Nova York, 08/05/2006 – "As empresas construtoras estão fazendo muito dinheiro no Afeganistão por um mau trabalho", afirma a jornalista afegã Fariba Nawa em um relatório para a organização não-governamental Corp Watch, que acompanha a ação das grandes companhias. O governo norte-americano "vende" suas operações pelo desenvolvimento do Afeganistão "como se tudo fosse um sucesso", disse Nawa, que obteve sua formação profissional nos Estados Unidos.
"As empresas, que contam com boas ligações políticas e realizam um trabalho semelhante no Iraque", jogaram por terra a reconstrução afegã, mas ainda assim conseguem "bons contratos por um prazo indeterminado" e de maneira direta, sem competição de outras companhias, afirmou. "Estas corporações estão embolsando milhões de dólares e deixando a população cada vez mais frustrada e irritada com o resultado" de seu trabalho, acrescentou. Os empregados estrangeiros contratados "cobram US$ 1 mil por dia, enquanto os afegãos recebem apenas US$ 5,00.
O relatório menciona apenas alguns exemplos: "Uma estrada que desmorona antes de ser construída. Uma escola cujo teto cai. Uma clínica com problemas no encanamento. Uma cooperativa de agricultores na qual agricultores não podem entrar. Policiais e militares afegãos que depois do treinamento não podem fornecer nem a mais básica segurança". O estudo da jornalista "confirma que o Afeganistão foi 'enronizado? pelo governo Bush", disse à IPS o professor Beau Grosscup, da Universidade da Califórnia, em Chico, numa referência à empresa norte-americana Enron, que quebrou em 2001 em meio a um escândalo de corrupção.
A Enron não pagou impostos nos 15 anos anteriores à sua bancarrota, apesar de obter lucros anuais de milhares de milhões de dólares, e, ao quebrar, tinha uma dívida de US$ 30 bilhões e numerosas acusações de fraude contábil. "Como no desaparecimento da Enron, no futuro do Afeganistão haverá uma classe superior que viveu um 'enriquecimento meteórico? e que fugira com o botim, enquanto os pobres, levados a investir grandes quantidades de dinheiro na 'reconstrução? em troca de prosperidade, ficarão na ruína", segundo Grosscup.
Nawa detalhou alguns casos em seu relatório. "Na cidade de Qalai Qazi, perto de Cabul, se constrói uma nova clínica, pintada de amarelo brilhante, construída pela empresa norte-americana The Louis Berger Group", escreveu a jornalista. "Esta clínica deveria servir de modelo para a construção de outros 81 centros semelhantes para os quais a Berger já foi contratada (bem como para construir estradas, represas e escolas, entre outras obras) em troca dos US$ 665 milhões que já recebeu de Washington", explicou. "O problema é que esta 'clínica-modelo? desabou. O teto apodreceu. Os encanamentos, quando funcionavam, pingavam e vibravam. A chaminé, feita de metal fino, pode causar um incêndio no teto. Os banheiros careciam de água corrente e emanavam cheiro de esgoto", diz o documento.
A reconstrução dirigida pelos Estados Unidos inclui milionários projetos para a erradicação de cultivos ilegais de papoula, matéria-prima do ópio, da morfina e da heroína. Para isso, contratou por quatro anos uma empresa privada por US$ 120 milhões para capacitar agricultores em cultivos alternativos. Parte do programa se concentrava na localidade de Parwan e na obtenção de compradores dentro do país e no exterior. Os agricultores, acostumados a plantar grãos, como feijão e lentilha, foram incentivados a produzir verduras. Mas tiveram perdas. A verdura inundou o mercado e os preços baixaram, diz o relatório.
Os especialistas do programa determinaram que os agricultores – que com suas famílias representam 80% da população – precisavam de canais e sistemas de irrigação e meios para melhorar a colocação de seus produtos no mercado interno, a fim de minimizar as perdas com a colheita e restabelecer sua participação no comércio internacional. A solução da empresa contratada foi construir canais para a irrigação. Mas o relatório diz que a papoula precisa de pouquíssima água para crescer e por isso os agricultores acabaram usando a água dos canais para cultivar mais ópio ainda.
Segundo o informe, o governo norte-americano contratou várias firmas de relações públicas para promover uma imagem positiva de seu trabalho de reconstrução. Entre elas o Rendon Group, empresa de Washington que "goza de boas relações com o governo Bush". O Departamento de Defesa concedeu a essa empresa mais de US$ 56 milhões em contratos desde 11 de setembro de 2001 "para divulgar informação positiva sobre os Estados Unidos e seu exército no mundo em desenvolvimento", diz o relatório. Os contratos pedem que "se rastreie jornalistas estrangeiros" e "se incentive (e, às vezes, pague) a publicação de comunicados em favor dos interesses dos Estados Unidos em todo o mundo", diz o documento.
A Rendon também se beneficiou em 2004 de um contrato para capacitar em relações públicas subalternos do presidente Hamid Karzai. Em seguida, "recebeu outra importante concessão de US$ 3,9 milhões do Pentágono para realizar campanhas contra o narcotráfico junto com o Ministério do Interior afegão, apesar das objeções de Karzai e do Departamento de Estado". O informe qualifica de obsoleto este sistema de contratos utilizado pelos doadores internacionais.
"A Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) outorga contratos a empresas norte-americanas", como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional fazem com companhias de outros países doadores, explicou a jornalista afegã. Essas empresas "levam boa parte do dinheiro, mas assinam muitos subcontratos, os quais, por sua vez, consomem boa parte dos fundos, com isso restando apenas o necessário para uma reconstrução que não chega ao nível esperado. A garantia de qualidade é mínima. As construtoras sabem que podem se precipitar, colocar uma nova camada de pintura sobre um edifício antigo e apresentar a conta, sendo que raramente são questionadas" por isso, acrescentou Nawa.
"Como conseqüência, os hospitais desmoronam, as clínicas e escolas caem aos pedaços e existem novas estradas perigosas, um sistema agrícola 'modernizado? que, na realidade, deixou os camponeses em piores condições, além de milícias encorajadas e senhores da guerra mais preparados para desatar a violência contra a população do Afeganistão", diz o relatório. Os afegãos "estão perdendo a confiança nos especialistas em desenvolvimento cujo trabalho é reconstruir e reparar seu país. O que a população vê é um punhado de companhias estrangeiras determinando as prioridades para tirarem o maior proveito e que, para o cúmulo, às vezes são o contrário do que se necessita", ressalta o documento.
Enquanto isso, "a segurança no Afeganistão continua se deteriorando, ameaçando diretamente a reconstrução. Alguns enfrentamentos são simplesmente o resultado da profunda frustração e desconfiança entre os afegãos que já não acreditam que a comunidade internacional vele por seus interesses", revela o informe. O "deliberado uso dos senhores da guerra e das milícias na reconstrução só lhes deu maior credibilidade e poder, enfraquecendo ainda mais o governo eleito e avivando a insurgência liderada pelo movimento fundamentalista Talibã, que continua ganhando poder", segundo Nawa.
A infra-estrutura básica do país "cai aos pedaços" e "o narcotráfico vive um auge repentino. Estes resultados deveriam ser interpretados como um importante revés para 'guerra contra o terrorismo?. Isto é um grande sofrimento para os afegãos, que depois de décadas de guerra acreditaram que, finalmente, teriam um descanso", conclui o informe. (IPS/Envolverde)

