o primeiro país a apelar a oficias estrangeiros. O primeiro-ministro, P. J. Patterson, ofereceu o cargo de comissário assistente (o terceiro na hierarquia policial) a um funcionário da Scotland Yard. Além disso – disse – poderia contratar até 10 especialistas britânicos. Por sua vez, Trinidad e Tobago, país rico em petróleo e gás, assolado por violentas gangues ligadas a seqüestros, narcotráfico e outros crimes violentos, contratou 39 oficiais estrangeiros. Essa medida não foi bem recebida pela Associação Social e de Bem-Estar Policial local.

"Nunca houve nenhuma consulta, e tudo o que sabemos é o que ouvimos e vimos na imprensa. Baixou a moral do serviço policial e, a menos que o governo aborde certas coisas, a situação não mudará", disse o porta-voz da associação, Noel Chase. "Em última instância, a responsabilidade do serviço policial de Trinidad e Tobago recai sobre nós. Não esqueçamos que a Scotland Yard tem seus próprios elementos desonestos. A menos que enfrentemos o atraso nos salários, as precárias condições de trabalho e os edifícios decadentes, a moral vai continuar baixa", afirmou Chase.

Em Santa Lúcia, o governo de Kenneth Anthony, aterrorizado pela quantidade sem precedentes de assassinatos (37 em 2004 e 2005, contra menos de 15 nos anos anteriores) deixou de lado seu orgulho nacional e contratou sete policiais britânicos para trabalharem lado a lado com os detetives locais, sobrecarregados de trabalho. "A gravidade dos crimes violentos talvez seja o maior obstáculo ao crescimento e desenvolvimento da Jamaica. Nenhum país pode sobreviver sobre esse peso", disse nesse país caribenho o diplomata britânico Phil Sinkinson, ao apresentar os policiais de seu país que trabalhariam em território jamaicano.

A Guiana também assenta as bases para a cooperação policial com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, especialmente depois do assassinato, no mês passado, do ministro da Agricultura, Satyadeo Sawh, de seu irmão, sua irmã e um segurança de sua residência. O governo de Bharrat Jagdeo pediu várias vezes ajuda ao FBI para melhorar uma força policial com poucos agentes mal pagos e pouco dinheiro. O pedido foi feito em razão do assassinato, no ano passado, de quatro norte-americanos na Guiana. O FBI também levou sua experiência em exames de DNA e outras técnicas para determinar quais soldados roubaram 30 rifles AK-47 de um arsenal do exército guianense em fevereiro. O governo disse que considera seriamente seguir o caminho pelo qual já transitaram outras nações: contratar policiais estrangeiros como assessores.

O governo da Guiana, país que se orgulha de sua soberania e do princípio de não interferência nos assuntos de Estados independentes, deu liberdade a funcionários dos Estados Unidos para realizarem pesquisas em cenas de crimes. Nesta semana, agentes do FBI conduziram policiais e militares em uma ação em uma casa alugada ao sul de Georgetown. Ali prenderam dois cidadãos de Trinidad e Tobago, incluindo um membro da seita Muçulmanos Negros, que tentou derrubar o governo do arquipélago em 1990. O suspeito, David Millard, procurado por assassinatos em Trinidad e Tobago, foi deportado.

Junto como o Comando Militar Meridional dos Estados Unidos, com sede em Miami, o FBI forneceu detectores de metal e informação obtida via satélite a policiais da divisão antinarcóticos da Guiana, apesar de membros dessa unidade serem acusados de roubo à mão armada e ataques mafiosos contra poderosos grupos empresariais. Mas as autoridades praticamente cederam aos Estados Unidos a luta contra poderosos cartéis da droga – aos quais o governo do presidente George W. Bush atribui mais de um quarto do produto interno bruto – porque as forças locais não podem enfrentá-las.

Desde que a violência recrudesceu em 2002, foram registrados 460 assassinatos. Antes, eram cerca de 50 ao ano. Edwin Carrington, secretário-geral da Comunidade do Caribe (Caricom), com sede na Guiana, disse que os crimes violentos se converteram em um importante flagelo no Caribe, como comentou por ocasião da morte do ministro Sawh e de sua família. "A cruel destruição da vida humana devasta nossa decência, civilidade, humanidade e espírito caribenho", afirmou Carrington. "Semelhantes atos de violência não têm lugar na cultura democrática da região e afetam a estabilidade política, econômica e social dos países da Comunidade", acrescentou.

Basdeo Panday, ex-primeiro-ministro de Trinidad e Tobago (1995-2001), ele mesmo condenado por um tribunal por não declarar sua renda perante uma comissão de integridade em Londres, se preocupa pelo fato de os oficiais brancos não conseguirem se encaixar rapidamente na maioria negra a Índia dos países do Caribe. "Suponhamos que eles tentem prender alguém por algum crime e o cidadão seja confundido com um turista", disse. A relação entre oficiais estrangeiros e forças locais deve ser manejada cuidadosamente para evitar a alienação dos funcionários em serviço, acrescentou. Panday disse há pouco tempo que o fato de os policiais britânicos terem sido enviados a Trinidad "foi uma bofetada em nós como país. Se isto var ser um modelo, então necessitamos contratar estrangeiros para que administrem o país inteiro, porque o governo é incompetente", ressaltou. (IPS/Envolverde)

Bert Wilkinson

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