Copenhague, 10/05/2006 – Antes de limpar o planeta e sua atmosfera é necessário fazer o mesmo com a estratégia do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), começando por estabelecer as funções que deve desempenhar, afirma seu próximo diretor, o brasileiro nacionalizado alemão, Achim Steiner. O Pnuma não deveria cuidar de todos os programas ambientais, apesar da amplitude que lhe oferece o fato de pertencer à Organização das Nações Unidas, disse à IPS Steiner, que no dia 15 de junho assumirá a direção executiva desta agência especializada da ONU. "Não se supõe que o Pnuma deva manejar o programa ambiental do mundo inteiro", afirmou, após participar de um seminário sobre administração de ecossistemas organizado pelo governo da Dinamarca junto com a COM+, com é conhecida a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável.
Esta aliança é composta por meios de comunicação comprometidos com a tarefa de informar sobre os Objetivos da ONU para o Desenvolvimento do Milênio e pela Organização Mundial de Legisladores para um Ambiente Equilibrado (Globe), uma rede mundial de parlamentares. Entre os membros da COM+ figuram o Trust do Serviço Mundial da rede britânica BBC, Banco Mundial, Fundação Reuters, União Mundial para a Natureza (IUCN) e a agência de notícias internacionais IPS (Inter Press Service).
"Uma pergunta que se faz é qual o papel do Pnuma e de outras instituições com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação a respeito da pesca, recursos agrícolas, territórios e assuntos específicos do solo, e junto com a Organização Mundial da Saúde sobre questões gerais da saúde humana e ambiental", disse Steiner. "Um dos pontos-chave da discussão é qual papel pode desempenhar um programa específico dentro da ONU em combinação com outras agências, e este não é um assunto aprofundado para satisfação de muitos por ora", afirmou Steiner, ainda diretor-geral da União Mundial para a Natureza.
Steiner não deu pistas sobre seus planos para o Pnuma, mas é claro que os diferentes jogadores da organização terão de lidar com variados e variáveis assuntos ambientais hoje a seu cargo. "Estamos em meio a esta questão com um desacordo global sobre como trabalhar em conjunto, dia-a-dia, sobre estes assuntos. Se observarmos a grande parte dos processos de negociação e condução dos assuntos ambientais veremos como estes enfrentam muitas limitações para poder avançar, em parte pela falta de consenso sobre como encarar um conjunto destes temas", acrescentou.
Mas existe um acordo de que é preciso fazer alguma coisa. "O irônico é que no Norte e no Sul não há grandes desacordos sobre o que está acontecendo e que deve ser enfrentado", afirmou Steiner. "E freqüentemente o se vê nas negociações internacionais é que os países de um e outro lado não chegam a um acordo em uma resolução em particular, mas não porque em seus países estejam fazendo justamente isso, mas por não quererem se comprometer com a comunidade internacional", acrescentou. O desacordo maior é inevitavelmente a divisão Norte-Sul.
Sobre este ponto, Steiner não concorda com a opinião de que os países industrializados estão mais preocupados com o meio ambiente do que o mundo em desenvolvimento. " Nas viagens que fiz ao Sul nos últimos cinco anos pela UICN, nunca tive de enfrentar o problema de funcionários governamentais, de presidentes a ministros, negarem o assunto. Este não é o problema", explicou. Os governos do Sul enfrentam "muitas restrições e dilemas, com muitas opções e equilíbrios para manter, e a pergunta é se a comunidade ambiental e internacional pode ajudá-los a resolver estas questões ou, simplesmente, as acrescentam em sua agenda", ressaltou.
Muitos países em desenvolvimento sentem uma "frustração legítima" porque adotam cada vez mais acordos internacionais "sem que o Norte assuma as obrigações que lhe cabem. Então, para que assumir mais compromissos quando, na realidade, têm pouco a ganhar e muito a perder se o que está em jogo são a soberania e as obrigações", disse Steiner, que apóia o conceito de "responsabilidade compartilhada, mas diferenciada". "Temos de aceitar que não podemos pedir aos países em desenvolvimento que enfrentem o legado histórico de um plano de igualdade com os países que mais contribuem para a deteriorada situação atual, incluindo o nível de consumo que estes têm hoje em dia", acrescentou.
Apesar destas diferenças, a maior esperança de Steiner é que, "se inicialmente não houver grandes desacordos sobre as tendências geais que estamos observando, também nos países em desenvolvimento, o futuro só trará mais ações coordenadas no âmbito internacional". Entretanto, nenhum país, qualquer que seja seu tamanho, nem Brasil, nem China, nem Índia, podem enfrentar sozinhos os problemas ambientais. "Creio que é aí que o Pnuma pode ter um papel significativo. Nesse âmbito pode-se trabalhar para reformular e facilitar uma agenda internacional sobre os assuntos mais urgentes que necessitam ser abordados".
Não é uma esperança idealista ou ingênua. "Há muitos conflitos por recursos, por problemas econômicos reais e muitos interesses enfrentados em jogo, tanto no âmbito nacional quanto no internacional, mas não se pode permitir que se agravem, porque o resultado será mais destruição ambiental, mais possibilidade de disputas internas e internacionais. Nenhum país, nenhum político, quer que esse seja o resultado", afirmou Steiner. (IPS/Envolverde)

